Subseção do capítulo 4
O Gigante da Meia Noite
Não havia lua cheia naquela noite e com isso a visibilidade em terra era bastante ruim. Tanto o alto pico quanto as duas formações rochosas estavam ocultas pela escuridão da noite. Ainda assim era possível perceber suas presenças como massas negras volumosas no horizonte. A tripulação foi orientada pelo capitão para que fizessem guardas em duplas, mas nada de estranho aconteceu nas primeiras horas da noite. Entretanto, em um dos turnos ainda naquele mesmo período, pouco antes da meia noite, de repente, um dos guardas percebeu algo muito estranho e imediatamente chamou a atenção do seu companheiro. Juntos eles andaram para a proa da nau para entender melhor o que era. Havia uma luz distante que fazia um traçado em espiral. A sua luminosidade clareava a região distante e eles não tinham dúvida de que aquela claridade estava sobre o pico rochoso. A dupla de guardas não teve uma reação imediata em busca de precaver-se do que pudesse ser aquilo. Eles ficaram paralisados como estátuas apenas observando. Nenhum deles jamais viu algo parecido com aquilo, ainda que pudesse ser uma estrutura comparável a um grande farol. Progressivamente a velocidade do movimento foi aumentando até que o próprio ar ficou em chamas. Era possível ver claramente uma coluna de fogo e no topo dela um centro ainda mais incandescente. Eles não puderam confirmar, mas certamente havia algo vivo naquele ponto superior central da estrutura.
Quando estavam para recuperar novamente os movimentos, os guardas foram surpreendidos novamente. Devido ao fato de que a claridade estava iluminando as duas estruturas de rochas similares a seios femininos, eles perceberam uma movimentação ainda mais estranha. Não queriam acreditar no que viam, mas lá estavam formas que os faziam imaginar que eram homens gigantes. Os vultos eram praticamente do tamanho da embarcação em que estavam e no primeiro momento os guardas até acreditaram que fossem outros barcos. Ainda que tentasse forçar a visão para identificar com exatidão o que era aquilo, a dupla duvidava de si por imaginar que estava delirando. Tão rápido como se formou aquele farol, ele se desfez. A estrutura cilíndrica desapareceu em espiral e o ponto central de maior luminosidade desceu em linha reta sem perder a sua claridade. Ao término destes eventos, lá estavam os dois guardas desacreditados olhando um para o outro sem saber o que dizer. Somente após alguns segundos parados frente a frente, um deles interrompeu o silêncio:
– Alguém vai ter que falar com o capitão sobre isso - falou o guarda mais franzino.
– Não olhe assim pra mim, foi você quem me chamou aqui pra ver aquilo lembra?
– Sim! Então agora é a sua vez de fazer alguma coisa!
– Mas de jeito nenhum! Você é louco? Como é que eu vou explicar isso?
– Eu não sei, fala lá o que a gente viu e pronto!
– Nem forçado eu vou lá contar isso! Falta pouco para a meia noite e já tem um monte de gente dormindo. Tanto o capitão quanto os outros guardas irão me chamar de doido – ambos pararam novamente sem palavras temendo serem taxados de loucos.
– Vamos esperar então? Deve ter sido algum fenômeno natural. Acho que foi o sol quente na nossa cabeça. Eu prometo que se acontecer novamente eu mesmo vou falar com o capitão está bem?
– Sim! Combinado!
Certamente aqueles não eram os marujos mais corajosos da embarcação e isto estava comprovado naquele instante. Um deles era aprendiz do escrivão Joaquim e seu maior dom era o de desenhar. Era um rapaz magro e pouco hábil com a espada. O outro não tinha nenhum dom específico a não ser a força bruta e um cérebro do tamanho de uma noz. Aquela era a dupla que ficou com o turno da meia noite, pois nenhum outro guarda quis estar acordado naquele horário sinistro. Os dois guardas chegaram a ficar por um tempo na proa da embarcação esperando que o evento acontecesse novamente, mas acabaram desistindo depois de esperar certo tempo olhando para a escuridão. Um deles, o desenhista, informou ao seu companheiro de guarda que desceria para a parte central e que faria a guarda naquela região da embarcação. Como ali era o local mais próximo da água, ele ficou observando as pequenas ondas batendo no casco da nau. O jovem desenhista permitiu que a calmaria do mar aliviasse a inquietude de sua mente. Havia alguma força proveniente das águas que atuava nele deixando sua cabeça leve como as ondas suaves daquele mar tranquilo.
