Capítulo 10
O Peso de um Sono Profundo
No terceiro dia após o embate com a Matinta Pereira, Pedro ainda estava na casa dos seus avós e descansava na sala. Sempre que estava naquele lugar, ele sentia uma proteção sem igual. Algo de bom estava em todos os cantos daquela morada e fazia com que a sensação de bem estar fosse facilmente percebida por todos. O cheiro, os móveis, tudo refletiva uma espécie de vitória espiritual. Era como se por muitos anos eles tivessem lutado silenciosamente contra algo desconhecido. Já mais velhos, aproveitavam os bônus de uma vitória merecida baseada em uma estratégia adequada. Para Pedro, estar naquele lugar era sempre algo muito bom. Ele comumente passava na casa dos seus avós quando queria refletir um pouco e experimentar aquela paz sem igual. Os últimos acontecimentos o faziam querer estar ali de forma ainda mais intensa do que antes. O jovem pescador precisava bastante daquele calor espiritual para se recuperar. A quantidade intensa de experiências com o desconhecido o deixou fraco e cansado. Sua mente estava inquieta sem que respostas claras fossem apresentadas. Havia muitas dúvidas relacionadas com as lendas que se apresentavam cada vez mais reais. As noites estavam se tornando difíceis e os seus sonhos queriam se comunicar com ele de qualquer forma.
Enquanto estava envolto em seus pensamentos, alguém chegou à frente da casa e bateu à porta. Pedro foi até lá para ver quem era o primeiro a visitá-lo após alguns dias. Ao abrir a porta, infelizmente ele não teve uma boa surpresa. Era uma velha senhora cigana que visitava os seus avós praticamente todos os dias. Era uma das pessoas mais estranhas que ele conhecia naquele pequeno vilarejo. Era uma senhora solteira que morava apenas com a sua filha. As duas eram parecidas, mas a jovem era bem mais aceitável. A dama até chegava a ser uma pessoa sociável, pena que não falasse muito. As visitas da cigana aconteciam sempre no meio da manhã enquanto sua avó preparava o almoço. Para Pedro aquilo era algo muito incômodo, pois não fazia sentido algum ser exatamente naquele horário.
Como a filha da senhora sempre saía cedo para a roça, ela fica sozinha em casa e quase todas as manhãs realizava esta mesma visita. Acredita-se que nos dias anteriores ela não apareceu, pois ninguém saiu de suas casas. Provavelmente, a sua filha que a fez companhia nesses dias. O único objetivo da senhora sempre era pedir uma xícara pronta de café fresco. Mesmo que a avó de Pedro estivesse preparando o almoço, ou em qualquer outra ocupação, esta senhora sentava nos bancos da sala e ficava aguardando em silêncio até que o copo de café fosse oferecido. Sempre que presenciava esta situação, Pedro ficava observando o comportamento estranho daquela senhora. Ela que não falava muito, ou melhor, ela praticamente não falava nada. A cigana simplesmente batia na porta, entrava sem pedir licença, sentava e esperava. Sempre em silêncio quase absoluto. Sua avó que tinha um coração gigantesco atendia ao pedido implícito e para ela se tratava apenas de apenas um pequeno favor.
Havia incômodo para Pedro naquela visita, pois ele não achava que esta fosse uma espécie de obrigação da sua avó. Para ele não havia nenhuma resposta em consideração ao favor realizado, visto que, após beber o café, a senhora simplesmente colocava a xícara sobre a pia e ia embora. Todas essas lembranças passaram na mente dele no momento em que abriu a porta e contemplou a surpresa da visita quase inesperada. Devido a todos os acontecimentos daquela semana, justo naquele dia, não havia a bebida a ser solicitada. Ocasionalmente, não sido havia preparada e Pedro pediu que a cigana aguardasse na porta. Ao se dirigir para a cozinha e falar com a sua avó, eles encontraram apenas um copo que estava com café velho. Pedro sugeriu que não fosse oferecida aquela bebida, pois poderia fazer mal para a senhora misteriosa e isto seria responsabilidade deles.
