Capítulo 5

As Revelações do Capitão

Com o nascer do sol, a tripulação acordou e eles foram agraciados com os golfinhos que chegaram logo cedo. A água transparente e a beleza do lugar eram convidativas, principalmente após aquela noite difícil. O espírito desbravador foi emanado entre os tripulantes e logo no início da manhã várias embarcações auxiliares da nau já estavam colocadas na água. O capitão ordenou que alguns poucos homens ficassem a bordo, inclusive o guarda desenhista que foi assombrado na noite anterior. Vasco de Ataíde seguiu com os demais tripulantes para conhecer as redondezas da região. Eles retornaram pela primeira praia e ficaram de longe apenas observando a sua areia branca. O local apresentava um belo contraste com a vegetação que cobria as paredes de pedras. Ao chegar à segunda praia, eles estavam novamente frente às pedras salientes, as quais comparavam aos seios de uma mulher. Mantendo sempre a precaução, Vasco de Ataíde orientou que todos estivessem sempre atentos. Mais a frente estava o alto pico rochoso que tanto perturbava o capitão. Enquanto eles observavam a estrutura elevada, um dos tripulantes falou:

– Olha, agora parece o dedo de Deus olhando novamente desse ponto. Ele deve ter feito esse lugar com as próprias mãos. Está ali a prova. Não há nada de mau neste lugar, capitão – nesse momento qualquer lembrança da noite anterior foi desconsiderada por eles. Aquela era possivelmente uma forma mais agradável de observar as belas estruturas rochosas moldadas por milhares de anos.

Vasco de Ataíde ficou olhando para aquela formação e buscava encontrar uma paz interior, mas as recomendações de seu rei pesavam sobre a sua consciência. Ele virou-se de costas para o alto pico para tentar visualizar a sua nau, mas ficou feliz por não poder enxergá-la. Afinal era exatamente este o seu objetivo: escondê-la. Após esse conforto, ele sentiu uma vontade avassaladora de virar-se novamente e olhar mais uma vez para o alto pico. Para não discordar de si mesmo, assim ele procedeu. Virou-se e olhou mais uma vez. Sem nenhuma explicação plausível, ele sentiu todo o seu corpo estremecer. O capitão ficou como estátua por alguns segundos com o olhar fixado naquele lugar. Ainda mais intrigante era a sensação de que algo também o observava e fazia isto ainda mais intensamente do que ele.

Sem querer perder a credibilidade dos seus homens por tantas demonstrações de desconfiança, ele sentiu segurança em desviar-se devido à distância do local observado. O capitão buscou convencer a si mesmo de que poderia ser exagero dele ter tantos receios desse tal novo mundo misterioso. Ele decidiu autorizar a tripulação a aproveitar as belezas do lugar e descansar um pouco. O capitão permitiu que fizessem um desjejum farto e compartilhassem do vinho que eles poderiam buscar em sua nau. Os homens foram autorizados até mesmo a tirar uma tarde livre de descanso, mas com a restrição de que retornassem para a praia anterior, que era mais segura conforme observação do capitão. O que nenhum deles imaginava é que aquele seria o último momento naquele lugar tão exuberante. Após essas orientações, o capitão recuperou a sobriedade da sua missão e resolveu voltar ao navio para fazer algumas análises. Não menos importante, ele deixou ordens claras para que todos retornassem antes do pôr do sol.

Ao chegar à nau com alguns poucos homens, Vasco de Ataíde encontrou o guarda da noite anterior. O desenhista o esperava ansiosamente e o capitão falou prontamente com ele:

– Diga logo, não fique com essa cara! Você quer me contar mais alguma outra coisa mirabolante?

– Gostaria que o senhor visse o desenho que fiz da mulher que vi ontem, meu capitão – respondeu o guarda.

Pegando o papel desenhado com traços tremidos, Vasco de Ataíde pôde entender melhor e visualizar o que foi descrito na noite anterior. Era uma mulher alta, de cabelos longos, que, do topo de uma estrutura rochosa em forma de fenda, olhava intensamente para a nau como se a desejasse mais do que tudo. Algo que também ficou claro foi o fato de que ela usava somente um vestido negro. Após analisar o desenho, o capitão olhou para o guarda e disse:

– Quanta imaginação você tem, não é? Ficarei com esta imagem para analisá-la melhor, está bem? – Ao pegar o papel, o capitão sentiu uma energia estranha – Me Lembro de um ditado que fala que uma imagem pode armazenar uma alma. Algo mágico foi fixado neste desenho que você fez.

