Subseção do capítulo 5

As Duas Faces da Bela

Já um pouco distante da embarcação do capitão Vasco de Ataíde, o grupo de resgate se aproximou do seu destino. Estava escurecendo, mas eles ainda conseguiam visualizar a bela praia de areias brancas. Aquele era o lugar em que deveriam estar os tripulantes desaparecidos. O grupo enxergou de longe as outras embarcações, mas não havia nenhum sinal de vida. Eles se aproximaram da praia e, pela quantidade de material espalhado no local, ficou claro que houve um dia de festas. Porém, uma pergunta pairava no ar: Onde estavam todos afinal? Algo inexplicável e desconhecido certamente aconteceu ali. O grupo de resgate preparou alguns archotes para iluminar o caminho caso fosse necessário. Eles desceram das embarcações e então acompanharam as pegadas na areia. Quando chegaram até uma região rochosa na ponta direita da praia, houve bastante dificuldade para continuar em frente. Enquanto caminhavam entre essas pedras e o mar, eles começaram a ouvir o som suave de voz feminina. Era uma melodia nunca antes escutava por eles, mas que os encantava de uma forma muito sedutora. Um doce perfume pairava no ar e inusitadamente eles não conseguiam sentir mais medo daquela situação estranha. Agora estavam envolvidos por um intenso desejo de encontrar a fonte daqueles sinais tão atraentes. O grupo continuou avançando entre as pedras e, sem esperar, eles encontraram vários utensílios de ouro no caminho. Um dos homens que esteve ali durante a manhã disse:

– Olhem, é ouro! Isto não estava aqui quando passei mais cedo. Nenhum barco trouxe ouro para a praia, estou certo disto. Então será que é verdade mesmo? Esse canto, esse perfume, deve ser a tal mulher que o guarda da noite anterior disse que viu. Não há mais dúvida! Os mitos existem mesmo e pelo visto realmente possuem riquezas. Vamos encontrar logo essa mulher. Espero que seja como uma “loira alamoa”. Vou querer ser o primeiro a capturar ela. – Mesmo percebendo o erro ao falar a expressão “loira alemã”, tentando representar as características possíveis da mulher procurada, os demais companheiros não se deram ao interesse de corrigi-lo. Afinal, desde a noite anterior este mesmo marujo havia errado isso por várias vezes.

O grupo avançou rápido, porém o canto misterioso parou de modo repentino. Isto aconteceu quando eles chegaram no final da estrutura rochosa. Havia pouca claridade, mas, após acenderem os seus archotes, todos foram surpreendidos por uma visão inesperada. Eles estavam em frente a uma faixa estreita de pedras que avançava alguns metros para o mar. Todos puderam ver claramente a figura de uma mulher sentada numa daquelas pedras e ela estava olhando em direção a eles. Conforme todos perceberam, foi realizada a expectativa do marujo que desejava encontrar uma loira com características alemãs. Era possível ver claramente os cabelos longos e loiros jogados sobre o corpo dela. O grupo estava enfeitiçado e avançou descendo por uma pequena região íngreme formada por pedras. Aqueles que escorregaram e caíram no mar desapareceram imediatamente de forma misteriosa. Devido ao feitiço, os outros marujos não perceberam que seus companheiros estavam sumindo nas águas sob a ondas. Consequentemente, apenas alguns chegaram até a jovem donzela. Ela estava completamente nua e somente o seu longo cabelo cobria as suas partes íntimas.

Os marujos avançaram encantados sem saber o que faziam. A criatura misteriosa novamente voltou a cantar e a exalar o seu perfume atraente. Enfeitiçados, eles fixaram os archotes nas pedras e andaram na direção da bela como caças para uma armadilha. Aquele que estava mais próximo dela, de forma inconsciente, parou e olhou para a sua esquerda, na direção para a qual a embarcação portuguesa estaria. Nesse momento, o seu olhar foi seguido por todos, inclusive pela bela de cabelos loiros que ali estava. Sabendo que suas presas poderiam acordar do encanto, a criatura então finalmente se revelou. A Alamoa, como foi batizada posteriormente a mulher com características alemãs, se colocou de pé em frente aos marujos. Ela já estava bem próxima deles e então apresentou a sua verdadeira aparência. A criatura, derretendo praticamente toda a sua carne bem na frente dos marujos, transformou-se em uma caveira horrenda. Numa metade do seu corpo ainda tinha carne e na outra somente havia ossos. Eles gritaram de terror e alguns até se jogaram na água, porém aquele era um destino sem volta. Já os outros caíram ajoelhados de medo tentando se esconder em meio às pedras. Naquele momento, ela avançou e os estraçalhou ali mesmo. Praticamente todos os marujos restantes foram mortos em poucos segundos. Então, o silêncio novamente se estabeleceu em conjunto com o som dos ventos fortes da tempestade que estava se aproximando.

