Capítulo 4
O Décimo Terceiro Navio
Logo que se separaram da esquadra de Cabral, os homens da embarcação de Vasco de Ataíde imediatamente puseram em prática o plano proposto pelo rei D. Manuel I. Ali todos foram escolhidos categoricamente e sabiam o desafio que teriam pela frente. Estavam certos das dificuldades futuras que iriam enfrentar se fossem confirmadas as expectativas do monarca. A viagem solitária foi bastante cruel para a tripulação que enfrentou tempestades incessantes e ondas incansáveis. A presença de algumas energias estranhas se fazia bem clara entre eles. Sentiam que algo queria impedi-los de chegar ao destino pretendido, mas continuaram firmes com as forças de um belo pagamento que lhes foi prometido pelo rei em pessoa.
Conforme já foi apresentando nesta história, a embarcação chegou ao Brasil assim como Cabral, porém com um atraso de alguns dias. Foi exatamente no dia 26 de abril de 1500, mesmo dia em que foi realizada a primeira missa no Brasil, que o décimo terceiro navio avistou pela primeira vez a terra firme. Houve uma pequena diferença em relação a Cabral, pois o capitão mor aportou em um continente e a embarcação do capitão Vasco de Ataíde chegou a um arquipélago no meio do oceano. Esta feliz coincidência de datas, de alguma forma, fazia uma grande diferença aos tripulantes. Eles estavam preenchidos de felicidade por alguma energia emanada pela reunião de seus compatriotas à distância. O décimo terceiro navio havia chegado às ilhas de Fernando de Noronha, como ficou conhecido posteriormente aquele local. Lá, mantendo as diferenças com Cabral, eles não encontraram nativos. Apenas os golfinhos rodearam a nau que tripulavam para saudá-los com pulos e estripulias na água.
Ver terras firmes novamente alegrou ainda mais toda a tripulação. Certamente estavam em uma ilha devido às características do lugar, mas a simples possibilidade do descanso já era suficiente. Ainda assim, o capitão Vasco de Ataíde de alguma forma havia se incomodado com a presença de um pico imponente que puderam observar de longe. Aquela estrutura lhe lembrava algumas torres de guarda das grandes fortalezas que conheceu ainda na Europa. Por isto decidiu manter uma distância segura em uma posição que lhes permitisse observar o lugar e sair em fuga se fosse necessário. Ele tratou imediatamente de fazer recomendações para a sua tripulação:
– Fiquem todos atentos, homens! Lembrem-se de nossa missão! Nosso desejo não é encontrar apenas águas calmas. Estamos aqui para o inesperado e ele certamente nos espera. Estejam firmes e atentos! Quero todos os canhões prontos para atirar ao meu comando.
O recado do capitão trouxe novamente os tripulantes para um estado de atenção com foco mais claro na missão a qual estavam realizando. Ainda que muitos estivessem incrédulos, sabiam que estavam ali para encontrar o desconhecido. Todos assumiram de forma mais firme as suas posições na embarcação que continuou navegando a uma distância segura da ilha. Alguns marujos eram residentes no sul de Portugal e seus corações se encheram de alegria ao comparar aquela geografia com a sua cidade natal, conforme colocaram. Logo depois, algumas aves se assustaram com a aproximação da embarcação e houve um revoar delas sobre as rochas daquele local. Poucos já tinham visto uma água de coloração tão azulada como aquela e eles desejavam pedir ao capitão que aportasse ali, mas nenhum deles se atreveu a realizar este pedido. Os marujos observavam Vasco de Ataíde com o olhar firme na direção daquele pico estranho e perceberam que ele estava obstinado a continuar seguindo em frente. Após passarem pela primeira parte da ilha, que era mais rochosa, perceberam então que o verde começava a aparecer de forma mais presente. Nesse mesmo momento, o pico acabou saindo da vista deles devido a algumas formações rochosas a frente e então perceberam que o capitão suspirou. Acreditaram que ele estava tão concentrado em observar antes de ser observado que até mesmo se esqueceu de respirar.
O capitão ordenou que a embarcação se afastasse ainda mais da costa devido à presença de pedras mais rasas. Enquanto estavam distraídos fazendo a manobra na grande embarcação, eles ouviram um som muito estranho vindo de trás deles. Perceberam imediatamente que o vento estava se comportando de uma forma muito estranha e que as aves estavam voando todas juntas rodeando a parte da ilha que acabaram de passar. A mistura dos gritos das aves negras com o som do vento fez alguns dos homens se benzerem. Eles reproduziam o sinal da cruz repetidamente olhando para aquela passagem e pedindo o livramento de Deus. Estavam certos de que aquele comportamento das aves não era natural, mas nada podiam fazer em relação a isto. Apenas observaram e somente um tripulante próximo ao Vasco de Ataíde falou:
– Capitão! Se nosso destino foi traçado pela nossa missão e estamos em terras místicas, eu acredito que acabamos de passar pela porta principal. Que Deus nos proteja a partir de agora!
