Capítulo 2
Um Cego e Dois Olhos
Portugal, país governado pelo rei D. Manuel I, era considerado um dos países mais promissores da Europa no século XV. Nesta época foram realizadas diversas excursões além-mar para navegar em terras desconhecidas. O espírito que abraçou o rei e o navegante, após a sua última conversa, foi o puro desejo de realizar uma expedição sem precedentes, mesmo que os motivos reais fossem questionáveis. Muita cautela deveria existir, pois, se estivessem corretos quanto aos deuses e suas riquezas, seriam seguidos de perto por outros outros desbravadores, a exemplo do Reino de Castela. Assim como, se estivessem errados, tal notícia certamente seria encarada com desconfiança e os faria perder credibilidade frente a sua corte e frente o restante do mundo.
D. Manuel I havia recebido do seu primo, o monarca D. João II, a responsabilidade de governar o país. O rei anterior enfrentou uma série de conspirações contra seu trono e por algumas vezes teve que agir usando as suas próprias mãos para se vingar dos malfeitores. D. João II tinha apenas um herdeiro, o príncipe Afonso, mas seu filho veio a falecer em um acidente numa queda enquanto andava a cavalo, porém as informações acerca daquela morte eram questionadas por muitas pessoas leais ao rei D. João. Elas acreditavam que provavelmente a morte do herdeiro real não teria sido acidental, pois havia em torno do príncipe uma possibilidade situacional que o tornaria regente dos reinos de Portugal e da Espanha. Os reis Católicos, monarcas espanhois, não desejavam esta associação e, por este motivo, em algumas ocasiões eles foram levantados como responsáveis por provocar aquele acidente fatal com o príncipe herdeiro.
Nada jamais foi provado e devido ao fato de não ter outro representante legitimado, D. Manuel I, seu primo, foi designado como sucessor de D. João II após sua morte. Por motivos também questionáveis, D. João veio a falecer certo tempo depois sobre a suspeita de envenenamento. O Príncipe Perfeito, como ele ficou conhecido, era descendente de uma linhagem de reis desbravadores. Foi ele quem idealizou a possibilidade de se estabelecer uma rota para as Índias contornando a África. Antes de morrer ele repassou este desejo para o seu sucessor D. Manuel I que sustentaria o seu legado de conquistas e buscaria pela realização dos planos de seu primo e antecessor no reinado de Portugal. A relação de Vasco da Gama com D. Manuel I é fruto dos planos de D. João II com o pai do navegante. Eles arquitetaram a viagem por mar para as Índias e D. Manuel I conseguiu concretizar este desejo por meio da navegação capitaneada por Vasco da Gama.
O então rei de Portugal, D. Manuel, fomentava uma superioridade quase divina em sua postura de soberano. Ele acreditava em sua representatividade monárquica como uma dádiva concedida pelo seu Deus. Para o rei, esta nova viagem que surgiu após sua última conversa com Vasco da Gama também seria uma forma de mostrar que ele poderia ser governante tanto daquilo que era material quanto daquilo que era imaterial. Se D. Manuel chegasse onde desejava, por meio desta proposta de investida mitológica, teria ele sobrepujado tanto os povos colonizados quantos os seus deuses e lendas. Ele provaria ao seu deus o valor que tinha como rei soberano de sua nação e como conquistador e desbravador de todo o mundo. Desta forma o rei poderia difundir ainda mais o cristianismo sobre os povos colonizados e, é claro, se sua nova hipótese estivesse correta, ele também tomaria dos deuses pagãos as riquezas que eles possuíam.
Além do devaneio do rei e do navegante, havia de fato a necessidade de retornar para as Índias pela nova rota e estabelecer um contrato comercial após a primeira tentativa exploratória. Tanto D. Manuel quanto o navegante concordaram que o retorno de Vasco da Gama de forma tão imediata pela nova rota era algo que poderia atrair uma atenção indesejada. Eles perceberam a necessidade de utilizar algum outro capitão para realizar esta missão e que esta pessoa não apresentasse muita relevância na corte real portuguesa. Eles desejavam alguém que pudesse ser orientado, ou melhor, desorientado. Desta forma seriam realizadas exatamente as ações que eles planejavam sorrateiramente por meio desta viagem. Estava se moldando um plano com vários objetivos distintos, alguns transparentes e outros escritos nas entrelinhas.
