Subseção do capítulo 3

O Quebra Cabeça Incolor

Cabral sofreu muitas perdas durante a tentativa de retorno ao curso original da sua viagem, o caminho para as Índias. Ele passou por uma grande tempestade no oceano atlântico onde perdeu muitos de seus navios. Ao chegar ao seu destino original, ele ainda teve que travar várias batalhas até estabelecer seu dever formalizado que era o de concretizar as relações comerciais com aquele local. Ele teve sucesso em sua empreitada comercial e com este papel devidamente realizado, estava Cabral pronto para regressar a Portugal. Mesmo com muitos navios perdidos, o carregamento das embarcações restantes iria render o suficiente para pagar todos os prejuízos materiais da viagem e ainda haveria um certo lucro.

Tudo estava mais que plenamente mascarado e as últimas peças do plano foram então colocadas. Este era um esquema cuidadosamente elaborado pelo rei e, em Moçambique, o segundo olho, representado pelo navio de Pedro de Ataíde, uma vez que viu tudo que era necessário, se afastou da esquadra deliberadamente, assim como fez o seu irmão anteriormente. Neste caso, o desejo era de seguir ao encontro de mensageiros em embarcações menores e mais ágeis que levariam as notícias ao rei quanto ao sucesso de seu plano. Aquele desaparecimento talvez tenha sido a única peça que foi mal encaixada, pois a falta de Pedro foi muito estranha para Cabral que acabou conseguindo alcançá-lo em busca de tirar satisfações.

Percebendo a desconfiança do capitão mor daquela esquadra, o navegante Nicolau Coelho, que era uma das pessoas conhecedoras de parte do plano do rei, jogou pela esperteza e conseguiu ganhar sobre Cabral. O capitão estava apenas focado em se entender com o Ataíde desgarrado e, com isso, não conseguiu se livrar das más intenções de seu outro companheiro de viagem. Nicolau pressionou para que ele permitisse que a sua embarcação, que era uma caravela, logo mais rápida que a nau capitânia, partisse na frente em direção a Portugal. Ele informou que desejava continuar a viagem solitariamente para avisar ao rei das conquistas e desventuras desta expedição. O capitão mor concordou com a sugestão e permitiu que ele fizesse conforme desejado. Nicolau chegou a Portugal ao mesmo tempo que os mensageiros de Ataíde e isso deu chance aos membros do complô de se organizarem contra Cabral. Eles acreditavam que o capitão poderia colocar tudo a perder devido a sua desconfiança. As embarcações restantes da esquadra somente chegaram depois e de nada adiantou a Cabral questionar o Pedro de Ataíde sobre o seu desaparecimento. Ele utilizou toda a sua boa conversa para ludibriar novamente o capitão mor no momento em que eles se encontraram novamente. Mesmo aceitando os argumentos dele, Cabral seguiu com diversos questionamentos em sua mente.

Ao retornar a Portugal, as embarcações que traziam as conquistas da descoberta de novas terras e do estabelecimento do pacto comercial com as Índias foram ovacionadas pela corte real. Entretanto, os olhares trocados entre o descobridor e o rei não foram nada amigáveis. D. Manuel I já havia realizado tudo que pretendia naquele seu plano espalhafatoso e não podia permitir que um nobre pouco conhecido tomasse tanta fama e viesse a colocar a perder tudo o que ele havia esquematizado. Devido à caravela de Nicolau Coelho que chegou antes de Cabral, o rei teve tempo suficiente para planejar uma forma de se livrar daquele possível empecilho. Ele, usando as perdas que sofreram os portugueses nas lutas da viagem realizada, pensou em propor uma nova expedição de retorno imediato onde indicaria novamente o Pedro Álvares Cabral como líder. A nova empreitada poderia ser batizada de Frota de Vingança, mas era na verdade uma forma de retirar Cabral presencialmente do centro das atenções em Portugal. O nome utilizado foi proposto devido às batalhas que foram travadas nas Índias e que resultaram na morte de diversos tripulantes das embarcações portuguesas.