Vasco de Ataíde novamente respirou fundo, mas não respondeu ao comentário. Ele apenas fez um movimento com a cabeça em sinal de concordância com a seriedade da missão e com o desejo da proteção divina. O capitão logo recuperou a sua postura focada ao perceber que aquele pico se apresentava novamente na visão dele e de sua tripulação. A embarcação continuou seguindo em frente e pouco tempo depois já não mais se ouvia nem se viam as aves negras em revoada. A nau imponente estava armada e pronta para qualquer ameaça que se apresentasse contra eles. Ainda assim, a beleza daquele lugar era mais intensa que suas armas. Ela roubava a atenção de todos os marujos constantemente. Eles logo perceberam que esta primeira região era apenas uma pequena parte de todo aquele magnífico arquipélago. Antes de se aproximar da ilha maior, eles ainda passaram por algumas ilhotas. Todos se surpreenderam ao se aproximar mais daquele pico que o capitão tanto observara de longe e puderam entender um pouco melhor o motivo desta fixação: o morro se assemelhava a um grande rosto. O questionamento que preencheu a mente de todos foi qual seria a direção em que o rosto estava olhando. Vasco de Ataíde imediatamente pediu que alguns cartógrafos de sua tripulação fizessem cálculos rápidos na busca por uma resposta. Eles usaram a posição do sol, suas bússolas e todos os aparatos disponíveis para chegar à conclusão de que aquela estrutura aparentava estar direcionada para o sul da África. Nenhum tripulante se atreveu a julgar o motivo daquela percepção e o capitão ao perceber que seus homens estavam perdidos em pensamento, logo os chamou a atenção novamente:
– Não há o que temer, homens! Lá para onde este gigante fixa seu olhar não há mais tormentas, somente esperança – sem dúvidas aquela frase era um trocadilho do capitão, pois se os cartógrafos estivessem corretos, a estrutura de pedra estava olhando em direção ao Cabo da Boa Esperança.
Quanto mais a tripulação se aproximava, mas era nítida a percepção de um rosto. Naquela região as águas eram mais rasas e havia praias. Não percebendo a existência de construções ou outras embarcações, o capitão estava se convencendo de que era um arquipélago sem habitantes. Ainda assim ele repelia o desejo dos seus tripulantes de se aproximar para lançar âncora e fazer uma pausa na navegação. A nau de Vasco de Ataíde continuou na direção daquela estrutura rochosa até alcançá-la plenamente. Todos mantinham a sua total atenção naquele rosto, porém, conforme o contornavam, ele foi se desfazendo passando a se apresentar apenas como um grande morro de pedra. Em um determinado instante, na parte de trás do rosto, por assim dizer, toda a sua representatividade havia se perdido. Eles olhavam agora para apenas um pico bastante alto, mas sem nenhum diferencial. De certa forma naquele local, a magia os libertou um pouco e alguns dos tripulantes até sorriram de seus devaneios. Para a total desconexão com a figura imponente daquele rosto, de repente, um dos marujos surpreendeu a todos com um comentário um pouco estranho enquanto olhava em outra direção:
– Olhem pessoal, não lembram os seios da filha do Joaquim? – aquele comentário era bastante comum entre os tripulantes, pois ao verem a filha do escrivão da embarcação quando partiram de Lisboa, notaram imediatamente que os seios dela eram bastante volumosos. Joaquim era o homem mais velho da tripulação, assim como um dos mais letrados.
Neste momento, os marujos desviaram a sua atenção do alto morro e olharam para a frente da embarcação na direção das duas outras formações rochosas. Eram duas estruturas icônicas e eles confirmaram que realmente se assemelhavam aos seios de uma mulher. Houve bastante risadaria entre eles e isto chamou bastante atenção dos homens ali presentes. Eles pediram ao capitão que continuasse naquela direção. Para Vasco de Ataíde aquela era uma boa estratégia para afastar a embarcação do colosso de pedras logo atrás deles. Enquanto que os marujos estavam focados na direção dos seios da filha do Joaquim, o capitão mantinha-se alerta para todas as direções. Por diversas vezes ele olhou para trás e teve a sensação de que as estruturas rochosas naquela direção da ilha se assemelhavam a um gigante deitado. Ao se aproximarem das estruturas rochosas os marujos praticamente já tinham se esquecido do clima tenso que passaram em frente ao rosto de pedra. Naquele momento, próximos às duas estruturas de pedra similares a seios femininos, eles estavam até mesmo felizes e até criaram uma cantiga trovadorescas galego-portuguesa para falar sobre aqueles desafios.
Canção do Marujo e do Gigante Adormecido:
Nas águas vastas e sem fim,
navegamos sob o céu carmesim.