Para aqueles outros que ficaram com o capitão Vasco de Ataíde, a missão de enterrar a garrafa estava praticamente finalizada. Utilizaram ferramentas para conseguir fazer um buraco e garantir que o recipiente estivesse seguro naquele lugar. Porém, a embarcação que trouxeram consigo estava sob a responsabilidade do guarda guerreiro e ele não foi muito atencioso na hora de ancorar o barco. No momento em que foi convidado a ajudar os demais a cavar o buraco, ele acabou deixando a embarcação solta. O grupo somente percebeu isso quando já estavam tampando o buraco com areia e pequenas pedras. Foi o próprio Capitão Vasco de Ataíde quem avistou primeiro a embarcação à deriva. Todos correram, mas já não era mais possível chegar ao barco. O guarda guerreiro se jogou primeiro do que os outros na água, mas não conseguiu reaver a embarcação. Todos correram próximos à grande estrutura de pedra, entretanto também tiveram que entrar na água. Por sorte, as marolas não afastaram tanto o barco quanto eles temiam. Seria necessário apenas nadar um pouco para que chegassem ao outro lado onde o barco estava. Havia uma grande passagem que ficava na parte de baixo do paredão rochoso e por onde era possível ver o outro lado da ilha. Eles temiam ser atraídos pela água para aquela região, mas o capitão e os guardas conseguiram completar a travessia a salvo. Somente estavam aguardando Joaquim que apresentava uma maior dificuldade devido a sua idade avançada e devido ao fato de que pouco praticava natação.

O guarda guerreiro correu em direção ao barco e eles conseguiram capturá-lo novamente. Quando estavam se preparando para embarcar, praticamente já não era possível enxergar mais nada devido à escuridão. Exatamente naquele momento, a tempestade os atingiu com toda a força. E os pingos de chuva caindo em seus olhos praticamente os deixava cegos. Quando Joaquim finalmente conseguiu atravessar, eles ouviram o som de passos ligeiros sobre a costa de pedras imponentes. Tinham a certeza de que, pela ferocidade que tais passos aplicavam na vegetação sobre as rochas, não se tratava de nenhum dos seus outros companheiros. O capitão e os demais ficaram quietos, sem fazer nenhum som esperando que a qualquer momento uma fera fosse revelada para eles. Vasco de Ataíde fez um sinal para que todos estivessem preparados para o pior. Eles seguiram as orientações de seu capitão e empunharam suas espadas longas. Todos estavam nervosos e foi então que, de repente, exatamente no mesmo lugar em que o desenhista havia relatado, apareceu novamente uma criatura. Ela emanava uma aura esbranquiçada e ambos, tanto o guarda guerreiro como o desenhista, se lembraram da coluna de fogo que viram no dia anterior. A chuva parou instantaneamente somente naquela região que estavam e com isso a criatura conseguiu enxergar a nau portuguesa. Havia certamente algum tipo de interligação entre a tempestade e aquele ser que o permitia controlar o clima. Naquele mesmo instante em silêncio e de forma discreta, Vasco e seus companheiros conseguiram enfim visualizar o monstro. Não era mais a bela loira do desenho, mas sim uma espécie de criatura com o corpo desfigurado que procurava impetuosamente por fazer novas vítimas. O capitão e seus últimos tripulantes ficaram espiando a Alamoa que ainda não tinha os encontrado. Ela ficou ali parada olhando para a embarcação como se estivesse esperando alguma oportunidade. A noite ficou cada vez mais mais escura e então a chuva então voltou a cair.

