Capítulo 6

Um Convite ao Acaso

Muitos anos se passaram desde as aventuras do décimo terceiro navio e diversos registros históricos simplesmente desprezaram a sua existência. O próprio rei D.Manuel I desistiu do seu devaneio e abandonou a sua ideia mitológica por não ter notícia alguma dessa misteriosa embarcação. Muita coisa mudou desde o reinado do Venturoso: a ilha da Alamoa, descoberta por Ataíde, passou a se chamar Fernando de Noronha, assim como a Ilha de Vera Cruz, descoberta por Cabral, passou a se chamar Brasil. A partir de agora será apresentado outro momento da história no qual será relatada a vida de um simplório morador de um vilarejo afastado em pleno recôncavo baiano. Esses novos fatos aconteceram mais de trezentos anos após o incidente com a embarcação do capitão Vasco de Ataíde. O novo ambiente a ser apresentando é um tipo de lugar como aqueles descritos em contos antigos os quais nossos avós nos presenteiam em noites chuvosas. Nestas histórias os raios e os trovões são parte integrante da narração, misturando sempre o real e o fictício. Estas histórias demonstram que há lugares em que as lendas são tão reais quanto as pessoas que as contam.

Em uma manhã nublada em que o sol se escondia tênue por trás das nuvens, todos naquele vilarejo acordaram com uma atração bastante peculiar. Havia uma fazenda isolada em uma localidade distante, pouco frequentada, que emitiu diversos convites a todos os moradores das redondezas de sua região. Estava escrito nele para que as pessoas comparecessem àquele lugar, pois lá haveria um grande evento. Sendo bastante comum nesses lugares pequenos, todos se conhecem e o convite se espalhou rapidamente mobilizando-os a estarem no local determinado. Pedro Nolasco da Encarnação, um jovem pescador, era um dos mais animados moradores que desejava comparecer ao local do convite. Mesmo sem conhecer aquela fazenda que era bastante isolada, todos acreditavam que era um local cheio de farturas e que lá havia lindas escravas mulatas vindas da África.

Pedro estava acompanhado de seus avós que também se apresentaram bem curiosos para saber do que se tratava. Todos se deslocaram como puderam, alguns foram de charretes e outros até mesmo foram andando pelas trilhas por meio da mata atlântica bem densa. Foi uma jornada bastante difícil, pois em muitos momentos não havia um caminho definido para se dirigir ao local desejado. Para que todos seguissem a viagem com segurança, uns foram ajudando os outros nas passagens quase virgens. Ao chegar à fazenda distante, eles entraram pelos portões principais de ferro que ainda não aparentavam nada da magnitude do lugar. Eram objetos baixos e frágeis, talvez apenas um metro de altura e uns cinco metros de largura ao todo. Na entrada havia uma guarita construída em alvenaria antiga da época colonial do Brasil. Ela ficava logo à direita do portão, mas não tinha nem portas nem janelas, gerando um entendimento de que ninguém fazia guarda ali há um bom tempo.

Os animais da fazenda, em sua maioria bodes e cabras, andavam pelo meio das pessoas que chegavam cada vez mais. Algumas escravas começavam a se apresentar e recepcionar os visitantes convidados. Eram mulheres de fato bonitas com roupas surradas devido ao trabalho árduo, mas demonstravam as fadigas da escravidão por meio de marcas nos pulsos e nos tornozelos. Aquela beleza, algo incomum as redondezas e principalmente entre escravos maltratados, não deixou parecer que havia algo estranho. Todos pensavam exatamente o contrário, pois aquela visão das belas mulheres os encantava e eles que se sentiam cada vez mais felizes por estar ali. Pedro e seus avós se dirigiram pelo caminho batido de terra que ficava entre a entrada e a grande escadaria das construções da casa da fazenda. Eles então chegaram ao lugar onde todos já estavam sendo acolhidos. Os três foram conduzidos por uma simpática jovem de pele da cor de chocolate, cabelos negros adornados por longos lenços e um sorriso contagiante em seu rosto. Havia um tratamento especial para cada um dos grupos que chegava à fazenda e não foram observados capatazes nem senhores de engenho. Ninguém reparou ou se incomodou com aquele detalhe incomum, afinal o Brasil já estava caminhando para abolir aquele tipo de instituição escravocrata.