Tanto o capitão quanto o desenhista demonstravam certa preocupação com o assunto. Vasco de Ataíde preferiu continuar o diálogo com o guarda de forma mais reservada e o convidou para a sua cabine. Certamente seria uma conversa difícil, pois o capitão imaginava quão seria difícil se os mitos realmente fossem reais e de fato ele tivesse que enfrentá-los.

Quando ficaram a sós, finalmente o desenhista se sentiu confortável para esclarecer todos os acontecimentos da noite anterior. Quando começou a relatar os fatos, Vasco percebeu a importância daquele conteúdo e pediu que o desenhista aguardasse. Ele foi até a porta da sua cabine e gritou para que o Joaquim, um dos escrivães mais hábeis da embarcação, comparecesse imediatamente àquele local. O guarda guerreiro que estava tentando espiar a conversa correu rapidamente para executar a ordem dada pelo seu capitão. Dessa forma, o Joaquim foi trazido rapidamente à presença de Vasco de Ataíde. Ele pediu ao escrivão que registrasse toda a conversa que teria com o guarda desenhista. Ambos, escrivão e capitão, já estavam acostumados a este tipo de atividade que era sempre requisitada por Vasco de Ataíde durante e após a escrita do diário de bordo. Mesmo que a história contada pelo desenhista fosse por muitas vezes duvidável, o capitão preferiu não interrompê-la. Ele entendia que se tratava de uma informação importante para a sua viagem. Joaquim, especificamente, já estava acostumado com os devaneios de Vasco de Ataíde e apenas se concentrou em registrar com o máximo de detalhes tudo aquilo que era contado pelo jovem guarda desenhista.

Ao final de toda a história cheia de detalhes, enfim o desenhista encerrou. O capitão, ainda que um pouco desacreditado, permitiu que o jovem guarda estivesse à vontade para contar tudo aquilo que ocorrera. Seria natural que Vasco de Ataíde reclamasse da atitude do rapaz por não ter lhe acionado imediatamente frente aos acontecimentos, porém tudo era tão mirabolante que o capitão somente conseguiu respirar fundo e refletir. Joaquim, ainda que fosse um senhor de idade, conseguiu transcrever de forma bastante ágil todo o relato com bastante qualidade. Percebendo que nada mais seria dito, o escrivão finalizou o seu registro e entregou os papeis para o seu capitão. Vasco de Ataíde estava um pouco extasiado e com a mente confusa. Ele não sabia se deveria acreditar naquilo que lhe foi apresentado ou apenas abstrair frente à possibilidade de ser apenas mais um devaneio. Finalizada aquela longa conversa, o capitão pediu que o guarda e o escrivão o deixassem sozinho em sua cabine. Porém, ele os pediu que não comentassem nada daquilo com os demais homens de sua tripulação. Vasco informou que precisava de um pouco de tempo para definir qual seria a melhor estratégia frente àquela situação. O capitão precisava definir quais seriam os próximos passos a partir de tudo aquilo que foi apresentado pelo desenhista.

Vasco de Ataíde não percebeu o avanço do dia, pois estava bastante concentrado refletindo em sua cabine. Procurando acalmar a sua mente enquanto relia os textos produzidos por Joaquim, o capitão também resolveu construir um desenho. Vasco sentiu o seu coração pesado e resolveu buscar proteção em sua fé rabiscando uma imagem da Santa Verônica. Segundo alguns registros, foi ela quem entregou um lenço a Jesus Cristo enquanto estava ensanguentado. O rosto dele foi enxugado com aquele tecido e dessa forma se registrou uma das imagens mais importantes da história: a face do filho de Deus. Construíndo uma analogia com este contexto, o capitão julgou possível armazenar a energia de um determinado ente por meio da representação de sua imagem. Esta hipótese reforçava o ditado citado por ele mesmo para o desenhista, entretanto, o capitão lembrou-se de uma passagem bíblica e aquilo o deixou ainda mais confuso:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás”