Enquanto o guarda descansava seus pensamentos e apoiava a sua cabeça com a mão direita, ele ficou perdido em memórias de sua terra natal. Porém, de repente, ele assustou-se. Um imenso cardume de sardinhas passou por baixo da embarcação vindo da direção do estranho evento envolvendo o farol de fogo. Elas tinham uma espécie de luz própria e, como uma nuvem de prata, clarearam o fundo do mar. Os guardas perceberam aquela movimentação e ficaram surpresos com a quantidade de peixes. Como não eram pescadores, sendo um deles desenhista e o outro guerreiro, chegaram a ignorar o fato de que aquela luminosidade era estranha, mesmo com toda a sua estranheza. Certamente estava sob algum tipo de feitiço. Encantados por tanta beleza, eles até encontraram algumas linhas e anzois no convés da embarcação e começaram aleatoriamente a pescar. O desenhista ficou na parte da embarcação voltada para a ilha e o guerreiro ficou na parte voltada para o oceano. Aquele certamente foi um momento de distração totalmente inusitado e eles se divertiram competindo para ver quem pegava mais peixes.
Ainda não havia vencedores na pescaria, muito pelo contrário. Havia tanto peixe que era só jogar a linha e puxar que iriam fisgar um de qualquer jeito. Pegaram peixe pela boca, pelo olho, pela cauda, pela barbatana, por tudo que é parte. Eles se divertiam mostrando um ao outro algumas formas nunca antes imaginadas de fisgar um peixe. Porém, em um determinado instante, do lado da embarcação que dava para o oceano, os peixes simplesmente desapareceram. Era uma reação como se algum predador tivesse se aproximado. O guarda guerreiro ficou com cara de bobo e não havia mais nenhum peixe do seu lado. Ao olhar para trás ele viu o seu companheiro cantando vitória e ele não conseguiu entender o que aconteceu. Irredutível, o guarda guerreiro não saiu do lugar e ficou convicto de que pegaria o peixe maior que espantou o seu cardume. Ele preparou uma nova linha com três iscas vivas usando algumas sardinhas que ainda se debatiam em um balde. A situação seria engraçada se não fosse trágica. Lá estava o guarda de quase dois metros de altura com uma linha de pesca na mão esperando fisgar um peixão enquanto seu companheiro ria e continuava pegando várias sardinhas. Irritado ele disse:
– Pode rir! Eu estou com meu anzol aqui dentro da água esperando um peixe grande. Eu não quero sardinha não! Fique com suas sardinhas ai. Deixe você ver o grandão que eu vou pegar.
Mesmo com a gargalhada de seu companheiro, o guarda guerreiro continuou concentrado em sua pescaria. Ele observava atentamente cada movimento das àguas, mas de vez em quando se virava para espiar o seu companheiro. O guarda ainda não conseguia entender o motivo pelo qual os peixes haviam fugido para o outro lado da embarcação. Alguns minutos se passaram e ele percebeu que a sua estratégia de pescar um peixe grande estava fadada ao insucesso. Devido à sua postura fechada e aparentemente raivosa, ele acabou impedindo até mesmo que o seu companheiro tentasse alguma interação. Quanto às sardinhas que estavam presas ao anzol do guarda guerreiro como iscas vivas, elas já estavam sem vida e não mais brilharam na cor prata. Ainda assim, o insistente guarda continuou em sua estratégia de capturar aquilo que, para ele, seria um grande predador. Em seu entendimento, essa captura faria com que o seu companheiro o invejasse.