Algo que foi identificado por todos que estavam reunidos foi o fato de que vieram muitos homens trabalhadores dos campos e dos mares, eles possuíam qualidades chamativas como a força, a beleza e a virilidade. Despretensiosamente, Pedro observou tal perfil dentre os convidados masculinos, mas não fez nenhum julgamento sobre essa situação. Assim como os demais, ele pegou um pequeno banco e se sentou com seus companheiros de viagem. Para ele, era algo estranho observar que tudo se assemelhava muito a alguma espécie de preparo para uma competição. Instintivamente todos se agruparam esperando a hora para iniciar alguma atividade. Eles aguardavam ansiosos por informações na área aberta em frente à entrada da casa da fazenda, pois haviam algumas mesas cobertas e os fazia pensar em banquetes.

Sem entender muito qual seria o motivo de tantas pessoas convidadas naquele local e também o motivo pelo qual todos estavam se reunindo daquela forma, Pedro esperava ansiosamente que alguém lhe desse alguma orientação do que aconteceria ali. Depois de um tempo, quando praticamente todos os convidados estavam reunidos na fazenda, houve um momento único dentre toda aquela agonia de conversas. As pessoas se sentiam felizes e mantinham diversos outros sentimentos bons por estarem em um lugar tão interessante e chamativo. Eles tinham em seus corações a esperança de uma manhã excepcional naquele dia. De fato, algo singular aconteceria, não apenas naquela manhã, mas em todo aquele dia. Inesperadamente, o silêncio se fez entre os presentes e apenas o som do vento foi percebido. Até os animais desapareceram e nenhum de seus barulhos era mais escutado.

Nem aves, nem caprinos eram vistos naquele momento. Apenas os olhares de questionamento pairavam no ar para tentar entender o que aconteceu de forma tão repentina para que todos ficassem em silêncio. Foi então que apareceram duas mulheres na parte principal da casa da fazenda. Da mesma forma que os portões da entrada, as portas daquela residência também não eram muito chamativas. Eram apenas passagens para um ambiente que parecia abandonado. Nem portas nem janelas estavam intactas e apresentavam uma ação perceptível do tempo. Uma das mulheres era exatamente aquela a mesma que recepcionou Pedro em sua chegada e a outra era uma jovem senhora bastante bonita, tendo apenas o tempo e a idade a deixado algumas marcas no rosto e no corpo. A beleza das duas era algo facilmente percebido, cada uma ao seu modo. Os homens, apresentando-se em uma considerável maioria naquele encontro, ficaram todos atenciosos para ouvir aquilo que elas tinham a dizer. Então a mulher mais velha começou a falar:

– Bem vindos! É bom dizer bem vindo a vocês. Hoje é um bom dia e ter vocês aqui é bom. Está todo mundo perguntando por que chamamos vocês. A gente é vizinha que mantém os portões fechados e que não aparece muito. Algumas coisas mudaram e a partir desse dia a gente espera mais visitas. Todos devem estar muito curiosos para saber tudo de hoje, então vou falar tudo. Chamamos vocês para se divertirem, para que tenham uma boa manhã e um dia único. Todos foram convidados, mas agora venham apenas os homens mais corajosos. Faremos algumas atividades que irão precisar de atitude e coragem. Venham e entrem em nossa casa se acreditarem que estão aptos para isto.

Naquele momento os homens mais viris do vilarejo levantaram e imediatamente se colocaram prontos para aceitar o convite. Estes agiram diferentemente de todos os demais que escutaram este pronunciamento e foram totalmente encobertos de questionamentos. Pedro não quis ficar pra trás nesse critério do quão viril seria e se colocou logo à disposição para também participar assim como os outros. Ele era um rapaz novo e não tinha muitas dessas qualificações viris como os demais. Ele era pequeno, magro e aparentemente fraco. As duas anfitriãs acompanharam o grupo de homens pelas escadas para dentro da casa da fazenda. Eram exatamente seis participantes contando com Pedro. Aos que ficaram aguardando fora da casa foram dadas formas de distração como música e boas comidas. Tudo então se tornou festa lá fora enquanto lá dentro, cada vez mais entre as salas daquela morada, tudo se tornava mais quieto e silencioso. Então, as mulheres pararam o grupo em uma sala vazia e apresentaram o esperado desafio. Dessa vez, a mulher mais jovem foi quem falou:

– Vocês estão aqui para marcar a nossa vida e a de vocês. Vieram aqui para se divertirem e nos dar o que tem de melhor. Queremos sua força, seu calor, seus braços. Precisamos de vocês, queremos que sejam nossos.

