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Aqui você poderá entrar nesse incrível universo que apresenta a Batalha de Mitos. Dividimos o enredo por capítulos que poderão ser lidos aqui conforme forem publicados. Divirta-se e nos conte como foi a sua experiência ao conhecer essa história fantástica que tem dentro vários, um importante objetivo: apresentar mais perguntas do que respostas. Todo os capítulos aqui apresentados também serão publicados no Wattpad. Esta ferramenta de compartilhamentos de eBooks é extremamente interessante e apoiamos a sua utilização. Acesse o nosso perfil nesse site e tenha uma nova opção de leitura dessa história maravilhosa: http://www.wattpad.com/story/38087870

NAVEGUE PELO ENREDO

Capítulo 1: O Rei e o Navegante

O mundo já foi bem diferente de como conhecemos hoje e para algumas civilizações esta temporalidade do que se entende por antigamente está ainda mais distante do que para outras. No caso do Brasil, por exemplo, se comparado com outras grandes nações, ainda contempla apenas a sua fase de juventude. Se tomarmos centros milenares como base para a nossa comparação temporal, chegaremos à conclusão de que ainda temos muito para aprender e muito para viver se quisermos nos comparar com países como Índia e China, por exemplo. Esta jovialidade nos coloca em uma posição cultural bastante envolvida com intervenções estrangeiras e a nossa própria história de colonização nos apresentou uma proposta de sermos fruto da mistura de diversas raças e diversas culturas. Devido a esta pluralidade, se nos perguntarmos será que de fato conhecemos todo o nosso passado e toda a nossa história? Quais foram os reais motivos que levaram a nossa nação a ser descoberta, ou poderia ela ter sido achada? Contaremos a partir de agora os fatos que não estão descritos na tão famosa carta de Pero Vaz de Caminha, mas que tiveram grande importância na construção deste imenso Brasil, possam eles ter comprovação ou não.

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Muitos registros conhecidos nos apresentam a história de como, de lá de Portugal, o navegante Vasco da Gama descobriu um novo caminho para as Índias. Também é do nosso conhecimento que, ao retornar para o seu país, não apenas notícias boas foram entregues ao rei D. Manuel I, tendo em vista que, neste retorno, Vasco informara que as mercadorias levadas em sua viagem não agradaram ao governador do local visitado. Mesmo com todas as honras que foram dadas a Vasco da Gama pelo feito único e desafiador de ter concretizado a Rota do Cabo, por onde Portugal poderia ter uma nova alternativa de comercio com as Índias, naquele momento não havia muitas vitórias a se festejar. Mais da metade da tripulação da Nau São Gabriel, com a qual Vasco realizou esta viagem, pereceu durante a expedição, assim como, da sua frota de quatro embarcações somente duas retornaram. Vasco era próximo ao rei de Portugal, até mesmo pela relação que teve o seu pai com o monarca anterior, D João II, tio de D. Manuel I, e assim que retornou da viagem à Índia teve uma reunião com o rei sobre algumas estratégias que seriam definidas devido a esta nova rota que foi descoberta para que se realizassem viagens à terra das especiarias.

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Aquele tempo em que Vasco da Gama fez sua grande viagem era conhecido como a Era dos Descobrimentos, ou Era das Grandes Navegações, e diversos países da Europa como Portugal, Espanha e alguns outros, cada um com sua relevância, estavam totalmente ávidos por novas conquistas e descobertas por todo o mundo. Algo nessa viagem às Índias que ficou marcado para Vasco se deu na recepção realizada por mouros, povos oriundos do norte da África praticantes do Islamismo, ao chegar às Índias. Eles tinham consigo diversas imagens e dentre elas alguns deuses Hindus que atraíram a atenção do navegador português e inclusive o confundiram. Ele entendeu de forma errada que estes anfitriões poderiam ser cristãos e talvez não fossem muçulmanos devido a tais imagens que para ele se assemelharam à primeira vista com as figuras cristãs. A escultura que mais atraiu a atenção do navegante português foi a da deusa Lakshmi, a representação da riqueza e da fortuna, e Vasco da Gama trouxe tal inquietude à sua reunião com o rei português. O Navegante colocou como pauta das suas discussões com o rei algo que, naquele momento, seria totalmente dispensável. Vasco questionara o porquê das civilizações antigas sempre terem tantos deuses e tantas representações de adorações da natureza material e imaterial. Um pensamento que se apresentava totalmente divergente da religião portuguesa com bases sólidas no cristianismo.

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Vasco ficara se perguntando em sua jornada árdua quais seriam os motivos de tantas idas e vindas navegando por entre a sorte e o azar. Quanto à reflexão relacionada aos deuses de outras civilizações, para ele, uma vez que estava claro o terceiro mandamento das escrituras cristãs que diz “não tenha outros deuses diante de mim”, pensava por que razão esta orientação não deveria ser, por exemplo, algo como “não há outros deuses se não há mim”. Haveria então outros deuses de fato? O que representariam esses outros deuses? Apenas criações pagãs ou seres tão reais quanto aquele que ele tinha como seu Deus criador? Se tratava de um momento em que a fé era colocada a prova na mente de um homem que viu sua tripulação sofrer de diversos males ocultos, por exemplo, morrendo pelo escorbuto, um mal silencioso que matava comumente as pessoas nas embarcações.  Outro pensamento que o navegante carregava era o fato de ter ele mesmo, por necessidade de manter a sua própria vida em alguns casos, agido contra o décimo terceiro mandamento da bíblia cristã que diz “não matarás”. Vasco teve que cometer este ato por diversas vezes em suas jornadas, mesmo que tenha sido direta ou indiretamente.

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Envolto em tais pensamentos, o navegante inconscientemente demonstrava ao rei que estava incomodado com algumas lembranças da viagem e que ainda não havia esclarecido para o monarca naquela reunião. Dom Manuel I, percebendo os olhares vazios do seu Almirante Mor, o questionou de forma incisiva para que contasse o que se passou. Vasco elucidou o que havia em sua mente e eles conversaram um pouco sobre o assunto.

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– Com todos esses anos de vida nunca antes havia me questionado tanto sobre tantas coisas ao mesmo tempo. Assim que aportamos na Índia, fui confundido por imagens de deuses Hindus e principalmente por uma deusa que apresentava a riqueza como sua maior característica. Aquela presença mexeu comigo de uma forma muito estranha como se a entidade estivesse lá. – Desabafou o Almirante.