Após pouco tempo, o guarda guerreiro ouviu estranhamente o som sutil de uma batida constante. Ele virou-se e percebeu que lá estava o seu companheiro parado olhando para a estrutura rochosa à frente dele. Somente as mãos trêmulas se mexiam produzindo o som contínuo ao bater na borda da embarcação. Era estranho perceber que também não havia mais nenhum peixes naquela direção. Ele abandonou o seu anzol e foi averiguar o que estava acontecendo. Ao se aproximar, o guarda não entendeu o motivo pelo qual o seu companheiro estava paralisado. O desenhista somente reagiu após ser pego pelos braços e sacudido. Neste momento, o guerreiro o questionou:
– Você está bem? O que aconteceu? Para onde foram os peixes? – Perguntou olhando intensamente para o seu companheiro de guarda.
– Você não viu? Algo acabou de passar ali! Algo muito estranho! Eu não consegui entender muito bem o que era, mas estou com medo. Acho que aquilo que vimos lá no horizonte não era apenas fruto da nossa imaginação.
– Como assim? O que você viu exatamente?
– Eu não sei muito bem, mas perceba que todos os peixes desapareceram. É como se algo tivesse acontecido. Acho que foi por isso que eles foram embora. Há algo naquela direção – falou apontando para a estrutura de rochas à frente deles.
– Mas eu não consigo ver nada – respondeu o guarda guerreiro se esforçando para enxergar no escuro.
Nenhum deles conseguiu identificar exatamente o que o guarda desenhista acreditou ter visto. Certamente havia algo por trás da estrutura rochosa, mas era praticamente impossível saber do que se tratava. Repentinamente, eles ouviram o som estranho de algo sendo arremessado no ar. O silêncio na embarcação continuava e era possível perceber que o som era proveniente de trás da estrutura rochosa à frente deles. Com as suas pupilas dilatadas a um nível extremo, tentando capturar qualquer luz naquela escuridão, eles enfim perceberam uma pequena claridade prateada. Conforme esta luminosidade ficou mais aparente, eles enfim puderam enxergar mais claramente as formas da estrutura de pedras. Para a surpresa deles, lá do outro lado havia uma criatura gigantesca. Ela estava olhando para outra direção e isto permitiu que eles se mantivessem despercebidos. Como a luminosidade prateada era intermitente, somente em alguns momentos os guardas conseguiam enxergar parcialmente a criatura.
O desenhista que tinha uma capacidade maior de perceber formas identificou aquilo como um ser humanoide. Dessa vez não havia nenhuma dúvida de que do outro lado das rochas havia realmente um gigante. Ainda era próximo da meia-noite quando aquela situação inusitada aconteceu e lá estava uma criatura habitante da ilha. O som que os guardas haviam percebido era provocado por uma estrutura the cordas utilizadas por ela para pescar as sardinhas prateadas. Toda vez que o gigante arremessava a sua tarrafa na direção do mar, o som se repetia. Ficou claro para os guardas que a presença e a ausência da claridade era exatamente o agrupamento e a captura das sardinhas. O desenhista e o guerreiro ficaram observando a criatura em sua pescaria e não fizeram sequer um som. Eles estavam surpresos e aterrorizados com aquela visão e por este motivo nem conseguiam se mexer.
Sem perceber os observadores que estavam do outro lado das rochas, o gigante realizou a sua pescaria sem maiores problemas. Ao final, ele retornou para o lugar de onde veio sem notar a presença da embarcação portuguesa. Os guardas novamente respiram aliviados, mas entenderam que a continuidade de eventos sinistros deverá ser apresentada ao capitão. Eles sabiam que a melhor decisão seria acordá-lo e relatar os acontecimentos imediatamente. Porém, quando estavam se dirigindo para a cabine do Vasco de Ataíde, o desenhista resolveu olhar novamente em direção à estrutura rochosa. Era como se alguma energia estranha o provocasse a fazer aquilo. O seu companheiro sabia que a missão de acordar o capitão não seria nada prazerosa, mas entendia que era necessária. Ele percebeu que o desenhista continuava olhando para as pedras e resolveu continuar sozinho em direção àquela cabine. O desenhista se aproximou novamente da borda da embarcação para observar mais uma vez a estrutura de pedras e se assustou novamente. Ele chamou seu companheiro dizendo:
– Olhe! Olhe! Veja! Há uma mulher ali…
O outro guarda correu sobre o convés da nau, mas não foi cuidadoso. Ele acabou tropeçando em alguns baldes e acordou outros tripulantes. Imediatamente eles também foram observar as imponentes paredes rochosas, mas nada viram. Alguns fizeram gozação com o desenhista e outros quiseram jogá-lo no mar como lição. Eles queriam fazê-lo aprender a não incomodar a tripulação que estava em pleno sono. O barulho da bagunça ficou tão incômodo que até alguns animais que eram mantidos dentro da embarcação começaram a emitir algum tipo de som. Consequentemente, o capitão Vasco de Ataíde também acordou. Ele foi logo ver o que acontecia e imediatamente foi informado do ocorrido. O capitão então se dirigiu ao encontro do guarda que afirmava ter visto a tal mulher misteriosa. Antes mesmo que a dupla pudesse se explicar e contar os acontecimentos presenciados, Vasco pediu ao desenhista alguns esclarecimentos.
