Capítulo 8

O Cemitério de Árvores Secas

Todos retornaram para o vilarejo e o acontecimento do dia anterior pairava em suas mentes. Sempre houve contos enigmáticos, porém tais histórias eram relatadas apenas por pequenos grupos. Os mitos de fato eram reais e os moradores se perguntavam como poderiam conviver com aquela certeza. Pensavam como os caçadores voltariam para as matas sabendo que seria possível encontrar com outros seres da floresta. Agora, aquelas criaturas eram tão reais quanto eles mesmos. Uma espécie de medo estava sobre os habitantes do vilarejo e os fazia pensar que falar sobre o assunto traria mau-agouro. Ninguém foi visto andando nas ruas, pois todos se esconderam em suas casas no restante daquele dia.

Pedro havia retornado com seus avós que, assim como os demais moradores, estavam muito quietos e isolados em seus pensamentos. O jovem pescador se lembrava da despedida da jovem que tanto o encantou, porém aquele foi um adeus com poucas palavras. Ela o justificou a necessidade de seguir com o seu povo. O comportamento de todos os conterrâneos de Pedro era algo realmente estranho. Após um dia tão único, eles evitavam até mesmo conversar entre si. É de se imaginar que ninguém dormiu naquelas primeiras horas e, somente após um café da manhã silencioso, Pedro resolveu quebrar o silêncio. Ele questionou a sua avó se algo assim já ocorrera antes naquela região. Da entrada da casa, o seu avô se impôs em tom firme dizendo:

– Ei! Nada de falar dessas coisas aqui. Não tem pra que ficar querendo falar disso. O que tinha que acontecer já aconteceu! – Falou se dirigindo para a sua esposa com um ar claro de seriedade.

Pedro que acabara de ter aquela grande experiência, não iria se contentar em ficar calado e imediatamente levantou da mesa da sala onde tomava o café. Ele foi em direção à cozinha e se dirigiu novamente à sua avó com a qual desabafou dizendo:

– Eu tenho o direito de saber as verdades, minha avó. Por que meu avô age assim sempre que essas histórias são faladas? O que há de errado afinal de contas?

A velha senhora, avó de Pedro, que estava lavando os pratos na pia da cozinha, baixou a cabeça e, assim como o seu esposo, pediu que ele não procurasse entender aquelas histórias. Pedro ficou surpreso, pois tudo se revelou de forma muito intensa no dia anterior. Afinal, por qual motivo todos simplesmente estavam ignorando o fato ocorrido? Ele se aproximou ainda mais dela e a segurou no braço dizendo:

– É um direito meu saber! Preciso que fale! Eu não conseguirei viver com todas essas dúvidas em minha mente. Jamais esquecerei o que aconteceu ontem.

Então, à revelia do seu marido, a senhora conduziu Pedro até o quarto onde os dois se aconchegaram. Ela sentou na única cama que lá havia e ele se sentou em um sofá velho que ficava em um dos cantos do local. Com isso, eles começaram a conversar.

– Sim, me conte! O que houve? Aconteceu alguma coisa que o meu avô esteja tentando me impedir de saber? – Iniciou o jovem pescador.

– Quando você era pequeno, Pedro, você dizia que via sempre uma mulher de branco. – A avó dele refletia enquanto fala – Mas eu aquilo pensei que era graça sua e que você estava endoidecendo. Eu me perguntei o que será que você estava aprontando, dizendo que estava vendo uma mulher de branco. Fiquei até com medo. A gente fica com medo, não é? Será que estava vendo mesmo? Botei aquilo na mente. Depois você esqueceu. Nunca mais você falou esse negócio que estava vendo a mulher de branco. Será que você via mesmo?

– Eu não sei… quem sabe? Quando eu era pequeno…

– Criança vê! Criança vê muita coisa. Eu pensava exatamente assim. Criança vê muita coisa. Será que não estava vendo alguma coisa mesmo? Você se lembra de quando você pegou a imagem do São Cosme e que você a quebrou?

– Como assim?

– Você e sua prima. Eu tinha dois santos pequeninos aqui. Sua mãe que ficou de me dar outro. Um dia ela foi comprar, mas nem trouxe.

– Mas eu quebrei por quê, minha vó?

– Eu não sei. Você e sua prima quebraram e jogaram ali no canto. Acho que foi fazendo estripulia que quebraram. – Falou apontando para um canto qualquer da casa.