Aproveitando esta dificuldade, ele questionou de forma mais enfática se era realmente uma obrigação deles oferecer o café como uma espécie de serviço imposto de forma subjetiva. Mesmo concordando com Pedro, a sua avó ainda mantinha o espírito da boa vizinhança. Ela tentou explicar que a senhora visitante aparentava sofrer de algum mal e por este motivo se sentia bem em ajudá-la. Talvez aquele momento de boa ação estivesse como a única coisa que ajudasse a cigana a descansar de seu fardo. Para aquelas pessoas que se aproximavam dela, era realmente possível sentir algo estranho representado por sua aura pesada. Pedro promoveu um consenso de que aquela xícara de café velho não deveria ser servida e que, pela primeira vez, a senhora retornaria para casa sem a bebida desejada. Sua avó se dirigiu até a senhora e informou que não poderia entregar aquele agrado esperado. Isso, em razão dos últimos acontecimentos que desorganizaram as rotinas da família. A visitante se levantou estranhamente, olhou na direção de Pedro e sorriu de maneira mórbida. Então, antes de sair, ela pediu uma jarra de água que foi portanto entregue pela sua avó e com isso ela foi embora. Aquele olhar da despedida ficou preso na lembrança do jovem pescador durante toda a manhã. Pedro e sua avó almoçaram no início da tarde e não falaram sobre o assunto. O avô de Pedro não estava, pois ele saiu cedo para ir pescar e passaria o dia inteiro na Bahia de Todos os Santos.
Quando a noite chegou, eles foram visitados por uma tia e uma prima. Elas estavam acompanhadas por uma senhora negra do grupo de escravas da fazenda da Matinta Pereira. Essa senhora retornou para trazer uma mensagem para Pedro. Ela informou que no primeiro dia de viagem ao quilombo o seu grupo foi surpreendidos por uma Pisadeira: um ser que se alimenta da energia dos desavisados que comem antes de dormir e vão para a cama de barriga cheia. Todo o mal-estar destas pessoas é potencializado por esta criatura que senta sobre elas e pode até levá-las à morte. A jovem senhora do grupo de escravas decidiu que esta notícia deveria chegar a Pedro o quanto antes. Todas as mulheres que relataram um contato com a Pisadeira mencionaram ouvi-la falando o nome dele como se o estivesse procurando. Ao receber aquela informação, ele não conseguiu entender exatamente qual era o recado a ser passado. Afinal, o que seria de fato uma Pisadeira e o que ela poderia desejar com ele? Mais uma vez Pedro se questionou o motivo pelo qual todos esses mitos estavam se revelando para ele. O pescador estava jantando bem na hora que recebeu essa visita e decidiu que não desistiria de finalizar o seu alimento. Ele deu atenção para aquela mulher, mas ficou concentrado em seus pensamentos após ouvir o seu relato e continuou o seu jantar.
A avó de Pedro, sua tia e a senhora escrava foram para a cozinha, enquanto Pedro se manteve na sala acompanhando pela sua prima. O silêncio foi então interrompido por ela que, ao ir e retornar do banheiro, tentou conversar sobre assuntos comuns entre primos. Para iniciar o diálogo, enquanto perguntava como ele estava, ela repentinamente o assustou, dizendo:
– Meu Deus! Pedro! Tem alguma coisa na Janela!
Ele olhou rapidamente na direção para onde ela apontava e sentiu que realmente existia alguma presença negativa. Algo estranho estava do lado de fora espreitando e olhando para dentro da casa. Porém eles não conseguiram identificar nem ter certeza do que era. Já era início da noite e a janela estava apenas clareada pelos candelabros dentro da casa. Enquanto os dois ficaram se perguntando o que poderia ser, de repente sua avó cruzou a sala e foi em direção ao quarto em silêncio e de cabeça baixa. Imediatamente, Pedro foi até a cozinha para saber o que havia acontecido. Sua tia o contou que sua avó estava se sentindo triste e solitária naquela noite pela ausência do seu esposo. Ela falou que a matriarca da família disse sentir o peso da idade e um cansaço pelo que já viveu em toda a sua vida. Todas aquelas histórias conversadas na cozinha a cansaram muito e ela acabou dizendo que se a morte chegasse já estaria em boa hora.
Para Pedro foi muito ruim ouvir aquelas palavras sendo repassadas pela sua tia. Quando ele pensou em correr para o quarto e ficar próximo à sua avó começaram vários acontecimentos estranhos. A senhora escrava, aquela que lhe trouxe a notícia da presença da Pisadeira, entrou em um transe repentino ao seu lado. Ela ficou de pé com os olhos virados para trás. Era possível ver o branco do seu globo ocular enquanto ela tremia e falava uma série de palavras em uma língua desconhecida. Ao mesmo instante na sala, a prima de Pedro gritou:
– Voltou, Pedro, Voltou! Rápido venha ver o que é! Está na Janela querendo entrar – havia de fato alguma criatura tentando forçar a estrutura pelo lado de fora, mas ainda não era possível enxergá-la devidamente.