– Mas o que poderia te incomodar tanto em uma simples imagem de deuses desses povos? Você não está imaginando que um deus pagão, lendas ou mitos podem ser reais não é? Algumas vezes já ouvi falar dessas lendas e de suas representações de riquezas,  mas você não acredita que são reais e que poderiam – fez uma pequena pausa pensando no que iria falar a seguir – nos entregar suas pedras preciosas e ouro, não é Vasco? – o monarca finalizou o questionamento ao navegante olhando para ele de forma intensa.

– Não meu valoroso rei, foram apenas pensamentos vagos de uma mente cansada. – Vasco respondeu rapidamente depois de alguns segundos refletindo sobre os questionamentos do rei.

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Após aquele momento, com uma breve discussão entre ambos sobre tal possibilidade de relação entre lendas e riquezas, os dois ficaram perdidos em seus pensamentos que divergiam entre a fé cristã e as indagações que, até para eles mesmos, eram levianas. Foi então que o Venturoso, como era conhecido o rei de Portugal por suas virtuosas remetidas de sucesso em sua vida como monarca, de conquistas, glórias e tantas outras vitórias, pensou que nada perderia se buscasse saber um pouco mais sobre estes devaneios do Vasco da Gama que era uma figura bastante importante em sua corte.

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– Então faremos o seguinte, Vasco, iremos descobrir o real motivo pelo qual tu ficaste tão inquieto. – Falou o rei se dirigindo ao navegante com um ar de aventura em seu rosto – Sabemos que a cultura das civilizações que estamos colonizando é algo que temos que ter bastante cuidado, mas não concorda comigo que sempre ouvimos sobre potes de ouro no final do arco-íris? E se forem verdade que tais mitos possam ser mais do que fruto do imaginário e que suas riquezas estejam esperando apenas que alguém acredite nelas e as explore?

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Vasco ainda não conseguia digerir totalmente esta loucura de seu rei, mas o espírito desbravador se apresentava forte dentro dele para se questionar quanto à possibilidade de sucesso em uma jornada como esta nunca antes imaginada. Afinal, acabaria ele de fazer o que nenhum outro homem fez antes dele com uma viagem tão longa pelos mares do mundo ao estabelecer a Rota do Cabo com o novo caminho para as Índias.

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Os dois conversaram por mais algumas horas sobre contos, lendas e mitos, tanto portugueses como de outros lugares das terras distantes. Em muitos momentos ambos deram muitas risadas com aquilo que eles mesmos julgavam impossível de ser verdade, mas que ao mesmo tempo era uma grande incógnita imaginar o porquê de se repetirem com tanta similaridade em tantos lugares diferentes ao redor do mundo. Em um determinado momento da conversa surgiu um nome importante, Américo Vespúcio, isto por terem comentado sobre as explorações marítimas dos Reis Católicos, casal de rei e rainha espanhóis, e também sobre sua filha, Maria de Aragão, com quem o rei D. Manuel I viria a se casar sendo esta a sua segunda esposa. Eles colocaram em pauta os relatos de Vespúcio sobre as terras recentemente descobertas por Cristóvão Colombo e que viriam a ser chamar de América em homenagem ao relator de tal expedição.

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Uma vez que a corte portuguesa em sua alta cúpula já imaginara, se não já sabia, existirem terras ao sul daquele novo continente, o rei e o navegante estavam certos de que, conforme o Tratado de Tordesilhas, terras naquela região ao leste da linha imaginária do tratado, caso descobertas, seriam portuguesas. Muitas conversas informais na realeza, assim como documentos protegidos pelo sigilo das navegações realizadas por Portugal, muniam o rei D. Manoel quanto a certeza de que realmente havia terras naquele lugar supostamente desconhecido. Estas informações estavam apresentadas como uma grande oportunidade de unir o útil ao agradável, pois ele poderia encontrar tais terras o quanto antes e, havendo confirmação, também encontrariam um povo ainda desconhecido pelo mundo permitindo que os portugueses os explorassem quanto às suas riquezas materiais e, neste momento principalmente, quanto às suas riquezas imateriais. Ações estas que seriam realizadas sem que o resto do mundo nem imaginasse o que estava sendo feito ali.

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Em seu íntimo, também pretendia o rei ter nessa viagem imaginada por ele e por Vasco da Gama, mais uma oportunidade para encontrar algo tão procurado pelos exploradores portugueses, o Preste João, ou Padre João. Esta figura mítica era envolta em uma série de contos relacionados com poder e glória. Muitos acreditavam que o Preste João era descendente do próprio Baltasar, um dos três reis magos dos contos cristãos. Muito naquele momento, por mais inadmissível que pudesse ser, estava ligando o impossível ao possível. Tantas situações prováveis e tantas místicas reunidas em mais uma viagem exploratória para Portugal, enchiam o rei D. Manuel I com um sabor único de aventura e desafio. Com isto, estava posta uma oportunidade quase que imperdível de, com apenas uma única empreitada, ter o rei uma grande quantidade de conquistas em apenas um único ato.

Capítulo 2: Um Cego e Dois Olhos

Portugal, país governado pelo rei D. Manoel I, era considerado um dos países mais ricos da Europa no século XV e, em conjunto com a forma como o monarca propusera o seu reinado, poderia ele se dar ao luxo de realizar mais uma excursão além-mar para navegar em terras desconhecidas. O espírito que abraçou o rei e o navegante foi o puro desejo de realizar uma expedição sem precedentes, mesmo que os motivos reais fossem questionáveis. Muita cautela deveria existir neste objetivo, pois, se estivessem corretos quanto aos mitos e suas riquezas, seriam seguidos de perto pelos outros países colonizadores como França, Espanha e Inglaterra que também buscariam se beneficiar desta fonte. Assim como, se estivessem errados, tal notícia poderia virar contra eles fazendo-os perder valores relevantes de credibilidade com a sua corte o com restante do mundo.

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O rei de Portugal fomentava uma superioridade quase divina em uma postura de soberano por acreditar em sua representatividade monárquica como uma dádiva concedida por Deus. Para ele, esta viagem também seria uma forma de mostrar que poderia ser senhor tanto daquilo que era material quanto daquilo que era imaterial. Se D. Manoel chegasse onde desejava com esta proposta de investida mitológica teria ele sobrepujado tanto os homens quantos os seus deuses e lendas. Ele provaria ao seu Deus o valor que tinha como rei soberano de sua nação e como conquistador e desbravador do mundo. Desta forma o rei poderia difundir ainda mais o cristianismo sobre os povos colonizados e, é claro, se sua nova hipótese estivesse certa, ele também tomaria dos mitos pagãos as riquezas que eles possuíam.

