Capítulo 3
A Rota do Descobrimento
Todos comemoravam a suposta viagem de retorno às Índias a ser capitaneada por Pedro Álvares Cabral, que tinha aproximadamente 32 anos de vida na ocasião. Ele se sentia extremamente favorecido pelos votos de confiança que o seu rei lhe dera pessoalmente. A permissão de que comprasse algumas toneladas de pimenta, uma especiaria rara na Europa, para comercializar livre de impostos ao retornar, se tornou uma grande vantagem financeira para o jovem capitão. Diversas outras regalias lhe foram dadas por liderar esta expedição tão importante para o seu reino. Após a partida das naus e caravelas, estava iniciado o plano arquitetado pelo rei de Portugal e por Vasco da Gama. Ambos estavam em busca do descobrimento de novas terras e a exploração de seus vastos mistérios. Tudo estava ocorrendo de forma impecável. A esquadra passou pelos pontos previstos sem problemas até que na madrugada do dia 23 de março de 1500 houve o primeiro ato planejado: o décimo terceiro navio, a nau do capitão Vasco de Ataíde, simplesmente desapareceu. Isto aconteceu após o grupo de Cabral passar pelas ilhas de Cabo Verde exatamente como descreveu Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta:
“Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!”.
A esquadra ainda procurou os faltosos por mais dois dias, porém não mais foram encontrados nem ao menos voltaram a ser mencionados de forma relevante no registro histórico daquele documento. Propositalmente, nenhuma outra ação foi realizada quanto ao afastamento desta embarcação. Como se algo desejasse acompanhar, ou até mesmo atrapalhar aquela expedição, algumas tempestades aconteceram dias depois do misterioso desaparecimento. Desse ponto em diante sabemos quase tudo que aconteceu com a esquadra de Cabral devido aos famosos relatos contidos na carta de Caminha. Porém, outra série de acontecimentos foi vivenciada pelo décimo terceiro navio durante sua jornada com vistas a chegar solitariamente às terras além-mar. Esta embarcação era uma garantia do rei em possuir uma tripulação completa conhecedora do seu plano e preparada para desbravar abertamente as novas terras a serem descobertas. Por outro lado, caso a esquadra de Cabral também lograsse êxito em sua missão implícita, sem que fosse atrapalhada pelo seu Capitão Mor corrigindo o curso para as Índias, voltaria imediatamente para Portugal uma de suas embarcações. Ela seria responsável por avisar ao rei que encontraram terra firme na área delimitada pelo Tratado de Tordesilhas conforme ele esperava.
Tudo aconteceu exatamente como esquematizado. Cabral foi ludibriado por alguns membros da sua própria tripulação e pelos mapas cuidadosamente modificados que recebera ao sair de Lisboa. Os passos seguintes realizavam-se exatamente como previsto e aquela esquadra direcionava-se, agora com doze navios, para águas desconhecidas. No dia 22 de abril de 1500, eles então avistaram terra. Ao ver neste lugar um monte muito alto e redondo, Cabral o batizou de Monte Pascoal por estarem na semana de Páscoa. Enquanto se aproximavam, foram feitas diversas medições de profundidade do local para que estivessem seguros quanto à navegabilidade daquela região. Quando eles já estavam bem perto da costa, Nicolau Coelho se ofereceu ao capitão para que navegasse com uma embarcação menor em direção à praia. Antes mesmo de iniciar a aproximação, eles perceberam que ali havia alguns habitantes e que eles os observavam próximos à beira da água.
Em meio à chegada de Nicolau Coelho, outros nativos surgiram em trios e em pares de dentro das matas. Devido à diferença linguística entre eles e o português, não foi possível haver uma comunicação verbal naquele momento. Ainda assim, Nicolau teve que acalmar os indígenas que se aproximaram dele com seus arcos e flechas prontos para o uso. Durante o primeiro contato, Nicolau lembrou-se de algumas orientações de Vasco da Gama para que ele observasse possíveis riquezas originárias daquele povo. Com isto, Nicolau Coelho ofertou alguns de seus utensílios para os indígenas e, como desejava, recebeu em troca alguns objetos deles. Dentre as trocas realizadas, lhe foi entregue um ramo de contas brancas muito parecidas com pérolas. Com nada de maior valor aparente foi ofertado ao português, Nicolau recomendou que aquele objeto especialmente fosse guardado para entrega ao rei de Portugal como um presente. Como a noite estava se aproximando, ele decidiu retornar para as embarcações maiores buscando estar um ambiente mais seguro e se deu por satisfeito para aquela primeira interação com aquele povo.
