Capítulo 7
O Revoar das Asas Negras
Depois de algumas trocas de olhares entre Pedro e a jovem mulata, ambos, juntos com a senhora que ali estava, entraram no quarto, um de cada vez. Durante a passagem pela porta estreita não houve nenhum barulho estranho. Essa nova sala apresentava um formato hemisférico sem janelas bastante similar a um iglu. No local havia dois castiçais sustentando velas altas e uma grande cama com pilastras e cobertura, ambas adornadas por panos brancos tricotados. Nela estava uma mulher deitada e envolvida por lençóis claros com detalhes dourados e prateados. Pedro parou de repente ao perceber que aquele lugar era realmente muito estranho. Não havia comparação com qualquer outra experiência em sua vida. Enquanto olhava fixamente para aquela grande cama, ele foi puxado pelos braços pelas duas mulheres que o acompanhavam. Ao estar de frente para a mulher debaixo dos lençóis brancos, ele questionou se realmente era necessário estar ali. Agora que podia ver de perto, a mulher aparentava ser muito velha e também estar doente. Ele não entendia exatamente o que devia fazer e houve uma série de indagações de sua parte. Muitas respostas convincentes foram apresentadas pelas mulheres que tinham o objetivo de forçá-lo a continuar.
Pedro estava firme em negar qualquer aproximação. Isso ficou ainda mais evidente quando, em sua primeira tentativa de espiar, ele sentiu um fedor horrendo que emanava da senhora deitada. Também era possível ver que fluidos escorriam por partes do corpo dela. Os lençóis brancos estavam se amarelando cada vez mais. Por aqueles motivos, era bastante complicado o desafio de se aproximar de uma mulher naquela situação. Ainda assim, a bela jovem que Pedro admirava o propôs a aproximar-se da velha e apenas tocar-lhe a mão. Pedro achou que esta tal atitude não o diminuiria como homem ou ser vivente. Ao inclinar-se novamente para a tentativa difícil, houve algo bastante estranho. A velha produziu diversas miragens para ele. Ela começou a se transformar conforme as suas imaginações e os desejos escondidos na mente do jovem pescador.
O fedor de outrora desapareceu, pois a aproximação de Pedro dava uma espécie de poder rejuvelhecedor àquela senhora. Ele parou novamente quando refletiu sobre o que estava acontecendo. Era possível observar a transformação, mas algumas partes do corpo da mulher ainda apresentavam sinais visíveis de doença. Pedro então decidiu que não deveria continuar ali, pois imaginou que poderia acabar contraindo alguma doença. Percebendo a atitude dele, a velha então começou a esboçar algumas reações. Foi então que a criatura mostrou que não era um ser comum e que tinha a capacidade de gerar diversas formas. A velha apresentou algumas transformações tentando atrair novamente a atenção do jovem. Ela se passou por mulheres belas e visões de materiais como ouro e dinheiro. Essa era uma tentativa de convencê-lo a estender novamente a sua mão, pois era dessa forma que a criatura absorvia a energia dele.
Surpreso em ver aquilo, Pedro se assustou e continuou a negar a sua aproximação. Lembrou-se dos contos de seus avós que falavam de um ser chamado Matinta Pereira: uma velha senhora que era capaz de ludibriar as pessoas com suas propostas. Ele entendeu que poderia estar em risco naquele lugar sem janelas. Pedro decidiu ir embora abandonando todas as possibilidades apresentadas ali. Naquele momento, a velha se desfez novamente de sua forma humana. Ela transformou-se em uma nuvem de fumaça esgueirando-se na cama em direção à cabeceira. Pedro observou aquilo e percebeu que ali havia uma imagem entalhada na madeira de uma coruja conhecida como “rasga mortalha”. Pedro falou para as outras duas mulheres dizendo que a velha havia entendido suas intenções de abandonar o local. Ele temia que ela não o deixasse partir. Em fuga, ele saiu correndo pelos corredores escuros em direção à saída. Ao chegar lá fora, viu que todos os moradores ainda se divertiam sem perceber nada de estranho. Lá também estavam os homens que entraram com ele e que voltaram momentos antes. Pedro percebeu em seus olhares que aparentavam não se lembrar de nada.
Já era o entardecer e o jovem pescador observou o inicio do sol se pondo. Ele não imaginara ter passado tanto tempo naquele lugar sombrio. Logo após a sua saída, as duas mulheres vieram atrás dele e se apresentaram à escadaria principal da fazenda. A mais jovem, por quem ele havia se interessado, estava chorava e olhando em sua direção. Ela era contida pela mais velha que a segurava por um dos seus braços. A bela mulata olhou para Pedro gritando por desculpas pelo que tinha colocado em sua vida. Nesse momento, um grande estrondo se ouviu e parte da casa foi destruída. Aquilo foi provocado pelo revoar de uma grande coruja que exibia suas penas negras e gritava em um som agourento. Todos associaram aquele sonido a algo similar ao rasgar de panos. Pedro imediatamente soube que era a monstruosa mulher que o havia incitado tantas vezes. Os outros homens presentes começaram a proteger as suas famílias. Algo os falava que haviam cometido um grande erro ao se expor àquelas tentações naquele dia. Todos buscaram se abrigar dos destroços lançados na direção deles e o som produzido pelo animal voador alcançou suas almas.