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A necessidade de retornar às Índias pela nova rota e firmar um contrato comercial em fortalecimento à primeira tentativa frustrada capitaneada por Vasco da Gama foi algo que se firmou naquela reunião, assim como o desejo da procura pelos possíveis mitos reais. Tanto D. Manuel quanto o navegante concordariam que o retorno de forma tão imediata de Vasco pela nova rota estabelecida, naquele momento, não era tão interessante. Eles precisariam de algum outro capitão que não tivesse tanta relevância na corte real portuguesa para realizar esta missão, alguém que pudesse ser orientado, ou desorientado de certa forma. Assim seriam realizadas exatamente as ações que eles planejavam com esta viagem de vários objetivos distintos, alguns transparentes e outros escritos nas entrelinhas. Era necessário viabilizar o devaneio do rei com a necessidade do país de estabelecer de forma concreta a relação comercial com as Índias. Ambos pensavam em unir esta necessidade com o ato de navegar por uma região delimitada pelo Tratado de Tordesilhas buscando encontrar novas terras. Então o rei falou para o seu almirante como se tivesse uma inspiração:

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– Vasco, precisamos de um cego e de dois olhos para realizar a nossa missão. – O navegador não entendeu inicialmente o que o rei pretendia com aquela colocação, mas o monarca continuou – Faremos uma manobra arriscada, por isso precisaremos de alguém que possa fazer sem questionar e que, de preferência, não saiba o que está fazendo. Algumas outras pessoas poderão supervisioná-lo para garantir que faça o que pretendemos sem saber o que faz.

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Com a continuação da explanação do que desejava ficou mais clara a intenção do rei de ter alguém que ele classificara como cego. Então o navegante, já participando mais ativamente daquela conspiração, propôs ao rei:

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– Poderemos montar uma esquadra para voltar às Índias e fazer com que eles desviem sua direção para tentar chegar às terras ocultas do oeste da África. Há uma manobra da navegação chamada Volta do Mar que consiste basicamente em um caminho cruzado para aproveitar os bons ventos e se afastar da calmaria de perto deste continente. As embarcações se afastam muito por causa deste movimento de distanciamento e um capitão inexperiente nem saberia que estava se desviando demasiadamente do caminho pretendido. Poderíamos fazê-lo parar exatamente onde desejássemos.

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Os olhos do rei transpareciam os pensamentos profundos buscando realizar tal desafio com sucesso. Ele sabia que precisaria ter um plano bem preparado para que tudo desse certo. Então ele orientou seu companheiro dizendo:

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– Iremos devagar e com cuidado ao nosso objetivo, meu caro Vasco. Não gostaria de compartilhar com muitos a nossa missão, mesmo sabendo que faremos um pouco disto por necessidade. Acredito que apenas nós dois precisaríamos dividir os reais frutos e segredos do que pretendemos. Quem sabe se tivermos êxito nessa jornada eu não o torne Conde um dia, Vasco? – O rei já manipulava sua marionete buscando controlá-la pela oferta de poderes – Se você precisa de um capitão inexperiente, então eu lhe darei um. Há um fidalgo de meu conselho real e que é representante da Ordem de Cristo. Já que teremos que agradar algumas famílias da corte, é exatamente o que a gente precisa. Alguém não muito conhecido, vaidoso e que encherá os olhos quando lhe fizermos milhares de promessas de riquezas. O nome dele é Pedro Álvares Cabral se bem me lembro. Poderemos fazê-lo Capitão Mor desta expedição dizendo que se trata de méritos por bons serviços prestados.

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Ambos riram por sarcasmo e Vasco completou:

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– Então farás o seu cego e colocarei os dois olhos necessários como havia proposto, serão os dois irmãos Ataíde. Eles são de minha confiança e não despertarão nenhum questionamento sobre nossos planos. Faremos eles desaparecerem e aparecerem quando necessário. Quero garantir que não haja questionadores demais quanto ao rumo que seguirem na esquadra do Cabral e colocarei alguns homens que foram na última viagem comigo cientes de parte do nosso plano. Eles nos garantirão que as embarcações não irão pelo caminho correto. Pêro Escobar, Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho poderão fazer este papel. Mandaremos doze navios bem armados, eles poderão pelo menos ter alguma chance para onde irão. Será um reforço necessário se, por acaso, conseguirem chegar à Índia. Eu mesmo me incumbirei de repassar pessoalmente as orientações para esta esquadra.

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O rei colocou a mão em seu queixo coçando a barba, pensou um pouco e finalizou dizendo:

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– Não Vasco! Mande treze embarcações e no décimo terceiro navio coloque um dos irmãos Ataíde. Será este o número que nos trará sorte.

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Com todo o projeto da viagem revisado várias vezes pelo rei D. Manoel I e pelo navegante Vasco da Gama, os dois fizeram as últimas anotações e garantiram que tudo daria certo. Todas as documentações que pudessem deixar rastros das reais intenções daquele plano foram ocultadas ou destruídas, até mesmo os registros de mantimentos básicos como biscoitos que foram alocados para a décima terceira embarcação foram cuidadosamente guardados. Após tudo definido ficou então planejado que a viagem aconteceria logo e que na data 9 de março de 1500 a expedição partiria de Portugal.

Capítulo 3: A Rota do Descobrimento

Todos comemoravam a viagem de retorno às Índias que seria realizada por Pedro Álvares Cabral, que tinha aproximadamente 32 anos na ocasião. Ele se sentia extremamente favorecido pelos votos de confiança que o seu rei lhe dera. A permissão de que comprasse trinta toneladas de pimenta, uma especiaria rara na Europa, para comercializar livre de impostos ao retornar foi uma grande vantagem financeira para o capitão, assim como diversas outras regalias lhe foram dadas por liderar esta expedição. Após a partida das naus e caravelas, estava iniciado o plano arquitetado pelo rei de Portugal e Vasco da Gama, eles buscavam o descobrimento de novas terras e a exploração de seus vastos mistérios. Tudo estava ocorrendo de forma impecável, eles passaram pelos pontos previstos sem problemas até que na madrugada do dia 23 de março de 1500 houve o primeiro ato planejado: o décimo terceiro navio, a nau do capitão Vasco de Ataíde com aproximadamente 150 homens simplesmente desapareceu. Isto aconteceu após o grupo de Cabral passar por Cabo Verde exatamente como descreveu Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta:

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“Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau sem haver tempo forte ou contrário para que assim pudesse ser”.