Nesse momento, várias outras belas jovens escravas mulatas, com roupas mais leves, entraram na sala e se direcionaram aos homens que ali estavam. Eram exatamente o dobro deles e encheram a sala com sensualidade. Pedro meio que foi ignorado, pois acredita-se que não era considerável como um bom representante de força e virilidade. Ainda assim, duas belas negras se aproximaram do jovem rapaz. Percebia-se que a intenção das mulheres talvez fosse prepará-los para algo que estava por vir. Quando todos já estavam extremamente confortáveis e envolvidos com todos aquelas carícias, a mulher mais velha os interrompeu sendo seguida novamente pelo silêncio de todos.

– Está bom? Estão gostando? – Percebia os olhares lânguidos dos convidados – Que bom, mas somente um vai poder continuar em frente. Pois é! Somente um! É só um que pode ter uma para si. Apenas um. Apenas o que aceitar vai poder ficar.

Todos se questionavam o porquê daquele impedimento repentino, visto que muitos deles já estavam quase completamente despidos e totalmente envolvidos com suas parceiras momentâneas. Qual seria então o motivo de tal bloqueio? O que significaria a mensagem de que apenas o que aceitar pode ficar? Nesse momento, todas as mulheres saíram da sala pelas mesmas portas que entraram. O lugar era bastante estranho, era um pequeno salão circular com quatro saídas por onde as mulheres retornaram e outra porta que estava fechada. Nenhum deles conseguia imaginar o que viria a acontecer em seguida. Foram então sugestionados pela senhora anfitriã que, aquele mais corajoso entre eles, abrisse a única passagem pela qual não havia saído nenhuma mulher. Era uma passagem bastante pequena que somente dava para passar apenas uma pessoa por vez.

Antes que alguém se candidatasse, alguns sons bem estranhos foram ouvidos de lá de dentro. Eles conseguiam distinguir como sendo gemidos de sofrimento. O medo do desconhecido tomou conta de todos e até mesmo os mais corajosos se sentiram despidos da sua vitalidade e do sangue em suas veias. A mulher mais nova esclareceu que não precisavam temer, pois naquele quarto havia apenas outra mulher. Era a mais misteriosa, a matriarca daquela sociedade que habitava a fazenda há muitos anos e era ela quem os esperava lá dentro. Alguns detalhes sobre esta pretendente desconhecida não foram posto de forma clara pelas duas mulheres e tais informações ditas nas entrelinhas não agradou muito aos que ali estavam. Eles estiveram a pouco com várias mulheres jovens e agora tinham que simplesmente dispor-se com uma velha misteriosa que provocava medo devido aos sons estranhos que emitia. Aquilo era algo que não entendiam e que não estavam dispostos a enfrentar.

Os homens começaram a se vestir novamente e voltaram pelos corredores resmungando sobre o ocorrido. Ao final daquela retirada, apenas Pedro continuou na sala, pois se sentia de alguma forma encantado pela jovem que o havia recepcionado. Em uma ação inesperada, ele resolveu mostrar uma coragem que não se embasava em nada a não ser, talvez, numa tentativa impulsiva de impressionar aquela que lhe encantou. Pensando que nada ruim haveria em fazer aquilo que era proposto, ele levantou o braço e disse que entraria no quarto pouco iluminado. Como se fosse um troféu antecipado, Pedro recebeu um breve sorriso de sua pretendente quando mostrou que seria o único ali a aceitar o desafio. Muitas vezes as pessoas são impulsionadas a tomar decisões impensadas pelo ímpeto de seus sentimentos. Pedro provaria o sabor de uma má escolha devido àquela atitude movida por uma prova desnecessária de coragem.