– Então, me diga! O que afinal de contas você viu para fazer toda esta bagunça?
– Capitão, eu te peço mil desculpas, mas não queria incomodá-lo. Eu realmente vi capitão, uma mulher, ela estava ali na parede de pedra. Ela estava olhando para a nau como se quisesse vir para cá – respondeu o desenhista apressadamente esquecendo-se até mesmo de comentar sobre o gigante.
Todos riram e um deles desferiu um tapa na cabeça do pobre desafortunado, porém o capitão manteve sua seriedade e continuou a questionar calando a todos.
– Esperem! Silêncio! Como assim? Conte-me mais.
– Meu capitão, por favor, não me tenha como mentiroso. – Falou sem muita coragem devido ao sarcasmo da tripulação – Eu sei exatamente o que eu vi. Era uma mulher. Não dava para ver o seu rosto daqui com essa lua, mas dava para ver o seu cabelo longo. Sem dúvida era uma mulher bonita e alta, capitão – falou o desenhista sem acreditar no que ele mesmo dizia.
Outro tripulante ao fundo gritou:
– Ele é louco! Falando assim parece que estava sonhando com a filha do Joaquim – todos riram, mas o capitão ainda se manteve sério.
– Silêncio, todos vocês! – Exclamou novamente – Não estamos aqui para isto, lembrem-se do que viemos fazer nessa viagem. Se o que este louco diz é verdade, então poderá ser esta a nossa primeira provação. Viemos aqui em nome do rei Venturoso para encontrar tais criaturas e sobrepuja-las. Viemos desafiá-las e sair vitoriosos, não para duvidar de sua existência.
Devido a algum motivo não aparente, por mais encorajadoras que fossem as palavras do capitão, ninguém gritou em apoio. Todos continuaram em silêncio e ele finalizou a balbúrdia dizendo:
– Quero que todos fiquem de prontidão e a partir de agora serão quatro guardas por turno. Nesta noite nós não descansaremos e quero ser acordado caso qualquer coisa estranha aconteça. Não confio muito nessas paredes rochosas à nossa frente – todos olharam na direção de tais formações pedregosas e se arrepiaram.
O desenhista e o guerreiro se aproximaram e cochicharam entre si que seria melhor não contar a história dos gigantes. Eles haviam estragado tudo com aquela loucura sobre a mulher nas pedras e mais uma história mirabolante poderia retirar ainda mais a credibilidade deles. O guarda desenhista insistiu que no dia seguinte tentaria falar a sós com o capitão sobre o ocorrido, mas ficou acordado de não tocarem mais no assunto naquela noite. Iriam aproveitar a troca de guardas para descansar. A noite avançou sem que nenhum outro desafortunado gritasse novamente por ter visto uma mulher ou qualquer outra coisa na noite escura. Ainda assim, uma energia estranha brincava com suas mentes e a todo o momento um vulto era percebido por cada um deles. A dúvida de ser real ou não a presença da tal mulher ficava perturbando os homens que montavam a guarda. Poucos dormiram bem, pois tinham receio de serem acordados novamente por algum outro guarda maluco. A tripulação também havia perdido o sono devido à seriedade do capitão ao tratar do assunto. Eles temiam que a próxima situação fosse por um motivo real de contato direto com um ser desconhecido.