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A esquadra ainda procurou os faltosos por mais dois dias, porém não mais foram encontrados nem se quer voltaram a ser mencionados nos registros históricos daquele documento. Nenhuma outra ação foi realizada quanto ao afastamento desta embarcação. Como se algo desejasse acompanhar, ou até mesmo atrapalhar aquela expedição, algumas tempestades aconteceram dias depois do misterioso desaparecimento. Desse ponto em diante sabemos quase tudo devido aos famosos relatos contidos na carta de Caminha, porém outra série de acontecimentos foi vivenciada pelo décimo terceiro navio durante sua jornada com vistas a chegar solitariamente às terras além-mar. Esta embarcação era uma garantia do rei em possuir uma tripulação completa conhecedora do seu plano preparada para desbravar abertamente as novas terras a serem descobertas. Caso, conforme planejado, a esquadra de Cabral também lograsse êxito em sua missão sem que fosse atrapalhada pelo seu Capitão Mor, este se mostrando competente demais e corrigindo o curso para as Índias, voltaria uma embarcação e avisaria ao rei que encontraram terra firme.

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Tudo aconteceu exatamente como esquematizado. Cabral foi ludibriado por alguns membros da sua própria tripulação e pelos mapas cuidadosamente modificados que recebera ao sair de Lisboa. Os passos seguintes realizavam-se exatamente como previsto e aquela esquadra direcionava-se, agora com doze navios, para águas desconhecidas. No dia 22 de abril de 1500, eles então encontraram terra firme. Ao ver neste lugar um monte, Cabral o batizou de Monte Pascoal por estarem na semana de Páscoa. Quatro dias depois foi realizada a primeira missa nas novas terras por eles descobertas e neste mesmo dia a nau de Vasco de Ataíde também encontrou novas terras. O décimo terceiro navio chegou mais ao norte daquele imenso continente.

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Conforme o plano, no dia 2 de maio de 1500 retornou a Portugal uma embarcação para levar a notícia ao rei de que a esquadra de Cabral descobriu novas terras a oeste da África. Neste retorno trouxeram a carta de Caminha como uma de suas cargas de maior valor, porém outra informação tão valiosa para o rei quanto esta carta era a de que acharam o que procuravam. Nestas terras havia apenas habitantes inocentes e de coração puro. Eles andavam nus, se alimentavam da natureza e tinham como característica marcante a simplicidade da alma. Com esta notícia, imediatamente o rei D. Manuel I enviou à terra de Vera Cruz, como foi batizado inicialmente o Brasil, uma nova frota para explorá-la tendo como um dos seus principais tripulantes, o navegador Américo Vespúcio, outro que estava direcionado a fazer um trabalho com segundas intenções. Não sabia ele que a exploração e documentação que produziria a seguir, serviriam para algo além de simplesmente constatar fatos materiais. Já a esquadra de Cabral, depois de realizar o contato com os habitantes locais, assim como planejou o rei, continuou a sua viagem rumo às Índias pelos últimos dias de maio. O grupo desconhecedor dos planos estabelecidos seguiu sem desconfiar de nada sobre a companhia de um irmão Ataíde enquanto o outro estava teoricamente desaparecido. Desta forma o plano se mantinha com um dos olhos sobre a nova terra e o outro sobre o cego.

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Cabral sofreu muitas perdas durante a tentativa de retorno ao curso original da sua viagem. Ele passou por uma grande tempestade no oceano atlântico onde perdeu muitos de seus navios. Ao chegar às Índias, ele teve que travar várias batalhas até estabelecer seu dever formalizado que era o de concretizar as relações comerciais com aquele local. Com este papel concluído, estava Cabral pronto para regressar a Portugal. Mesmo com muitos navios perdidos, o carregamento dos restantes iria render o suficiente para pagar todos os prejuízos materiais da viagem. Tudo estava mais que plenamente mascarado e as últimas peças do plano foram então colocadas. Este era um esquema cuidadosamente elaborado pelo rei e que se assemelhava bastante a um quebra cabeças.

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Em Moçambique, o segundo olho, representado pelo navio de Pedro de Ataíde, uma vez que viu tudo que era necessário, se afastou da esquadra deliberadamente assim como fez o seu irmão anteriormente. Neste caso, o desejo era de seguir ao encontro de mensageiros em terra que levariam as noticias ao rei de Portugal dos sucessos de seu plano. Aquele desaparecimento talvez tenha sido a única peça que foi mal encaixada, pois a falta de Pedro foi muito estranha para Cabral que o esperou em Bezeguiche (atual Dakar) para tirar satisfações.

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Percebendo a desconfiança do capitão mor daquela esquadra, o navegante Nicolau Coelho, que era uma das pessoas conhecedoras de parte do plano do rei, jogou pela esperteza e conseguiu ganhar sobre Cabral. O capitão estava apenas focado em se entender com o Ataíde desgarrado e, com isso, não conseguiu se livrar das más intenções de seu outro companheiro de viagem. Nicolau pressionou para que ele permitisse que a sua embarcação, que era uma caravela, logo mais rápida que a nau capitânia, partisse na frente em direção a Portugal para avisar ao rei das conquistas e desventuras desta expedição. O capitão mor concordou com a sugestão e permitiu que fizesse conforme desejado. Em 23 de Junho de 1500, Nicolau chegou a Portugal e isto deu chance aos membros do plano de se organizarem contra Cabral que poderia colocar tudo a perder pela sua desconfiança. As embarcações restantes da sua esquadra somente chegaram ao seu país com um mês de atraso e de nada adiantou questionar o Pedro de Ataíde, pois o mesmo utilizou toda a sua boa conversa para ludibriar novamente o capitão mor quando eles se encontraram em seu retorno. Mesmo aceitando os argumentos dele, Cabral seguiu com diversas dúvidas em sua mente.

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Ao retornar a Portugal, as embarcações que traziam as conquistas da descoberta de novas terras e do estabelecimento do pacto comercial com as Índias conforme era esperado, foram ovacionadas pela corte real. Os olhares trocados entre o descobridor e o rei não foram nada amigáveis. D. Manuel I já havia realizado tudo que pretendia naquele seu plano mirabolante e não podia permitir que um nobre pouco conhecido tomasse tanta fama e viesse a colocar a perder tudo o que havia esquematizado. Devido à caravela que chegou antes de Cabral, o rei já teve tempo suficiente para planejar uma forma de se livrar daquele possível empecilho. Ele, usando as perdas que sofreram os portugueses nas lutas da viagem realizada, propôs uma nova expedição de retorno imediato e indicou novamente o Pedro Álvares Cabral como líder desta jornada que seria batizada de Frota de Vingança. Este nome estava diretamente relacionado com as batalhadas que foram travadas e resultaram na morte de diversos tripulantes das embarcações portuguesas.