Era necessário viabilizar o devaneio do rei com a necessidade do país de estabelecer de forma concreta a relação comercial com as Índias. Eles perceberam que poderiam unir esta necessidade com o desejo de navegar buscando encontrar novas terras em uma região delimitada pelo Tratado de Tordesilhas. D. Manuel lembrava das orientações de seu antecessor no reinado de Portugal quanto à possibilidade de existirem terras naquela região, de certa forma, desconhecida. Havia sido o próprio rei D. João II quem lutou pelo reposicionamento da linha imaginária que estabelecia os limites deste tratado. Ele fez isso frente aos Reis Católicos, sob mediação do papa Alexandre VI, buscando garantir que a delimitação fosse ajustada atendendo ao seu desejo. É possível notar que esta readequação garantiu exatamente que a área sobre titularidade de Portugal recaísse sobre terras existentes e que foram posteriormente descobertas. Partindo da premissa do antecessor, D. João, de haver terra naquela região, D. Manuel I se decidiu em seu plano de navegação e orientou em código o seu almirante:
– Vasco, precisamos de um cego e de dois olhos para realizar a nossa missão. – O navegante não entendeu inicialmente o que o rei pretendia com aquela frase, mas o monarca ainda assim continuou – Faremos uma manobra arriscada, por isso precisaremos de alguém que possa fazer o que desejamos sem questionar. De preferência, que esta pessoa não saiba o que está fazendo. Algumas outras pessoas poderão supervisioná-la para garantir que faça o que pretendemos sem que saiba exatamente o que faz.
Com a continuação da explanação do que desejava, ficou mais clara a intenção do rei de ter alguém que ele classificava como o cego. Então o navegante, participando mais ativamente daquela conspiração, propôs ao rei:
– Poderemos montar uma esquadra para voltar às Índias e fazer com que eles desviem sua direção para tentar chegar às terras ocultas ao leste do Tratado de Tordesilhas. Há uma manobra de navegação chamada Volta do Mar que consiste basicamente em navegar por uma certa rota para aproveitar os bons ventos e se afastar da calmaria de perto do continente africano. As embarcações se afastam muito por causa deste movimento de distanciamento e um capitão pouco experiente nem saberia que estaria se desviando demasiadamente do caminho pretendido. Poderemos fazê-lo ir exatamente para onde desejássemos que ela vá. As correntes marinhas nos ajudarão neste sentido.
Os olhos do rei transpareciam os seus pensamentos profundos em seu desejo de realizar tal desafio com sucesso. Ele sabia que precisaria ter um plano bem estruturado para que tudo saísse conforme desejado. Ele novamente orientou Vasco da Gama, dizendo:
– Iremos devagar e com cuidado ao nosso objetivo, meu caro Vasco. Não gostaria de compartilhar com muitos a nossa missão, mesmo sabendo que faremos um pouco disso por necessidade. Acredito que apenas nós dois precisamos dividir os segredos do que realmente pretendemos. Quem sabe se tivermos êxito nessa jornada eu não o torne conde um dia, Vasco? – O rei já manipulava sua marionete buscando controlá-la pela oferta de poderes – Se você precisa de um capitão, então eu lhe darei um. Há um fidalgo de meu conselho real e que é representante da Ordem de Cristo. Já que teremos que agradar algumas famílias da corte para realizar esta nova viagem, ele é exatamente o que nós precisamos. Alguém não muito conhecido, vaidoso e que encherá os olhos quando estiver frente às nossas promessas de riquezas. O nome dele, se bem me lembro, é Pedro Álvares Cabral. Deixe-me ver! – o rei parou pensativo em quais seriam suas desculpas para esta nomeação – Já sei como podemos começar! Poderemos fazê-lo Capitão Mor desta expedição dizendo que se trata de méritos por bons serviços prestados.
Ambos riram por sarcasmo e Vasco completou:
– Então farás o seu cego e eu colocarei os dois olhos necessários como vossa majestade havia proposto. Serão eles os dois irmãos Ataíde. Eles são de minha confiança e não farão nenhum questionamento sobre nossos planos. Eles irão desaparecer e aparecer quando for necessário. Quero garantir que não haja questionadores demais quanto à rota pela qual a esquadra de Cabral irá navegar. Eu colocarei alguns homens que foram comigo na viagem para as Índias e eles estarão cientes de parte do nosso plano. Eles serão a nossa garantia de que as embarcações não irão pelo caminho correto para as Índias. Pêro Escobar, Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho poderão fazer este papel. Mandaremos doze navios bem armados, eles poderão pelo menos ter alguma chance se tiverem dificuldades nesta terra desconhecida. Também será um reforço necessário se, por acaso, conseguirem chegar às Índias. Eu mesmo me incumbirei de repassar pessoalmente as orientações para esta esquadra.
O rei colocou a mão em seu queixo coçando a barba, pensou um pouco e finalizou a conversa, dizendo:
– Não, Vasco! Mande treze embarcações e no décimo terceiro navio coloque um dos irmãos Ataíde. Será este o número que nos trará sorte. Será esta décima terceira embarcação quem executará o nosso plano como desejamos.
Com todo o projeto da viagem revisado várias vezes pelo rei D. Manuel I e pelo navegante Vasco da Gama, os dois fizeram as últimas anotações e então estimaram que tudo iria acontecer conforme o planejado. Todas as documentações que pudessem deixar rastros das reais intenções daquele plano foram devidamente ocultadas ou destruídas. Até mesmo os registros dos suprimentos que foram alocados para a décima terceira embarcação foram cuidadosamente tratados. Após tudo definido, foi então definido que a viagem aconteceria o mais breve possível e que na data de 8 de março de 1500 a expedição estaria partindo de Portugal.