Ao olhar ao seu redor havia diversas pequenas representações desse tipo de, em seu rápido entendimento, transgressão da orientação presente na bíblia. Lá estavam algumas imagens católicas e, talvez menos importante naquele contexto, um retrato do seu rei, D. Manuel I, o qual ele poderia afirmar que admirava e adorava. Foi somente neste momento que a atenção do capitão se perdeu dos papeis em sua mesa e ele olha para as suas janelas. Do lado de fora da cabine do capitão, algumas nuvens negras e silenciosas fizeram com que a escuridão alcançasse a ilha rapidamente. O mar se agitou e fez a taça do vinho que ele bebia ser derramada sobre a sua mesa. Isto formou uma estranha mancha vermelha partindo da figura da mulher misteriosa representada pelo desenhista e se espalhando sobre uma mapa que o capitão também analisava. Ele percebeu que o local para onde o vinho escorreu simbolizava coincidentemente a região em que a embarcação portuguesa estaria localizada. Porém, nenhuma gota manchou a imagem da mulher estranha, ou mesmo a imagem da Santa Verônica. Aquilo praticamente comprovou a sua suspeita de que era possível armazenar uma determinada amostra daquela energia. Essa observação foi certamente o acontecimento mais importante daquela viagem. As imagens estavam sobre um pano de mesa no qual havia o desenho da cruz de malta. Vasco de Ataíde cortou a região próxima da cruz com uma faca e dobrou o pano em algumas partes. Ele formou um pequeno quadrado e usou sua melhor pena para escrever uma descrição no fundo do material:

“Observo estas energias que ainda não consigo compreender e percebo claramente todo o poder que emana delas. Acredito que os entes de todas as nossas crenças são de fato reais e aqui há um exemplo de contraposição entre dois pólos. Imagino que seja possível controlar o poder proveniente dessa energia e desejo aprender a invocá-lo ao meu favor ...”.

A nau do capitão Vasco de Ataíde começou a balançar com mais intensidade e ele não continuou a escrever. Com isso, o capitão saiu de sua cabine para verificar se todos os tripulantes já haviam retornado. Vasco estava preocupado devido à tempestade que se aproximava, porém, ao sair, percebeu que a grande maioria dos membros de sua tripulação ainda não estava presente. Não seria uma tempestade comum. Ele viu uma grande coluna de nuvens altas que se aproximava da ilha de forma similar a um muro colossal construído por mãos humanas. Imediatamente, ele informou para alguns daqueles que ainda estavam na embarcação que deveriam ir até a praia próxima para buscar os outros homens. Desta forma, ficariam apenas quatro pessoas em sua companhia: Joaquim, o guarda desenhista, o guarda guerreiro e outro marujo. A noite chegava rapidamente de uma forma como eles nunca antes viram. Os tripulantes orientados a sair em busca dos demais desceram outro barco auxiliar na água e entraram a bordo. Quando o último homem entrou nessa embarcação, todos viram uma luz distante brilhar numa coloração esbranquiçada que contrastava com as nuvens negras. O capitão estava certo de que ela era proveniente do mesmo alto pico rochoso que observou mais cedo. Aquilo parecia algum tipo de explosão silenciosa capaz de abrir ao meio uma grande rocha. Então, Vasco deu pressa aos seus homens e pediu que avançassem o mais rápido possível em busca dos demais. Eles partiram a toda velocidade para encontrar os companheiros sem imaginar o porquê deles ainda não terem retornado. O mar deixou bem claro que não pretendia ajudá-los e as marolas começaram a aumentar. O capitão estava certo de que viria uma tempestade muito intensa naquele final de tarde e decidiu tomar uma decisão que encheu os quatro tripulantes de dúvidas. Ele disse a todos:

– Quero que vocês me ajudem a guardar um registro muito importante da nossa viagem. Esse desaparecimento repentino de quase toda a nossa tripulação não me parece ser algo positivo. Haja o que houver, precisamos garantir que ao menos um documento em especial esteja a salvo. Descobri algumas coisas importantes nessa tarde e não quero que este conhecimento caia em mãos erradas. Eu realmente estou bastante cético do que retornará com os nossos companheiros que acabaram de partir. Vamos! Me ajudem logo. Venham comigo!

O grupo foi até a sua cabine e colocou um pequeno pano quadrangular dentro de uma grande garrafa vazia. Vasco de Ataíde arrancou algumas páginas especiais do seu diário de bordo e as colocou naquele mesmo recipiente junto com outros papéis importantes como o relato do desenhista. O próprio capitão lacrou cuidadosamente a garrafa, pois ali estava um importante resumo de toda a sua viagem. Após isso, eles foram orientado por Vasco de Ataíde a utilizar o último barco auxiliar disponível para remar até o paredão de pedras da ilha. Ali havia uma pequena praia estreita e esse acabou sendo o único local que poderia ser utilizado conforme o plano do capitão. Ele desejava enterrar a garrafa como uma forma de guardar todo aquele conhecimento. Vasco temia que, devido a sua tripulação estar toda desaparecida, pudesse ter acontecido algo muito grave com eles. Era muito temerária a possibilidade de terem caído em uma armadilha ou de terem experimentado um contato trágico com os gigantes descritos pelo o desenhista.