Barulhos foram escutados em todas as janelas da casa e passos eram ouvidos no telhado a todo tempo. Enquanto isso, algumas palavras foram pronunciadas de forma mais clara pela senhora negra. Ela continuava a tremer cada vez mais rápido e começou a tirar parte da roupa. Aquilo ficava cada vez mais estranho, era como se ela fosse um receptor de toda a energia que estava sendo emanada pelo ser que tentava invadir a casa. Pedro se aproximou para entender melhor o que ela dizia e foi surpreendido com as palavras praticamente sussurradas e repetidas:
– Devolva-me a água. Deixe que eu leve a água. Devolva-me a água. Deixe que eu leve a água.
Em um súbito impensável, a tia de Pedro encheu uma panela com água e começou a banhar a senhora no meio na cozinha. Afinal de contas qual água deveria ser devolvida? Qual água foi tomada e deve ser entregue novamente? Eles não conseguiam de fato entender, mas continuavam a banhar a senhora em uma atitude sem sentido. Se havia alguma relação com a jarra de água levada pela manhã, Pedro não tinha nenhuma certeza. Ele foi correndo para a sala, mas estava muito preocupado com a sua avó. Ao olhar para a janela ele realmente conseguia sentir uma presença do lado de fora, mas ainda não identificava o que era. Lembrava claramente das suas experiências na fazenda e temia por tomar qualquer decisão que o colocasse novamente em uma situação de conflito. Pedro estava sendo controlado pelo medo e resolveu ir para o quarto mais próximo da sala. Imaginava que poderia espiar daquela outra janela, mas ela também estava trancada. No cômodo ao lado estava a sua avó sentada no pequeno sofá com o olhar vago. Ela aparentava não ter percebido nada da movimentação na cozinha nem mesmo aquela fora da casa. Pedro estava entrando no mesmo estado de transe enquanto sua prima continuava gritando:
– Pedro, por favor! Algo vai entrar. Faça alguma coisa! Lute! Não deixe entrar. Se conseguir, vai levar a nossa avó. Ela é quem está mais fraca agora.
Algo estranho deixava o olhar de Pedro escuro e ele não conseguia controlar suas ações. Como se estivesse desmaiando ele caiu sobre a cama pronunciando frases em um desabafo, dizendo:
– Eu não quero lutar. Eu não tenho forças para lutar. Eu não quero isto novamente. Ela não vai entrar...
Então, ao cair na cama, Pedro ficou totalmente perdido da sua capacidade de reação. Ele não conseguia atender aos pedidos da sua prima e o medo de se deparar novamente com um ser desconhecido o fez temer além do seu controle. Estava receoso de perder a batalha dessa vez e aquele sentimento o dominou. Ao cair, ele entrou imediatamente em um sono profundo que movia sua mente entre a realidade e o imaginário. Ele ainda conseguia ouvir sua prima, mas o som estava confuso em sua cabeça. A casa foi tomada por uma escuridão completa apagando-se quase todas as fontes de luz. Somente as velas do oratório no quarto em que Pedro estava continuaram iluminadas. Foram as mesmas velas que o seu avô deixou acesas na noite anterior. A luz tênue naquele quarto e as faces dos santos em madeira eram a única coisa que Pedro conseguia enxergar entre os intervalos de sonho e realidade. Ele repetidamente perdia e recuperava a sua visão, contudo, de repente os olhos dele não se abriram mais.
A janela foi quebrada e a porta foi bruscamente fechada pelo vento. A criatura entrou no quarto e avistou Pedro. Ele sentiu imediatamente o peso de uma mulher pisar sobre ele. Em seguida, a criatura agarrou os dois pulsos dele com uma de suas mãos e com a outra pressionou fortemente o seu pescoço. Daquela forma ele não conseguia se mexer e uma vontade de vomitar o envolvia. Pedro sentia uma dor mortal devido ao peso dos pés da criatura pressionando o seu estômago. Ele tentava se livrar da Pisadeira, mas não havia movimento que ele fizesse para se libertar daquelas mãos longas. Os dedos esguios o prendiam e não o deixavam respirar. Algo o impedia de enxergar novamente, mas ele buscava forças para fazer algum movimento que o libertasse. Era possível ouvir o som do gargalhar estridente daquele monstro. A criatura estava sobre ele e, somente após uma tentativa muito esforçada, Pedro conseguiu enxergá-la rapidamente de forma embaçada. Devido às suas características, se tratava de fato dessa tal Pisadeira e lá estava ela em cima dele.
