Capítulo 1
O Rei e o Navegante
O mundo já foi bem diferente de como o conhecemos hoje. No caso do Brasil, por exemplo, se comparado a outras grandes nações, ele ainda contempla apenas a sua fase de juventude. Se utilizarmos alguns centros milenares como base para a nossa comparação, chegaremos a uma rápida conclusão de que ainda temos muito a aprender. Há um longo caminho a ser trilhado, e existe uma considerável diferença entre o nosso jovem Brasil e outros países antigos. Também, devido a essa jovialidade, desenvolveu-se aqui uma posição cultural com significativas intervenções estrangeiras. O nosso próprio passado de colonização nos apresenta a certeza de sermos fruto da mistura de diversas raças, culturas e crenças. Partindo dessa pluralidade, será que de fato conhecemos claramente toda a nossa história? Quais foram os reais motivos que levaram a nossa nação a ser descoberta? Poderia ela ter sido achada em um plano certo de sua localização? A partir de agora, serão contados os fatos que não estão descritos na tão famosa carta de Pero Vaz de Caminha. Fatos estes que tiveram grande importância na construção do nosso imenso Brasil. Sejam eles comprováveis ou não, sejam eles reais ou não, talvez, hipoteticamente, apenas fruto de um certo imaginário.
Muitos registros oficiais apresentam uma longa história de como, de lá de Portugal, o navegante Vasco da Gama descobriu um novo caminho para as Índias. Contudo, também é conhecido que, ao retornar ao seu país, não apenas notícias boas foram entregues ao rei D. Manuel I. Vasco informou que as mercadorias levadas em sua viagem não agradaram ao governador do local visitado. Mesmo com todas as honras que foram entregues na ocasião, havia diversos pontos positivos e diversos pontos negativos em torno dos resultados alcançados. Ainda assim, a Rota do Cabo, como ficou conhecida aquela via marítima, foi definida a partir daquela viagem, havendo o estabelecimento de um novo trajeto entre Portugal e as Índias. Outro ponto, não festejado, foi o fato de que mais da metade da tripulação da Nau São Gabriel – com a qual Vasco realizou a viagem – veio a falecer durante a expedição. Da sua frota de quatro embarcações, somente duas retornaram. De toda forma, Vasco era uma pessoa que estava bastante próxima ao rei de Portugal devido àquelas realizações, assim como em virtude da proximidade que o seu pai tivera com o monarca anterior, D. João II, tio de D. Manuel I. Consequentemente, logo que o navegante retornou da viagem às Índias, ele procurou realizar uma reunião com o seu rei. Vasco desejava discutir algumas estratégias relativas ao descobrimento da nova rota comercial. Ele já imaginava a necessidade da realização de outras viagens para a terra das especiarias buscando garantir o estabelecimento do comércio com a região visitada.
Aquela época, na qual Vasco da Gama fez sua grande viagem, era conhecida como a Era dos Descobrimentos ou a Era das Grandes Navegações. Diversos países da Europa, cada um com sua relevância, estavam totalmente ávidos por novas conquistas e descobertas por todo o mundo. Porém, de forma distinta dos anseios de grandes senhores, algo na viagem às Índias ficou marcado na memória de Vasco da Gama. Ele constantemente se lembrava da recepção dos povos nativos ao chegar em terras novas. O navegante também se recordava de muitas outras experiências únicas durante aquela viagem. Em seu encontro com um determinado grupo de viajantes, Vasco observou que eles carregavam consigo diversas imagens. Dentre elas havia alguns deuses Hindus que atraíram a atenção do capitão português. Enquanto as observava, uma delas atraiu significativamente a atenção de Vasco da Gama. Tratava-se de uma pintura da deusa Lakshmi, a representação da riqueza e da fartura para aquele povo. Foi aquela lembrança que trouxe maior inquietação ao navegante para a sua reunião com o rei português. Vasco colocou como pauta para o seu encontro com D. Manuel I, algo que poderia, naquele momento, ser julgado como totalmente dispensável. Ele questionou o porquê de algumas civilizações antigas cultuarem tantos deuses e haver tantas representações de adoração da natureza material e imaterial. Aquele era um conceito divergente da religião portuguesa com bases sólidas no cristianismo, que é regido pelo monoteísmo, ou seja: pela crença na existência de um deus único. Ainda assim, a própria existência de uma trindade cristã também poderia ser utilizada como base para aquela indagação levantada.