Sem ninguém para navegar a nau portuguesa, o grupo temia que ela viesse a colidir com o fundo raso. Caso isto acontecesse, ela poderia encalhar e consequentemente afundar devido à tempestade que se aproximava. Também havia o fato de que o local que estavam não era seguro em razão da criatura espreitando e por causa do aumento das ondas que ameaçava levá-los para o mar. Vasco de Ataíde então resolveu tomar uma decisão que poderia colocar a todos em risco, mas que daria mais uma chance ao plano do rei. Com este ato, ele imaginou que outros desbravadores um dia poderiam vir a saber que tal busca havia logrado êxito. O capitão sabia que continuar naquela região poderia denunciar que eles havia deixado algo ali. Por este motivo, ele orientou a todos que, silenciosamente, se preparam para voltar para a grande embarcação portuguesa. Como a chuva estava novamente intensa, a Alamoa não conseguiu percebê-los já que estava focada na embarcação maior. O plano de saída da costa rochosa foi realizado com sucesso, mas, quando chegaram próximos à nau do capitão vasco de Ataíde, eles se colocaram incondicionalmente na linha de visão da criatura.

Neste momento o destino deles foi traçado pela última vez, pois a Alamoa os enxergou e desceu pelas pedras em direção à água para pegá-los. A situação era desesperadora enquanto eles remavam o mais rápido que podiam para subir à nau portuguesa novamente. Era possível ouvir o som das braçadas da criatura enquanto ela nadava enfurecida na direção deles. Antes de chegar, como certos tubarões fazem ao atacar suas presas, ela simplesmente desapareceu. O grupo chegou ao casco da nau, porém uma névoa cobriu todo o local e já não era mais possível enxergar nada além das dimensões do próprio barco auxiliar em que estavam. A criatura deu a volta na embarcação maior e subiu nela pelo lado oposto. A chuva parou novamente deixando o silêncio reinar, mas ele foi quebrado pelo som das batidas fortes no casco da nau. Aquilo representava a criatura escalando e arranhando o outro lado da embarcação.

O pobre Joaquim acabou se entregando ao terror e se jogou ao mar buscando nadar de volta para a praia, mas as águas levaram a sua vida na mesma hora. Já Vasco de Ataíde e os seus dois últimos tripulantes resistiram e se colocaram em desafio ao monstro. Sem que eles percebessem, a Alamoa os observava do convés da embarcação maior olhando-os de lá de cima. Ela desceu sorrateiramente em meio à névoa pela mesma escada de cordas que seria utilizada pelos portugueses e, ao chegar mais perto, se aproximou bem devagar olhando diretamente para os olhos do capitão. Tanto o guarda desenhista quanto o guarda guerreiro fecharam os olhos e viraram o rosto com medo de encarar aquela criatura horrenda. Para a Alamoa foi um desafio prazeroso este proposto pelo capitão em confrontá-la tão firmemente. Ela se deliciou com todas as liberações de adrenalina que o corpo dele produzia. Ao chegar a uns três metros de distância, ela então parou. A Alamoa aguardava a hora certa para o golpe final e, quando uma onda balançou as embarcações desconcentrando o capitão, ela o atacou com toda a ferocidade que tinha em sua capacidade destrutiva. Aos outros guardas restou apenas ouvir o único grito do capitão e depois mais nada, pois suas vidas também foram ceifadas da mesma forma.

Todos os vestígios encontrados na embarcação portuguesa pela Alamoa foram destruídos, todas as garrafas quebradas, todos os papéis rasgados e com isso muitas evidências foram apagadas. Quanto à grande nau ancorada, o mar, como se estivesse atuando como aliado da criatura, trouxe ondas grandes e levou embora a embarcação que afundou para jamais ser vista novamente. A única coisa que restou daquela viagem desastrosa foi a garrafa enterrada pelo capitão com os documentos mais importantes. Para a sua sorte, a Alamoa não a encontrou quando retornou para a ilha. Naquele momento, algo ainda mais importante aconteceu fora da sua percepção. As ondas trazidas acabaram batendo com tanta força na praia estreita que desenterrou a garrafa. Após a criatura ter ido embora, aquele singular objeto foi arrastado para o mar e se afastou rapidamente com a forte correnteza. Desta forma, o acaso e o compromisso do capitão deram uma última chance ao plano do rei de Portugal. A garrafa estaria à deriva no mar perdida até que alguém a encontrasse. Assim, um afortunado qualquer poderia então descobrir a história do décimo terceiro navio e saber como teve início essa história que será contada a partir de agora.