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Durante os primeiros dias, os aliados do rei rodeavam Cabral para que ele aceitasse retornar à Índia propondo vingança, porém para o descobridor aquilo era uma insanidade. Ele entendia que tudo estava firmado mesmo com tanto derramamento de sangue e que bastava um retorno pacífico para garanti-lo. Para Cabral, a certeza de que a viagem hora realizada era parte de um plano desconhecido, do qual ele mesmo como Capitão Mor nada sabia e que figurou apenas como coadjuvante, ficou clara. Este pensamento se concretizou quando, após ter aceitado o retorno às Índias e estar por oito meses em preparação, o rei o convidou confirmando o boato de que haveria um comando independente em sua esquadra e este grupo menor seria liderado por Vicente Sodré, outro navegador português. Cabral via claramente que aquela poderia ser a sua última viagem e que o capitão indicado poderia ser o seu algoz. Devido a esta imposição ele se recusou de todas as maneiras em realizar esta expedição temendo pela sua vida. O rei então se deu por convencido de que estava no direito de retirar os votos de nobreza dele e utilizar esta insubordinação para descaracterizar Cabral de qualquer força e possibilidade de voltar-se contra sua autoridade. Para não levantar suspeitas, o rei nomeou o próprio Vasco da Gama como Capitão Mor desta nova esquadra e a viagem foi realizada sem maiores interferências para os planos do monarca. Ficou claro para os demais que qualquer menção a Cabral resultaria no banimento da corte devido à forma como o descobridor foi expulso.

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Realizados todos estes acontecimentos, tinham o rei e seus comparsas logrado êxito em seu plano. Com a partida imprevista de Vasco da Gama, D. Manuel I acabou ficando sem o seu principal cúmplice, aquele único além dele que tinha total conhecimento do que foi planejado por completo. Isto aparentemente o deixaria menos seguro em dar continuidade àquele devaneio de seres místicos e de suas riquezas. Mesmo com todo o plano tendo acontecido como previsto, agora havia a força de toda a atenção da corte portuguesa que estava voltada para as terras descobertas. Para piorar, havia o fato de que o navio do Vasco de Ataíde ainda não dera sinal de que retornaria com homens vivos daquela viagem solitária. O rei sabia que, mesmo havendo uma política de sigilo sobre os descobrimentos, seria algo quase impossível tentar manter às escondidas o seu real interesse sobre as novas terras. Em uma carta enviada aos Reis Católicos espanhóis, ele mencionou sobre aquele novo lugar descoberto e sobre sua percepção quanto aos habitantes que lá viviam. Para o rei de Portugal, havia ele encontrado aquilo que o próprio Deus assim desejou. Tantas atenções foram direcionadas para estas novas terras de tal forma que seu plano inicial em sobrepujar os mitos deste povo de alma inocente estava sem saída e pronto para ser desfeito.

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A discussão com Cabral já havia chamado demais a atenção da nobreza e o rei entendia que ser ainda mais cauteloso era a melhor escolha naquele momento. Com isso ele coagiu os demais conhecedores de parte do plano para que aceitassem a imposição de que tudo aquilo se tratava apenas de uma ação para forçar o descobrimento de uma nova terra. Com bastante firmeza, o rei os calou avisando para que não acontecesse com eles o mesmo que havia acontecido a Cabral. O plano não foi mais mencionado e, inclusive, o vislumbre do próprio rei e de Vasco da Gama pelas relações comerciais com as Índias e seu potencial financeiro, retiraram qualquer expectativa de executá-lo novamente. Algumas perguntas importantes acabaram se perdendo em conjunto com o abandono do que foi planejado, afinal o que será que aconteceu à nau do capitão Vasco de Ataíde? Esta reviravolta teria descartado qualquer possibilidade de sucesso em sua jornada? Haveria alguma chance daquela nau retornar com as notícias desejadas? Alguns esclarecimentos somente foram possíveis vários anos depois quando o Brasil assim já se chamava e possuía os seus próprios imperadores e imperatrizes, em outra época muito depois de ter sido navegada esta rota do descobrimento.

Capítulo 4: O Décimo Terceiro Navio

Logo que se separaram da esquadra de Cabral, os homens da embarcação de Vasco de Ataíde imediatamente puseram em prática o plano proposto pelo rei D. Manuel I. Ali todos foram escolhidos categoricamente e sabiam o desafio que teriam pela frente e o que enfrentariam se confirmadas as expectativas do monarca. A viagem solitária foi bastante cruel para a tripulação que enfrentou tempestades incessantes e ondas colossais. Todos eram cristãos, porém a presença de outras entidades se fazia bem clara entre eles. Sentiam que algo queria impedi-los de chegar ao destino pretendido, mas continuaram firmes com as forças que o belo pagamento em ouro lhes foi dada pelo rei em pessoa.

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Conforme já apresentamos nesta história, a embarcação chegou ao Brasil assim como Cabral, porém com um atraso de alguns dias. Exatamente no dia 26 de abril de 1500, no mesmo dia em que foi realizada a primeira missa no Brasil, foi quando o décimo terceiro navio avistou pela primeira vez a terra firme. Houve uma pequena diferença quanto a Cabral, pois o capitão mor aportou no continente e o décimo terceiro navio chegou apenas a um arquipélago no meio do oceano. Esta feliz coincidência de datas de alguma forma fazia uma grande diferença aos tripulantes que estavam preenchidos completamente de felicidade por alguma energia emanada pela reunião de seus compatriotas à distância. Eles chegaram às ilhas de Fernando de Noronha, como é conhecido o lugar hoje em dia. Lá, ainda mantendo as diferenças com Cabral, eles não encontraram habitantes que os recepcionassem, apenas os golfinhos rodearam a nau que tripulavam e os saudaram com pulos e estripulias na água. Como precaução, eles não aportaram imediatamente, passaram por algumas baías com praias exuberantes que ficavam na ilha maior. Somente pararam a embarcação em uma dessas áreas que entenderam ser mais estratégica por que tinha grandes paredes compostas por elevações rochosas da ilha vulcânica. Durante a passagem pela lateral daquele lugar, eles viram algumas outras formações mais icônicas e duas delas que acharam semelhantes aos seios de uma mulher, fato que chamou bastante atenção dos homens ali presentes.