Vasco se questionou por diversas vezes quando buscou entender quais eram as forças que o acompanhavam durante as suas navegações. Quanto à reflexão relacionada aos deuses de outras civilizações, havia uma dúvida que agora o intrigava demasiadamente. Ainda que, para ele, estivesse claro o mandamento das escrituras cristãs que diz “não terás outros deuses diante de mim”, o navegante buscava entender por que razão esta orientação não poderia ser, por exemplo, algo como: “não há outros deuses senão a mim”. Haveria então outros deuses, de fato? Quem seriam e quão verdadeiros seriam? Apenas criações pagãs, ou seres tão reais quanto aquele que Vasco tinha como o seu Deus criador? Certamente se tratava de um momento em que a fé do navegante era colocada à prova em sua mente cansada. Ele viu a sua tripulação sofrer por diversos males ocultos e os viu morrer, por exemplo, pelo escorbuto: um agente silencioso que matava comumente as pessoas nas embarcações e que muitas vezes era associado com infortúnios. Outro pensamento que o navegante carregava era o fato de ter, por necessidade de manter a sua própria vida em alguns casos, agido contra outro mandamento da bíblia cristã: “não matarás”. Vasco teve que cometer este ato certas vezes em suas jornadas, mesmo que algumas delas tenham sido de forma indireta por meio de ordens aos seus marujos. Isto acrescido ao fato de que a sua tripulação também adorava imagens, algo que estava em desacordo com outro mandamento dessa mesma religião.
Envolto em seus pensamentos durante a reunião, o navegante inconscientemente demonstrava ao rei que estava incomodado com algumas lembranças da viagem. Dom Manuel I, percebendo os olhares vazios do seu almirante-mor, o questionou de forma incisiva para que contasse sobre a sua travessia e aquilo que o perturbava. O rei desejava saber quais tormentas escureciam os pensamentos do navegante e então Vasco elucidou aquilo que havia em sua mente.
– Meu rei, perdoe-me! Estou de fato disperso. Com todos esses anos de vida, eu nunca antes havia me questionado tanto sobre tantas coisas ao mesmo tempo. Assim que chegamos à Índia, fui confundido por imagens de deuses hindus e principalmente por uma certa deusa que apresentava a riqueza como a sua maior característica. Aquela exposição mexeu comigo de uma forma muito estranha. Era como se a energia daquela entidade estivesse presente entre os homens que possuíam a sua imagem. – Desabafou o navegante.
– Mas o que poderia te incomodar tanto em uma simples imagem, Vasco? – Questionou o rei.
– Eu não sei, eu não consigo explicar. Tantas civilizações em todo o mundo, tantas delas mais antigas que a nossa. Muitas que possuem até mesmo o dobro de nossa existência. Por quais motivos estes deuses se fizeram representar de forma tão relevante dentre aqueles povos? Por qual motivo, Vossa Majestade? Por que eles não acreditam em nosso deus, que é o deus verdadeiro? Por qual motivo será que, para eles, o deus verdadeiro é outro? Quem estaria errado, afinal? Há errado? Há certo?
– Como assim, Vasco? Provavelmente a viagem lhe foi muito cansativa, meu nobre navegante. Temo que comece a imaginar que um deus pagão é verdadeiro só por causa de uma insolação!
– Não se trata disso! Ou melhor, não seria apenas isso! É pelo motivo de que em minhas viagens sempre vejo que estes povos têm uma relação muito próxima com seus deuses. É uma relação diferente! Há um contato bastante próximo. Há oferendas e há realizações. Por que será? Por qual motivo existe essa crença tão direta na capacidade de que estes deuses entregam a eles o que eles desejam? Como podem acreditar que uma deusa pode ser referência para riquezas e farturas?
– Calma! Por diversas vezes eu já ouvi falar dessas lendas e desses contos de receber graças materiais e outros agrados, mas não é bem assim que funciona. Eu não saberia responder a todos estes seus questionamentos e muito menos sobre estas tais correlações com riquezas. Você não acredita que são de fato reais, não é, Vasco? Não acredita que esses deuses também poderiam – o rei, adicionando uma fantasia própria, fez uma pequena pausa pensando no que iria falar a seguir – nos entregar as suas pedras preciosas e o seu ouro, não é? – O monarca finalizou o questionamento ao navegante olhando para ele de forma intensa e ao mesmo tempo com um certo ar de deboche.
– Não, meu valoroso rei! Foram apenas pensamentos vagos de uma mente cansada. – Vasco respondeu após alguns segundos refletindo sobre os questionamentos de D. Manuel, então, passando a mão sobre o rosto, desviou o seu olhar.