Ó ventos bravos, ó mar traiçoeiro,
por ti enfrentamos o mundo inteiro.
Do rosto em pedra ao seio rochoso,
cantamos, unidos, com peito corajoso.
O gigante deitado vigia ao longe,
mas o destino é quem nos responde.
Avante, irmãos, que o medo desfaz,
a canção nos guia, o caminho se faz.
Da filha do Joaquim à ilha além,
os sonhos nos levam onde ninguém vem.
O mar pode rugir, o céu escurecer,
mas nosso brio ninguém vai vencer.
Cantamos de peito, cantamos em alma,
pois na tempestade se encontra a calma.
Ó mares distantes que guardam segredos,
em cada canto, vencemos os medos.
E quando o sol desponta no horizonte,
somos heróis do rochedo à fonte.
Avante, ó irmãos, com bravura e paixão,
pois nas ondas firmamos nossa união.
A nau do capitão Vasco de Ataíde passou o mais próxima que pode das estruturas rochosas e somente naquele momento da viagem ele aliviou um pouco mais o seu coração. Era praticamente impossível não se contagiar com a alegria dos marujos e seus comentários sobre as rochas. Após passar pelas estruturas, consequentemente a visão do pico foi novamente colocada na direção dos olhares de toda a embarcação. Eles evitaram continuar olhando naquela direção e logo depois das duas pedras altas encontraram uma bela praia. O capitão observou atentamente o lugar e percebeu que a geografia apresentava uma proteção natural para a sua embarcação. Ali estariam fora do campo de visão do pico rochoso e de habitantes do lugar, caso existissem. A tripulação chegou a se preparar para ancorar, mas o capitão no último instante decidiu que deveriam esconder a nau em um local ainda mais distante dali. Em verdade, ao perceber que seus marujos poderiam se colocar uma postura de pouca atenção devido ao ambiente cômodo daquele lugar, Vasco de Ataíde então decidiu privá-los desse conforto visando que continuassem sempre atentos.
O capitão ordenou que a nau avançasse ainda mais pela costa da ilha procurando por outro lugar no qual pudesse garantir uma maior proteção. Somente após se dar por satisfeito na garantia de que não seria observado pelo imponente pico, ele conseguiu olhar para a frente da embarcação novamente. Neste instante eles perceberam um buraco entre as rochas por meio do qual aparentemente era possível visualizar o outro lado da ilha. Todos estavam certos de que chegaram ao limite daquelas terras, mas ainda assim o capitão decidiu realizar o contorno buscando apenas estar certo daquela informação. A volta foi realizada e eles chegaram ao outro lado confirmando que navegaram de um ponta a outra da ilha. Como o mar estava consideravelmente agitado naquele lugar, o capitão aceitou a sugestão de retornar para a outra área onde as águas eram mais calmas.
Vasco de Ataíde pediu que a embarcação fosse posicionada o mais próximo das rochas para que ficasse fora do alcance do campo de visão do pico. Os tripulantes acharam aquela atitude um tanto paranoica, porém acataram as ordens do capitão sem questionar. Naquele local havia grandes paredes compostas por elevações rochosas da ilha vulcânica e não era tão ruim a ideia de passarem um tempo de descanso naquele lugar. Então o capitão ordenou que todos se organizassem para desbravar aquela região desconhecida. Pequenos barcos que eles traziam como auxílios foram colocados na água para levar alguns homens da nau para uma pequena praia rochosa à frente deles. Logo perceberam que era bastante difícil escalar as rochas para ter acesso às partes altas. O capitão, Vasco de Ataíde, entendia que estava mais seguro com a sua nau protegida por aquela encosta rochosa, mas não imaginava o que aconteceria com eles nos dias seguintes.
Atraídos pelas formações rochosas e águas transparentes, muitos quiseram deixar a embarcação e retornar para a praia da pequena baía. Como estavam em uma área de águas, naquele momento, calmas, muitos até mesmo se imaginaram nadando felizes naquele lugar tão belo. Ali encontraram águas azuis, grandes cardumes de peixes e alguns corais. Talvez o único que não se sentia totalmente confortável naquele lugar era o capitão, pois sua mente estava repleta das recomendações feitas pelo próprio rei. Ele sabia que aquela não era uma viagem de passeio e que, se não retornasse com uma descoberta que fosse satisfatória, poderia ser melhor para ele que não retornasse. Quando sua embarcação já estava ancorada, o final do dia já se aproximava. Por recomendação do capitão, a tripulação toda ficou fazendo vigias alternadas na nau. Deveriam estar prontos para qualquer situação de combate que pudesse acontecer naquele lugar desconhecido. Por sorte, a noite foi até certo ponto tranquila e a única constância era o som dos arbustos que se mexiam afetados pelo vento. Quase que esquecidos de sua missão e devido ao cansaço da longa viagem, eles se deram a oportunidade de descansar naquela noite, mas este seria apenas um breve descanso.