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As características do local encontrado já deixavam claro aos tripulantes que não se tratava de um continente e sim de uma ilha, porém não era uma má ideia a simples possibilidade de estarem em terra firme e poder passar duas ou três noites naquele lugar. Então o capitão ordenou que todos se organizassem para ancorar a nau e desbravar aquela região desconhecida. Pequenos barcos que eles traziam como auxílios foram colocados na água para levar alguns homens para a ilha. O capitão, Vasco de Ataíde, entendia que estava mais seguro com a sua nau protegida pela encosta de pedras altas, mas não imaginava o que aconteceria com eles naqueles dias a seguir. Atraídos pelas formações rochosas e águas transparentes, muitos quiseram deixar as embarcações e ir até a praia da outra pequena baía.

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Como estavam em uma área de águas, naquele momento, calmas, muitos até mesmo se puseram a nadar felizes naquele lugar tão belo que eles encontraram e que tinha águas azuis e corais coloridos. Talvez o único que não se sentia totalmente confortável naquele lugar era o capitão, pois sua mente estava repleta das recomendações feitas pelo próprio rei. Ele sabia que aquela não era uma viagem de passeio e que, se não retornasse com nenhuma descoberta que fosse satisfatória, poderia ser melhor que não retornasse. Quando eles chegaram à ilha o final do dia já se aproximava e com isso não puderam aproveitar muito nem desbravar tanto o local. Por recomendação do capitão, a tripulação toda ficou na embarcação fazendo vigias alternadas. Deveriam estar prontos para qualquer situação de combate que pudesse acontecer naquele lugar desconhecido. Por sorte, a noite foi, até certo ponto, tranquila e a única constância era o som dos arbustos afetados pelo vento. A lua cheia já havia passado e com isso a visibilidade em terra não era tão boa naquela noite.

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Em um dos turnos de guardas duplas de repente um tripulante gritou desesperadamente para chamar a atenção de seu companheiro de vigia dizendo:

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– Olhe! Olhe! Veja! É uma mulher, tem uma mulher ali.

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Os dois correram sobre o convés da nau acordando alguns outros que ali dormiam e fazendo um rebuliço enorme. Poucos segundos depois estavam todos olhando para as paredes imponentes de pedras negras, mas nada viam. Muitos fizeram gozação com o guarda e outros quiseram jogá-lo na água para aprender a não incomodar a tripulação que estava em pleno sono. O barulho da bagunça ficou tão incômodo que até alguns animais que eram mantidos dentro da embarcação começaram a emitir algum tipo de som. Vasco de Ataíde foi logo ver o que acontecia e então foi informado do ocorrido. Imediatamente ele foi ao encontro do guarda que afirmava ter visto a tal mulher misteriosa e o capitão pediu a ele satisfações.

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– Então me diga! O que afinal de contas você viu para fazer toda esta bagunça?

– Capitão, eu te peço mil desculpas, mas não queria incomodá-lo. Eu realmente vi capitão, uma mulher, ele estava ali na parede de pedra. Ela estava olhando para a nau como se quisesse vir para cá – respondeu o guarda.

 .

Alguns riram e até um desferiu um tapa na cabeça do pobre desafortunado, porém o capitão manteve sua seriedade e continuou a questionar calando a todos.

 .

– Esperem! Silêncio! Como assim? Como ela era? Conte-me mais.

– Meu capitão, por favor, não me tenha como mentiroso. – Falou sem muita coragem devido aos sarcasmos de seus companheiros – Eu sei exatamente o que eu vi. Era uma mulher bonita e misteriosa. Não dava para ver muito o seu rosto daqui com essa lua, mas dava para ver o formato de seu corpo e seu cabelo ao vento. Sem dúvida era uma mulher bonita e alta. Acho que vi os seus cabelos loiros enquanto ela nos olhava com seus olhos claros, capitão.

 .

Um tripulante ao fundo gritou:

 .

– Ele é louco! Falando assim parece que estava sonhando com uma alemã loira e maravilhosa. – Todos riram, mas o capitão ainda se manteve sério.

– Silêncio! – Exclamou novamente – Não estamos aqui para isto, lembrem-se do que viemos fazer nessa viagem. Se o que este pobre diz é verdade, então poderá ser esta a nossa primeira provação. Viemos aqui em nome do rei Venturoso para encontrar tais criaturas e sobrepujá-las. Viemos desafia-las e sair vitoriosos, não para duvidar de sua existência.

 .

Devido a algum motivo não aparente, por mais encorajadoras que fossem as palavras do capitão, ninguém gritou em apoio, todos continuaram em silêncio, então ele finalizou a balbúrdia dizendo:

 .

– Quero que todos fiquem de prontidão, e a partir de agora serão quatro guardas por turno. Nesta noite nós não descansaremos e quero ser acordado caso qualquer coisa estranha aconteça. Não confio muito nessas pedras negras à nossa frente – todos olharam na direção de tais formações pedregosas e se arrepiaram.

 .

Aquela noite passou sem que nenhum outro desafortunado gritasse novamente por ter visto uma mulher ou qualquer outra coisa naquela noite escura naquele lugar desconhecido. Ainda assim algo brincava com suas mentes e a todo o momento um vulto era percebido e a dúvida de ter visto ou não esta tal criatura ficava perturbando os que montavam a guarda. Poucos dormiram bem, pois tinham medo de serem acordados novamente. Temiam que fosse agora por um motivo real de contato direto com um ser desconhecido. Devido à seriedade do capitão, isto estava tirando o sono de todos.

 .