Pedro sorriu e continuou a perguntar:

– Sim, mas e nesse dia que a senhora disse que eu vi alguma coisa, o que mais teve?

– Será que você viu mesmo?

– Eu não me lembro disto ao certo, não sei se a senhora ou se a minha mãe me pegou na janela e que eu ia cair para o lado de fora. Algo assim...

– Foi! Você ia caindo. Quase que eu morro de medo. Você botou a cabeça na janela e ficou de cabeça para baixo. Lembro que você disse depois que viu... Será que não foi um espírito que te protegeu? Será que não foi um anjo de guarda? Você ia cair e ele lhe defendeu. Você ia cair da janela do outro lado de fora da casa. Quando você subiu na janela, eu dei aquele grito. Foi! Você já ia cair. Ai você disse que viu. Foi um espírito que lhe defendeu por que você ia cair de cabeça pra baixo. Você ia cair mesmo. Peguei já pelos pés, foi!

– Eu consigo me lembrar um pouco mais agora, minha vó. Quando eu era pequeno eu realmente ficava vendo essas coisas. E lá na roça, minha vó? O pessoal também contava muitas histórias assim?

– Contava, era! Contava mesmo.

– E a senhora lembra? A senhora chegou a ver alguma coisa lá?

A avó de Pedro levantou dizendo que precisava colocar lenha no fogo, pois iria preparar uma moqueca para o almoço. Ele já imaginava os peixes com azeite de dendê e leite de coco. Aquilo o fez sorrir. Enquanto a velha senhora andava pelo corredor em direção à cozinha, ela disse:

– É meu filho, as pessoas vêem! Vêem muita coisa!

Durante um tempo, Pedro ficou refletindo sobre esses assuntos que sua avó lhe relembrou. Ele não tinha muitas memórias claras do seu passado. Era como se algo estivesse bloqueando suas lembranças. Quando ela retornou da cozinha após iniciar os preparos para o almoço, ele não a deixou nem sentar direito e já começou a perguntar novamente.

– Sim! E lá nas outras fazendas distantes como era?

– Via muita coisa e agora não vê mais. O que aconteceu ontem não dá nem para acreditar.

– Não vê mais? Por quê? Como assim?

– Ninguém sabe. Minha irmã que cansava de ver. – Falou lembrando-se de sua companheira na casa de farinha da família – Ela disse que via muito. Teve um rapaz mesmo que faleceu, era um parente do seu avô. Acho que era primo. Ela disse que cansou de ver ele descer ali do lado do cemitério.

– Descer do cemitério, minha vó? Vivo ou depois de morto?

– Sim! Vivo! Não sei! Era o espírito. Quem sabe? Era seco, podre. Ela disse que o via descendo. As vezes só pra cima, mas para o chão não via os pés. Ela disse que via muita coisa e cansava de ficar até tarde da noite. Ficava no quintal e via descer assim para o lado de lá. Eu perguntava se ela ficava na hora que via. Ela dizia que via ele mesmo e ainda assim ficava. Ele descia tocado, do cemitério pra baixo.

A avó de Pedro descreveu com bastante detalhe aquela pessoa. Ela lembrava que, sempre que sua sogra a convidada para visitar este parente distante, era algo aterrorizador. Esse primo do avô de Pedro era um fazendeiro mesquinho e filho único. Ele morava apenas com a sua mãe e tratava ela como se fosse uma escrava dentro da sua própria casa. Aquele homem a maltratava muito e a situação era bastante incômoda para as pessoas que a visitavam. Naquelas regiões pobres em que muitos alimentos eram escassos, havia uma certa tradição. As pessoas que tinham um quintal entregavam frutas para aqueles que estivessem de passagem. No caso desse fazendeiro, ele tinha uma atitude bastante egoísta. Chegava a ponto de catar todas as frutas que caíssem no chão para que ninguém as pegasse. Certa vez quando Pedro ainda bem pequeno, ele foi com seus avós à fazenda desse senhor e se ousou a retirar uma manga da árvore. Aquilo quase gerou uma separação da família.