Imaginando que havia sido ele, Pedro, quem despertou o monstro, isto o fez sentir-se no dever de proteger as pessoas que ali estavam. Ele resolveu se redimir do seu egoísmo ao tentar ganhar algo naquele lugar amaldiçoado. Agora estava em busca de armas que servissem como defesa contra o animal voador. Ele saiu correndo enquanto o sol, vermelho como sangue, ia cada vez mais desaparecendo no horizonte. A ave fazia algumas investidas contra ele e gritava para tentar intimidá-lo. Contudo, Pedro conseguiu esquivar-se e continuava vivo. Não era um animal comum, suas asas tinham formatos mais alongados e o seu corpo negro se confundia com a noite. Todos olhavam e torciam para que Pedro conseguisse vencer, entretanto, com o total pôr do sol, ele sabia que não conseguiria derrotar o seu oponente facilmente. Ele voltou correndo ao encontro dos demais para tentar levá-los a um lugar mais seguro. Todos aproveitaram o incêndio provocado pela destruição na casa da fazenda e isto fez a fera se afastar para a mata fechada.
Naquele momento não havia mais separação entre os moradores convidados e as mulheres escravas, pois todos estavam juntos tentando proteger-se da criatura que os intimidava. Todos foram conduzidos a uma área da fazenda que era mais distante e isolada. Essa região ficava depois de um pequeno monte e isto a escondia dos olhos da coruja. Lá havia ruínas de um palacete e todos puderam se abrigar no local. Enquanto isso, Pedro procurava novas armas para continuar o embate contra o animal que tentava matá-los.
As escravas da fazenda então começaram a esclarecer aos convidados o que de fato estava acontecendo naquele dia. Elas explicaram que estavam presas há muitos anos e não havia respeito às ações de libertação da escravatura daquela época. Disseram que não sabiam exatamente como tudo havia começado, mas as anciãs contavam que a velha era um ser maligno que consumia a vitalidade dos homens. Num passado distante, alimentava-se dessa mesma energia apenas fazendo trocas com eles. No início eram apenas coisas pequenas do cotidiano como fumo e charutos, mas com o passar do tempo ela se tornou ainda mais gananciosa. Se fosse contrariada, trazia desgraças para aqueles que recusassem a sua imposição de realizar permutas. Agora que havia consumido todos os homens de sua fazenda, ela precisava de outros mais. A criatura desejava novas vidas para sacrificar e com isso saciar a sua sede.
As escravas também contaram que viveu um valoroso senhor naquelas terras. Foi ele quem tivera o último embate com aquele ser maligno e isso aconteceu depois de ver muitos dos seus escravos mortos. Durante a luta, o senhor da fazenda perdeu todo o seu palacete que foi construído em homenagem à sua filha. Somente após uma dura batalha, ele conseguiu cravar uma lança no peito da fera. Aquele ferimento a fez regressar ao seu estado mais frágil que era a forma de uma mulher. Mesmo vencendo a disputa, o senhor não teve mais forças e pereceu ali no solar do seu palacete. A criatura pulou pela sacada e desapareceu nas matas. Recuperada de suas forças após certo tempo, ela retornou para torturar e aprisionar todas as mulheres restantes. Pedro enfim entendeu o que havia acontecido. Ele imaginou que sua atitude de se aproximar daquela velha deu energia suficiente à criatura para se reerguer. Lá estava aquele ser maligno que aguardava aproveitar-se da vitalidade de outro homem. Com estas percepções, Pedro sentiu-se ainda mais na obrigação de desfazer o mal que havia acordado. Ele subiu até a torre de uma capela construída nos fundos do palacete para chamar a atenção da fera. Agora estava ainda mais motivado a derrotá-la de uma vez por todas.