Com o nascer do sol, eles foram aquecidos com o seu calor e foram novamente agraciados com os golfinhos que chegaram logo cedo. A água transparente e a beleza do lugar pela manhã eram convidativas a saírem da nau e aproveitarem um pouco mais de um novo dia que chegava depois de uma noite difícil. O espírito desbravador foi emanado por todos os tripulantes e logo no início da manhã quase todos os pequenos barcos disponíveis na nau já estavam colocados na água. Poucos homens tinham restado da viagem árdua até a ilha e praticamente todos estes desejavam sair da embarcação para conhecer o lugar novo. O capitão ordenou que dez homens ficassem a bordo, inclusive o guarda assombrado da noite anterior. Vasco de Ataíde seguiu com os demais tripulantes para conhecer as redondezas da região. Passaram pela primeira baía apenas observando a areia branca da praia que agora já apresentava um contraste melhor com a vegetação que encobria as paredes de pedras. Apenas observaram e continuaram remando em frente contra a correnteza. Ao chegar à segunda baía, eles viram novamente as pedras salientes de longe as quais comparavam aos seios de uma mulher. Nesse momento não havia capitão que segurasse a vontade deles de ancorar os barcos na praia e andar livres pelo local. Mantendo sempre a precaução, Vasco de Ataíde permitiu que eles assim fizessem, mas que estivessem sempre alerta. Todos deixaram os barcos no centro da baía e foram andando pela praia de areia alva. Ao chegar à ponta mais a frente daquele lugar, passando por algumas pedras depois da praia, desfrutaram destes dois monumentos naturais e ficaram maravilhados. Há certa distancia ainda mais a frente, viram outro monte bem mais alto e imediatamente um dos tripulantes falou:

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– Olha, é o dedo de Deus. Ele fez esse lugar com as próprias mãos. Esta ali a prova. Não tem nada de mau aqui não capitão. – Nesse momento qualquer lembrança da noite anterior foi desconsiderada entre eles devido às belas esculturas moldadas por milhares de anos pelo vento e pelas marés.

 .

O capitão ficou olhando para aquela outra escultura da natureza tentando se lembrar da sua terra natal e buscando nela uma paz anterior que tanto almejava. Virou-se de costa buscando ver o seu navio, mas ficou feliz por não poder vê-lo, afinal era exatamente o seu objetivo em escondê-lo.

 .

Enquanto andava de costas para o monte mais alto, Vasco de Ataíde sentiu um incomodo e uma vontade avassaladora de seu próprio corpo em virar-se e olhar novamente. Sem querer discordar muito de si mesmo, assim ele fez, virou-se e olhou mais uma vez focando o pico bem alto. Sem nenhuma explicação plausível, ele sentiu todo o seu corpo arrepiar-se. O capitão ficou como estátua por alguns segundos sem poder se mexer com o olhar fixado naquele lugar. Ainda mais intrigante era a sensação de que algo o observava da mesma forma de lá de cima e ainda mais intensamente. Sem querer perder a credibilidade dos seus homens por tantas demonstrações de desconfiança, ele sentiu segurança devido à distância do local observado. O capitão chegou a ponto de simplesmente convencer a si mesmo que poderia ser exagero em tanto receio desse tal misterioso mundo de mitos e lendas. Ele voltou de onde estava e se divertiu com os demais tripulantes. Eles comemoraram e aquele dia foi bom e tranquilo, de tal forma que o capitão permitiu que fizessem um almoço farto e até compartilhassem do vinho proveniente da sua embarcação. Isto fez a tripulação relaxar ainda mais e eles puderam tirar uma tarde de sono calma e sossegada ali mesmo na praia. Nenhum deles imaginava que aquele seria o seu último momento de descanso naquele lugar tão exuberante.

Capítulo 5: As Duas Faces da Bela

Ao passo em que o entardecer começava a se apresentar, o capitão recuperou a sobriedade da sua missão e resolveu voltar ao navio para refazer os cálculos e estratégias que o cabiam. Deixou ordens claras de que todos se reapresentassem antes que o sol tivesse deitado completamente. Ele então os deixou festejando na praia e voltou para o seu navio. Ao chegar, encontrou o guarda da noite anterior que o esperava ansiosamente e devido a isto o capitão então imediatamente o questionou:

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– Diga logo, não fique com essa cara, afinal de contas quer me dizer novamente alguma outra coisa que você viu?

– Gostaria que o senhor visse o desenho que fiz do que vi ontem, meu capitão – respondeu o guarda.

 .

Pegando o papel desenhado com alguns traços tremidos, o capitão pôde entender melhor e ver de fato o que foi descrito na noite anterior. Era uma mulher alta, de cabelos longos e que, ao lado de um pequeno arbusto e algumas pedras grandes, olhava de forma intensa para a nau como se a desejasse mais que tudo. Algo que também ficou claro no desenho era o fato de que ela estava adornada com um vestido negro fino quase transparente e que desenhava suas curvas. Ao perceber isto o capitão olhou para o guarda e disse:

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– Quanta imaginação você tem não é? Ficarei com esta aqui para me lembrar futuramente. Ficará de recordação. – Ao pegar aquele papel ele sentiu um peso estranho, mas não deu muita atenção naquele momento e continuou falando – Me Lembro de um ditado que fala que uma imagem pode armazenar uma alma ou até mesmo um espírito. Tem algo de estranho no que você viu ontem e algo foi fixado nesse desenho que você fez. Penso se a gente não poderia prender essa criatura aqui nesse material e usar quando necessário. Ou nem que fosse apenas uma parte da sua energia como diz este ditado. Acho que iremos precisar de algo assim quando a hora chegar – o capitão se dirigiu para a sua cabine sem falar mais nenhuma palavra, pois imaginava quão difícil seria se os mitos fossem reais e ele tivesse que enfrentá-los.

 .

O inicio da noite começava a se apresentar e os homens ainda não retornaram como ordenara o capitão. Ele não percebera o avanço rápido da noite, pois estava bastante intrigado com a imagem desenhada pelo guardo e envolvido demais em sua análise das trajetórias possíveis para continuar a sua missão. Enquanto isto, buscando acalmar sua mente, ele usou também os seus dotes de desenhista e, pensando bastante sobre a relação da imagem com o espírito do ser visto na noite anterior, buscou proteção rabiscando um desenho da Santa Verônica. Esta que, segundo registros históricos, foi quem entregou um lenço a Jesus enquanto estava ensanguentado carregando a cruz e que ele enxugou seus rosto com este tecido. Desta forma registrou uma das imagens de maior poder da história que foi a imagem do rosto filho de Deus. Não há como negar o poder de um item como estes e correlacionar com as observações do capitão ao julgar possível armazenar a energia de um determinado ser por meio da representação de sua imagem em um determinado meio.