Durante os primeiros dias, os aliados do rei rodeavam Cabral para que ele aceitasse retornar à Índia sobre a proposição de vingança, porém para o descobridor aquilo era uma insanidade. Ele entendia que tudo estava firmado mesmo com tanto derramamento de sangue e que bastava um retorno pacífico para garanti-lo. Para Cabral havia certa desconfiança de que a última viagem realizada foi parte de um plano desconhecido por ele que, mesmo atuando como Capitão Mor, de nada sabia e apenas figurou como coadjuvante. Esse pensamento se fortaleceu quando, após Cabral ter aceitado o retorno às Índias e estar por oito meses em preparação, o rei confirmou o boato de que haveria um comando independente em sua esquadra. D. Manuel I informou que o grupo menor seria liderado por Vicente Sodré, outro navegante português. Cabral via claramente que aquela poderia ser a sua última viagem e que o capitão indicado poderia ser o seu algoz. Devido a esta imposição do rei, Cabral se recusou de todas as maneiras possíveis, negando realizar esta expedição por temer pela sua vida. O rei então se deu por convencido de que estava no direito de retirar os votos de nobreza dele e utilizar esta insubordinação para descaracterizar o capitão de qualquer força e possibilidade de se voltar contra a sua autoridade. Para não levantar suspeitas, D. Manuel nomeou o próprio Vasco da Gama como Capitão Mor desta nova esquadra e a viagem foi realizada sem maiores interferências para os planos do monarca. Ficou claro para os demais nobres da corte portuguesa que qualquer menção a Cabral poderia resultar no banimento da corte devido à forma como o descobridor foi expulso.

Realizados todos estes acontecimentos, tinham o rei e seus comparsas logrado êxito em seu plano. Porém com a partida imprevista de Vasco da Gama, D. Manuel I acabou ficando sem o seu principal cúmplice, aquele único além dele que tinha total conhecimento do plano inicial. Isto aparentemente o deixaria menos seguro em dar continuidade àquele devaneio de seres místicos e de suas riquezas. Mesmo com todo o plano tendo acontecido como previsto, agora havia a força de toda a atenção da corte portuguesa que estava voltada para as terras descobertas. Para piorar, havia o fato de que o navio do Vasco de Ataíde ainda não dera nenhum sinal de que retornaria com homens vivos daquela viagem solitária. O rei sabia que, mesmo havendo uma política de sigilo sobre os descobrimentos, seria algo quase impossível tentar manter às escondidas o seu real interesse sobre as novas terras. Em uma carta enviada aos Reis Católicos da Espanha, ele mencionou sobre aquele novo lugar descoberto e sobre sua percepção quanto aos habitantes que lá viviam. Tantas atenções foram direcionadas para estas novas terras de tal forma que seu plano inicial em sobrepujar os deuses deste povo de alma inocente estava fadado ao insucesso. Isto, devido à impossibilidade de anonimato e, consequentemente, devido à necessidade de pôr o plano sobre a mesa para que fosse acobertado.

A discussão com Cabral já havia chamado demais a atenção da nobreza e o rei entendia que ser ainda mais cauteloso era a melhor escolha naquele momento. Com isso ele coagiu os demais conhecedores de parte do plano para que aceitassem a imposição de que tudo aquilo se tratava apenas de uma ação para forçar o descobrimento de uma nova terra. Com bastante firmeza, o rei os calou avisando para que não acontecesse com eles o mesmo que havia acontecido com Cabral. O plano não foi mais mencionado e, inclusive, o vislumbre do próprio rei e de Vasco da Gama pelas relações comerciais com as Índias retiraram qualquer expectativa de continuidade. Algumas perguntas importantes acabaram se perdendo em conjunto com o abandono do que foi planejado, afinal o que será que aconteceu à nau do capitão Vasco de Ataíde? Esta reviravolta teria descartado qualquer possibilidade de sucesso em sua jornada? Haveria alguma chance daquela nau retornar com as notícias desejadas pelo rei e pelo navegante? Alguns esclarecimentos somente foram possíveis vários anos depois quando o Brasil assim já se chamava e possuía os seus próprios imperadores e imperatrizes.