Dentre as várias informações negativas sobre esse fazendeiro, a pior de todas aconteceu em seus últimos dias de vida. A avó de Pedro contou que, antes de morrer, aquele senhor cometeu um grave ato herege: ele bateu em sua própria mãe. Ela já era uma senhora bastante velhinha e aquele ato trouxe para ele um mal que pagaria pela eternidade. Quando o fazendeiro faleceu subitamente, poucos compareceram em seu enterro e não houve lágrimas. Todos apenas pensavam no fato de que estariam se livrando de uma pessoa bastante indesejada. Sua mãe morreu na mesma semana, em razão de sentir muito desgosto pelo filho que final ainda acabou deixando-o sozinha. O cemitério no qual aquela família foi enterrada teve que ser particular, pois os moradores do vilarejo não aceitaram que o filho daquela senhora fosse enterrado junto com os demais. O local foi construído dentro da própria fazenda e muitas pessoas ainda mantinham desavenças com aquele homem, mesmo depois de morto.

Ninguém mais foi para a fazenda após aqueles falecimentos e somente depois de um ano um representante do governo regional foi até o local. Ele iria avaliar o que fariam com as terras abandonadas e sem herdeiros diretos. O desinformado andou pelos arredores da região buscando levantar esclarecimentos sobre a situação daquela propriedade. A fazenda tinha terras produtivas, mas a presença de um cemitério logo ao lado da casa principal tornava a localidade indesejada. Ao chegar lá, o representante do governo resolveu visitar os túmulos. Ele encontrou a seguinte mensagem riscada na lápide do fazendeiro:

“Aqui jaz aquele que durante a vida esteve entre o benefício da posse destas terras férteis e a maldição de não possuir uma alma”.

Ao ler aquilo, o representante do governo se assustou. Ele percebeu que a terra que cobria este jazigo estava revirada como se algo tivesse cavado o local. Só não era possível precisar se aquilo aconteceu de fora pra dentro ou de dentro para fora. Esta segunda opção era mais provável pelos rastros que observou ao redor. Ele preferiu não continuar naquele local sombrio e saiu para descobrir o que havia acontecido ali. No dia seguinte ele procurou alguns familiares do falecido e os convidou para que retornasse ao local. Ele desejava que o ajudasse a avaliar se realmente houve alguma violação do túmulo. Ao chegar, os poucos familiares que se deslocaram ao local também percebem que havia algo errado. Eles constataram que houve violação, mas era estranhamente perceptível que aquilo aconteceu de dentro para fora. Lembraram com repúdio do morto e comentaram que o dono daquele lugar pudesse ter se levantado de seu próprio túmulo.

As palavras dos familiares do fazendeiro correram pelas redondezas criando uma nova lenda. Depois que a comitiva retornou daquele lugar, a fazenda foi reclamada pelo governo devido ao seu abandono. Eles tentaram remover os restos mortais durante a demolição da casa, porém encontraram apenas um dos cadáveres. Aquela situação desconfortante nunca foi totalmente resolvida. Alguns trabalhadores que estiveram nas obras de demolição informaram que a todo instante percebiam a presença de um ser estranho. Eles o descreviam como um cadáver que andava entre as sombras da árvores. Era uma criatura em decomposição e logo o chamaram de Corpo Seco. Os mais devotos falavam que era o próprio dono daquelas terras. Diziam que ele foi rejeitado por Deus e pelo diabo, tendo que continuar eternamente ali para pagar os seus pecados. Por este motivo, a própria terra o expulsou antes mesmo que ele retornasse ao pó.

O objetivo do governo local era utilizar aquela fazenda e transformar a região em uma área protegida. Eles sabiam que nela havia várias riquezas para serem exploradas. Essa meta até foi atingida, mas todas as árvores ao redor do cemitério ficaram secas e nada conseguia viver ali. Todos que tentaram andar por aquela região relataram que viam um corpo peregrino em decomposição. Diziam que, caso estivessem distraídos, poderiam ser atacados por esta criatura que costumava abraçar e sugar toda a energia de suas vítimas. Desde esses acontecimentos, a lenda do Corpo Seco foi usada pelos anciões daquelas redondezas para que seus parentes evitassem andar a sós.

A família de Pedro contemplava uma série de relatos que se relacionavam com lendas e mitos. Ele sabia que havia muito a aprender e que seus avós poderiam contar-lhe bastantes sobre esse mundo fantástico de criaturas desconhecidas. Um novo universo de possibilidades estava aberto à sua frente aguardando-o desbravar. A sua vida jamais foi comum como as dos seus conterrâneos, ainda assim certamente voltaria a ser a mesma a partir daqueles dias.