Sabendo do que se tratava e que era algo mais real do que apenas um sonho, Pedro estava certo de que deveria fazer algo a mais para tentar se salvar. Deveria lutar contra ela para que não fosse morto naquele local. Ele começou a se debater tentando se livrar, mas quando a Pisadeira percebeu que ele estava saindo do encantamento e que abriria totalmente os olhos, ela então colocou uma de suas mãos sobre o rosto dele. Com isto, tendo um pouco mais de ar para respirar, ele abriu os olhos exatamente no momento que ela mudava a mão de posição. Ele teve ainda mais temor ao ver que a criatura tinha um furo na palma da mão. Exatamente por este lugar Pedro conseguia ver o rosto dela com aqueles cabelos embaraçados e aquele nariz peludo e longo. Era possível ver que a criatura estava sedenta pela vida dele devido ao calor de seus olhos vermelhos e arregalados olhando em sua direção. Quando percebeu que Pedro a enxergava, ela ficou ainda mais exaltada. Tentava sufocar ele contra a cama e brincava com o seu sofrimento dizendo:
– Quer me ver, quer? Quer saber como nós somos? Quer experimentar um pouco? Venha, abra os olhos. Levante Pedro, eu vim de longe para encontrar você. Lute! Lute! Não lhe deixarei escapar!
Houve mais desespero em saber que a criatura sabia seu nome. Cada vez mais que ele se debatia ela sentia prazer e inclusive babava sobre o rosto dele em um frenesi incontrolável. Enquanto isso, ela lambia a face de Pedro tentando induzi-lo a se entregar para a morte. Vendo que ele sufocava na tentativa de sobreviver, a criatura cometeu um grande erro. Ela tentou atingir os seus laços de família provocando ele.
– Já tentaram te levar uma vez e agora eu vou conseguir, mas se você resistir eu levarei sua avó junto com você.
Pedro, que olhou na direção das velas e das várias imagens de santos, clamou forças tentando estender as duas mãos presas na direção delas. Recebendo um último alento, ele gritou debaixo da mão da Pisadeira:
– Não! Você não levará ninguém!
As luzes das velas aumentaram de maneira descontrolada como se reforçadas por algum combustível e isso incomodou a criatura demasiadamente. A luminosidade cresceu até explodir ofuscando tanto a Pedro quanto a Pisadeira que assustou-se com aquilo. No momento da explosão, ela deu um grito horrível e pulou para fora da casa pela janela correndo de medo.
Pedro não tinha mais forças para se levantar até que a porta foi finalmente arrombada pela sua família. Eles o encontraram deitado com o rosto bastante machucado e os pulsos marcados com a força que a Pisadeira havia imposto para tentar segurá-lo. Um pouco do seu sangue manchava os lençóis brancos e seu pescoço estava praticamente imóvel. As mulheres que estavam na casa entraram chamando por Deus pensando que Pedro estivesse morto, mas logo o viram respirar e ficaram mais tranquilas. Ele foi acolhido e seus ferimentos imediatamente começaram a ser tratados por elas. A senhora negra o observara o tempo inteiro mantendo certa distância. Enquanto isso, sua tia e sua prima atuavam em prol da saúde dele. Quando foi recuperando a consciência alguns minutos depois, a primeira coisa que Pedro fez foi olhar na direção da senhora escrava e falar:
– Agora eu entendo o que tentava nos avisar. Perdoe-me, mas eu não conseguia perceber a tempo. Era uma Pisadeira de fato e ela não estava aqui apenas para atrapalhar o meu sono. Ela veio para mandar uma mensagem. Sou desejado por algo que não conheço e estou sendo observado.
Os dois conversaram um pouco antes que Pedro caísse novamente em sono profundo. Ficou claro que a criatura foi enviada para tentar dar uma lição a ele. Os seres místicos já sentiam a sua relação com eles e temiam o que o pescador poderia se tornar um dia. Restava apenas juntar os últimos pedaços da força que aquela família ainda possuía para que fizessem uma oração para acalmar seus corações. Aquela foi mais uma noite em que muito se pensou e pouco se falou. A família de Pedro estava sendo cada vez mais exposta àquela realidade e todos temiam o que estava para acontecer dali pra frente. Sabiam que ele não iria se contentar em apenas viver essas histórias de forma passiva. A sua jornada de descobertas e experiência neste mundo desconhecido iria acontecer a qualquer preço. O jovem pescador deixaria de ser apenas um coadjuvante em sua vida espiritual e passaria a atuar como protagonista.