Já na parte mais alta da pequena capela, Pedro encontrou então um cenário que remetia aos contos das escravas que descreveram a batalha entre o senhor da fazenda e a Matinta Pereira. Ele podia afirmar que estava exatamente no mesmo espaço daquele último evento. Lá encontrou em meio aos destroços um forte escudo e uma lança, ambos esculpidos em um material azul com adornos em ouro e grandes safiras. Pedro então, buscando emitir algum som, bateu a lança no escudo para chamar a atenção do animal que estava até o momento desaparecido. Logo nas primeiras investidas ele ouviu o som da fera que gritava à distância e ela o localizou rapidamente. Pedro se preparava para mais uma batalha ouvindo o bater daquelas grandes asas vindo em sua direção. Quanto mais o inimigo se aproximava, suas novas armas reluziam uma luminosidade azul cada vez mais intensa. Pedro não entendia o motivo daquela reação do escudo e da lança, mas era envolvido por algo positivo que tendia a protegê-lo. Ao ver a luz de lá de baixo, os escravos gritavam que era a cor usada pelo senhor da fazenda. Diziam que era o espírito dele que estava tentando proteger o jovem pescador. Ele se encheu de coragem e percebeu que agora estava transformado em um guerreiro.
Pedro foi fortalecido pela reação das pessoas lá em baixo, mas o animal era bastante grande e ao chegar destruiu ainda mais o ambiente onde ele estava. Estranhamente, a coruja parou em um momento de raiva e gritou em direção ao local no qual teria o senhor da fazenda a derrotado. Pedro aproveitou para retornar pelas escadas da torre, porém o animal o seguiu destruindo tudo por onde passava. A ave gritava na direção dele e tentava agarrá-lo com seu forte bico. Sempre que Pedro usava seu escudo ou sua lança para se defender, a luz ficava mais forte quando estava em contato com a fera. Ele podia sentir claramente a presença do espírito do senhor da fazenda na tentativa de ajudá-lo a vencer aquele embate.
A velha, transformada em uma coruja rasga mortalha, o seguiu até o andar mais baixo do palacete perto de onde estavam abrigadas as outras pessoas. Naquele momento não havia mais o que fazer se não encarar o monstro de frente e tentar vencê-lo. Pedro agora já observava claramente o espírito completamente visível daquele senhor do qual as escravas comentaram. Ele estava armado com os mesmo itens que o jovem pescador e pairava majestoso ao seu lado em trajes de batalha com tons azuis.
O animal também podia ver os dois em prontidão à sua frente e, por um instante, hesitou em avançar. O espírito olhando para Pedro orientou em gestos para que matasse a fera ao seu sinal. O senhor foi em direção à grande coruja que se levantou batendo suas asas para impedi-lo. Ele foi jogado para frente e caiu de costas no chão. Foi nesse mesmo momento que o animal investiu em sua direção para esmagá-lo com seu forte bico. Então o espírito olhou na direção de Pedro e isto serviu como sinal para que ele atacasse naquele momento. O rapaz, aproveitando a posição de cabeça baixa da grande coruja, arremessou a lança que atravessou o crânio do animal fazendo-o cair sobre seu companheiro ao chão. Neste mesmo momento a lança do senhor caído também atravessou a boca da fera encravando o metal em sua garganta. Em um último movimento, a ave expeliu uma chama azul misturada com a áurea do senhor da fazenda numa grande explosão que cobriu os dois e os fez imediatamente transformar-se em pedra.
Todos ficaram abismados ao ver aquela cena do senhor ao chão com a fera sobre ele. Como foi dito pela anfitriã durante a manhã, aquele realmente foi um dia único na história dos moradores daquele vilarejo. Não há dúvida de que foi ainda mais para o jovem Pedro. Uma anciã que morava com as escravas foi trazida à presença dele e ela o pediu que as libertasse. O jovem pescador não entendera muito o pedido realizado, pois não percebia como poderia fazer algo que de fato as ajudasse. Foi então que a senhora pediu que ele dispusesse o escudo de safiras azuis ao lado da coruja e com isso as deixasse ir embora. Ela ainda informou que há muito se iniciou a construção de um quilombo afastado da fazenda e aquele era o lugar para onde desejavam ir. As mulheres temiam a revelia da velha Matinta Pereira caso retornasse à vida. Elas pensavam, referindo-se ao escudo, que deixar todos os vestígios naquele lugar poderia ser uma escolha melhor do que levar algum legado daquele evento.
Pedro foi tentado pelo valor que tal raro equipamento poderia ter, mas a jovem bela que o observara a todo tempo se aproximou e o acompanhou a colocar o material ao lado da estátua da coruja. Ao fazer isso, imediatamente o escudo também se transformou em pedra e se fixou ao restante que ali estava. As escravas cantavam sentindo-se livres e, depois de alguns instantes cuidados dos feridos, o nascer do sol representou um novo começo para todos. Houve despedida entre todos que ali estavam e a bela jovem saudou Pedro com um beijo no rosto. A sua presença naquele grupo era muito importante e ela precisava acompanhá-los. Apenas alguns olhares foram trocados entre eles e os dois grandes grupos tomaram cada um o seu rumo, as escravas em direção ao quilombo desejado e os visitantes de volta para suas casas.