Após aquele momento os dois ficaram perdidos em seus pensamentos por certo tempo. Chegaram a ensaiar uma breve discussão sobre tal possibilidade de relação entre lendas e riquezas, mas era sempre uma conversa desconcertante para aqueles senhores. Ambos estavam sempre refletindo sobre a fé cristã e sobre as suas próprias indagações, levianas até para eles mesmos. Foi então que o Venturoso - como era conhecido o rei de Portugal por suas virtuosas remetidas de sucesso como monarca, de conquistas, glórias e tantas outras vitórias - pensou que nada perderia se tentasse esclarecer suas dúvidas sobre o devaneio de seu almirante-mor. Ele respirou profundamente e ambos voltaram a ter uma conversa mais objetiva.
– Então faremos o seguinte, Vasco! Descobriremos o real motivo pelo qual tu ficaste tão inquieto. – Disse o rei, dirigindo-se ao navegante com um ar de aventura em seu rosto – Sabemos que devemos ter certo cuidado com a cultura dos povos que estamos colonizando, mas não concorda comigo que constantemente ouvimos sobre potes de ouro ao fim do arco-íris? – sorriu o Venturoso – E se esses contos forem reais e suas riquezas estiverem esperando apenas que mais alguém acredite nelas e as explore?
Vasco ainda não conseguia digerir totalmente aquela loucura provocada por ele, mas o espírito desbravador se animava frente às possibilidades avaliadas. Ele se questionava quanto à real probabilidade de sucesso em uma jornada como aquela, porém estava bastante confiante. Ele mesmo teria acabado de fazer o que nenhum outro homem fez antes dele, a travessia pelo Cabo da Boa Esperança chegando até as Índias. Uma viagem bastante longa pelos mares do mundo estabelecendo a Rota do Cabo e criando assim um novo caminho para a terra das especiarias. Ambos, rei e navegante, conversaram por mais algumas horas sobre contos, lendas e mitos, tanto portugueses como de outros lugares de terras distantes. Em muitos momentos eles riram com aquilo que julgaram impossível de ser verídico, porém tudo acabava se agrupando em um grande conjunto de incógnitas. Eles se questionavam o porquê de certas lendas se repetirem com tanta similaridade em lugares diferentes ao redor do mundo.
Em um determinado momento da conversa surgiu um nome importante: Américo Vespúcio. Isto, por terem comentado sobre as explorações marítimas de responsabilidade dos Reis Católicos, casal de rei e rainha espanhóis. Eles colocaram em pauta os relatos de Vespúcio sobre as terras recentemente descobertas por Cristóvão Colombo e que viriam futuramente a se chamar de América, em homenagem ao relator de tal expedição. Os membros da alta cúpula da corte portuguesa já imaginavam, ou sabiam, que existiam terras ao sul daquela região recentemente descoberta. D. Manuel e Vasco da Gama estavam cientes de que, conforme o Tratado de Tordesilhas, terras na região ao leste da linha imaginária do tratado, caso descobertas, seriam portuguesas. Algumas conversas informais entre Portugal e Espanha, assim como certos documentos protegidos pelo sigilo sobre as navegações portuguesas, entregavam ao rei a certeza de que realmente havia terras naquela direção. Essas informações eram apresentadas como uma grande oportunidade de unir o útil ao agradável, pois havia a possibilidade de encontrar um lugar possivelmente virgem. Dessa forma, estava apresentada a oportunidade de explorar as suas riquezas materiais e, naquele momento principalmente, as suas riquezas imateriais. O rei sabia que a distância daquelas terras permitiria que eles realizassem operações inquisitórias sem que o resto do mundo nem imaginasse quais eram os seus reais propósitos.
Em seu íntimo, também pretendia o rei ter nessa viagem mais uma oportunidade para encontrar algo tão procurado por exploradores portugueses, a localização do Preste João, ou Padre João. Esta figura mítica era envolta em uma série de contos relacionados com poder e glória. Muitos acreditavam que o Preste João era descendente do próprio Baltasar, um dos três reis magos dos contos cristãos. Porém, naquela época ninguém sabia exatamente a localização do seu reino. Outro rei de Portugal, D. João II, alguns anos antes já havia realizado uma tentativa de encontrar o local, contudo não obteve sucesso. Durante a reunião entre o rei D. Manuel e o navegante Vasco da Gama, por mais inadmissível que pudesse ser, muitos fatores estavam por relacionar o impossível ao possível. Tantas situações prováveis e tantas místicas reunidas em mais uma viagem exploratória para Portugal enchiam o rei com um sabor especial de aventura e desafio. Assim, estava manifestada uma oportunidade imperdível de ter ele, o Venturoso, uma vez mais, direcionamento para o sucesso em uma de suas novas empreitadas jamais imaginadas.