Buscando encontrar uma região onde as embarcações estivessem mais bem guardadas, eles continuaram navegando para o sul daquelas terras beirando a costa. Houve uma chuva na noite seguinte e eles decidiram evitar retornar à praia antes de garantir a segurança da tripulação. A procura por um local mais adequado teve resultado positivo e, algumas milhas à frente, eles encontraram uma melhor região para ancorar. Nicolau Coelho novamente se ofereceu para ser o primeiro a desbravar o lugar, mas Cabral recusou a sua oferta e enviou Afonso Lopes em seu lugar, pois a proatividade de Nicolau já gerava desconfianças no capitão. Afonso navegou pela região calma em direção à praia enquanto as demais embarcações aproveitavam as águas brandas. Certo tempo depois, ele retornou com a companhia de dois indígenas e então solicitou a presença do Capitão Mor. Cabral os recebeu em sua embarcação com uma postura de certa maneira desproporcional frente à simplicidade dos indígenas. Ele se posicionou, sentando numa cadeira com roupas extravagantes e um grande colar de ouro. Aquele detalhe dourado foi exatamente o que permitiu uma interação com os indígenas como era desejado por Nicolau Coelho. Ele estava presente naquele encontro com outros portugueses, porém era exatamente Nicolau quem figurava como o principal comparsa de Vasco da Gama e do rei de Portugal naquele plano mirabolante. Quando o indígena olhou em direção ao colar de ouro de Cabral e apontou em direção às suas terras, Nicolau vibrou ao entender que o nativo desejava informar que naquele lugar também havia ouro. O indígena ainda apontou para um castiçal de prata e repetiu o mesmo gesto, gerando ainda mais certeza para o entendimento de Nicolau quanto à disponibilidade de metais preciosos nas novas terras descobertas pela frota de Cabral.
Durante aquele encontro entre os indígenas e os portugueses, ainda houve uma série de tentativas de comunicação. Diversos objetos e animais foram trazidos à presença dos indígenas. Nicolau Coelho estava satisfeito com aquilo que julgou entender como uma confirmação das riquezas materiais existentes entre aqueles habitantes. Os indígenas, após as diversas experiências com os itens apresentados, foram acomodados um um tapete no chão da embarcação e ali passaram a noite. No dia seguinte Cabral autorizou que Nicolau Coelho acompanhasse os indígenas de volta para a praia e que ele fizesse isto com a companhia de Bartolomeu Dias. No plano do rei e do navegante, o papel de Nicolau era o de observar as riquezas materiais, já o de Bartolomeu era o de observar as riquezas imateriais. Eles levaram consigo um rapaz chamado Afonso Ribeiro que foi orientado a se aproximar ainda mais dos indígenas para observá-los. A primeira tentativa de inseri-lo foi em vão, pois os indígenas o devolveram com todos os objetos que havia levado consigo. Bartolomeu decidiu que Afonso deveria ficar lá de qualquer forma e então trouxe um dos indígenas à sua embarcação para que os demais entendessem aquilo como uma troca e aceitassem o rapaz. Enquanto isso, Nicolau trocava tudo o que podia com os indígenas procurando receber deles algo de maior valor material. Porém, recebia os mesmos tipos de objetos que os indígenas traziam consigo e que já eram comuns para o português.
Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias retornaram às naus para informar sobre os acontecimentos na praia e logo se reportaram ao capitão. Cabral a todo instante demonstrava que sempre buscaria tomar atitudes mais cautelosas e já começava a demonstrar certo incômodo por estar em uma jornada distinta de sua missão principal de chegar às Índias. Nicolau aproveitou a proximidade do capitão e tentou acalmá-lo lembrando-o de algo positivo, afinal eles estavam próximos à data de comemoração da páscoa. Cabral apenas amenizou a sua preocupação e orientou que fosse realizada naquela data a uma missa nas novas terras descobertas. É importante citar que neste mesmo dia, coincidentemente, a nau de Vasco de Ataíde também encontrou um porto aparentemente seguro. O décimo terceiro navio chegou bem mais ao norte daquele imenso continente tomando como base o local onde Cabral aportou. Porém, essa outra história somente será apresentada um pouco mais a frente. Ainda em relação a Nicolau e Bartolomeu, este segundo foi orientado por pelo capitão mor de sua esquadra a navegar a frente das demais embarcações. Cabral temia a grande quantidade de indígenas que os observavam na praia. Bartolomeu se aproximou dos habitantes e, de forma inesperada, novamente eles fizeram festa com a presença daquele estrangeiro. Nicolau que neste evento ficou junto a Cabral na nau capitânia sugeriu a ele que convidasse os demais capitães para decidir se deveriam enviar notícias da descoberta ao rei D.Manuel I. Houve uma reunião e por fim ficou decidido que as notícias seriam enviadas por meio de uma das embarcações daquela frota.
Seguindo categoricamente o plano, no dia 2 de maio de 1500 retornou a Portugal uma embarcação para levar a notícia ao rei de que a esquadra de Cabral descobriu novas terras a oeste da África. Neste retorno foi enviada a carta de Caminha como uma de suas cargas de maior valor, porém havia outra informação tão valiosa para o rei quanto os relatos registrados nesta carta. As terras descobertas eram virgens e nelas habitavam apenas habitantes inocentes e de coração puro. Eles andavam nus, se alimentavam da natureza e tinham como característica marcante a simplicidade da alma. Com esta notícia, certo tempo depois o rei D. Manuel I enviou à terra de Vera Cruz, como foi batizado inicialmente o Brasil, uma nova frota para explorá-la. Neste grupo havia um importante tripulante, o navegador Américo Vespúcio, outro que estava direcionado a fazer um trabalho com segundas intenções. Não sabia ele que a exploração e documentação que produziria a seguir, serviriam para algo além de simplesmente constatar fatos materiais relativos à nova terra. Já a esquadra de Cabral, depois de realizar o contato com os habitantes locais, assim como planejou o rei, continuou a sua viagem rumo às Índias. O grupo desconhecedor dos planos estabelecidos pelo rei seguiu sem desconfiar de nada. Havia entre eles uma presença esperada e uma ausência inesperada. Eram mais duas peças deste complexo quebra cabeça: os irmãos Ataíde. Desta forma, o plano se mantinha com um dos olhos sobre a nova terra e o outro sobre o cego.