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Algumas nuvens negras, rápidas e silenciosas, fizeram com que a escuridão fosse alcançando todos como em um adormecer. O mar se agitou de repente e fez a taça de vinho que o capitão bebia ser derramada sobre os seus desenhos. Isto formou uma espécie temerosa de mancha de sangue sobre a parte da imagem que o guarda havia lhe entregue e exatamente onde estava a sua embarcação. Ele tomou um grande susto com a deformação criada ali bem a frente dos seus olhos e ficou ainda mais surpreso, pois nem se quer uma gota caiu sobre as imagens rabiscadas. Com isso praticamente havia se comprovado a sua tese de que a imagem poderia armazenar um poder desconhecido conforme pensou. Esta observação foi o acontecimento mais importante daquela viagem. As imagens estavam sobre um pequeno pano de mesa no qual havia o desenho da cruz de malta. Buscando guardar aquele fato histórico, Vasco de Ataíde cortou e dobrou o pano em diversas partes, formando um pequeno octógono quase do tamanho de uma folha de papel. O capitão então usou sua melhor pena para escrever uma descrição ao fundo daquele pano em que dizia:

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“Sobre estas forças que não podemos entender, sentimos toda a energia que emana e a capacidade de transformar a crença em verdade. Vejo a contraposição entre o bem e o mal aqui contestado entre uma santa e uma criatura desconhecida. Pergunto-me, mas duvido cada vez menos sobre a possibilidade de que os mitos sejam reais e que possam se apresentar vivos em nossa presença. Não saberia informar qual energia norteia o fato de que o vinho não tocou ambas as imagens. Poderia haver alguma existência de poderes entre estes mitos? Poderíamos estar expostos à possibilidade de invocá-los ao nosso favor ou contra os nossos inimigos? Ainda não tenho estas respostas, mas se houver vida em meu ser quando ler novamente estas frases eu irei desvendar esta audaciosa Batalha de Mitos.”

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Ele então saiu imediatamente para verificar se todos já voltaram devido à tempestade iminente. Ao sair ele percebeu que apenas estavam ali os homens que ele orientou que ficassem na nau quando saiu logo cedo, assim como os demais que retornaram com ele da baía visitada.

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O capitão deu ordens para que grande parte dos presentes pegasse um dos barcos disponíveis. Eles deveriam retornar à praia e trazer os homens que desobedeceram a suas orientações de retorno. Com isso ficaram apenas cinco pessoas na embarcação contando com o capitão e o guarda. A noite estava chegando rápido como eles nunca antes viram. Os enviados desceram o pequeno barco na água e entraram a bordo. Quando o último homem entrou na embarcação, todos viram uma luz branca forte bem longe. O capitão estava certo de que vinha do mesmo lugar que observara mais cedo. Era como se houvesse algum tipo de explosão silenciosa capaz até mesmo de abrir ao meio uma grande rocha. Então ele deu pressa aos seus homens e pediu que remassem o mais rápido que pudessem. Eles partiram a toda velocidade em busca de encontrar os demais companheiros sem nem imaginar o porquê deles não terem retornado logo. O mar deixou bem claro que não pretendia ajudar naquele momento, pois a correnteza estava bastante forte. O capitão estava certo de que viria uma tempestade muito intensa naquele final de tarde e decidiu tomar uma decisão que encheu os tripulantes restantes de temor. Ele disse a todos:

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– Quero que vocês me ajudem a guardar todos os registros da nossa viagem em garrafas. Haja o que houver nesta noite, não poderemos deixar que nossas memórias sejam perdidas assim como nós mesmos estamos nesse momento. Descobri algumas coisas importantes nesta tarde. Vamos! Ajudem-me a armazenar tudo que pudermos.

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Com esta atitude não muito clara, todos se questionaram, mas seguiram as ordens do capitão. Colocaram vários documentos da viagem em garrafas de vinho e usaram o último barco auxiliar disponível para remar até o paredão de pedras negras. Eles desejavam colocá-las entre as frestas para que ficassem lá até que alguém as tentasse remover futuramente. Buscavam esta atitude para que o tempo não conseguisse movê-las e para que, caso os homens perecessem naquele lugar, os registros pudessem ser lidos por outros visitantes. Vasco de Ataíde escolheu algumas páginas especiais do seu diário de bordo e colocou junto com a cruz de malta dobrada dentro de uma grande garrafa de vinho na qual couberam diversos documentos relacionados com aquela viagem. Ele buscou estar a todo tempo cuidando especialmente deste recipiente, pois ali estava um resumo de toda a sua viagem.

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Ao mesmo tempo, um pouco mais distante de onde estava o capitão, o grupo de resgate enviado estava se aproximando da segunda baía logo após o local de onde partiram. Seria este o lugar em que deveriam estar todos os tripulantes desaparecidos. Conseguiram enxergar de longe que algumas fogueiras foram iniciadas às pressas, mas não havia nenhum sinal daqueles marujos que deveriam estar ali. O grupo de resgate foi até a praia e ancorou o seu barco, mas nenhum sinal de conversa, ou qualquer coisa relacionada com todos os homens perdidos, era visto naquele lugar. Estava claro que aquele foi um dia de festas e farras pela quantidade de material espalhado na praia, assim como a forma despreocupada como os outros barcos estavam ancorados. Onde afinal estavam todos? Algo inexplicável e desconhecido aconteceu ali, isto era certo. O grupo de resgate pegou alguns archotes para iluminar o caminho e acompanhou pegadas na areia. Chegaram até uma região rochosa que dava para as grandes pedras similares aos seios de uma mulher na ponta da baía. Enquanto caminhavam sobre estas pedras, eles começaram a ouvir bem de leve um som suave de voz feminina que cantava uma melodia nunca antes escutava por eles. Um doce perfume pairava no ar e de alguma forma eles não conseguiam sentir mais medo daquela situação tão singular, mas sim um intenso desejo de encontrar a fonte daqueles sinais tão atraentes. Eles continuaram avançando entre as pedras e encontraram vários utensílios de ouro no caminho. Um dos homens do grupo de resgate que esteve ali no inicio do dia disse:

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– Olhem, é ouro! Isto não estava aqui quando passei mais cedo. Nenhum barco trouxe ouro para a praia. Então será que é verdade? Esse canto, esse perfume, deve ser a tal mulher que o guarda da noite anterior disse que viu e se o nosso capitão e nosso rei estão certos, está provado agora. Os mitos existem e são cheios de riquezas. Vamos encontrar esta Alamoa e prender ela – mesmo vendo o erro ao falar a palavra alemã para representar as características da mulher procurada, os demais não se deram ao interesse de corrigi-lo, afinal durante toda aquela manhã este mesmo tripulante havia errado por várias vezes o nome da criatura com o qual acabariam batizando ela.

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Avançaram rápido até que o canto parou de modo repentino. Estavam em frente a uma pedra espaçada e viram claramente os cabelos longos e loiros jogados sobre a mulher. Eles cobriam parte do corpo de uma bela jovem deitada sobre o local. Eles ficaram encantados e a criatura misteriosa novamente voltou a cantar a exalar seu perfume atraente. Todos foram enfeitiçados, deixaram os archotes encostados nas pedras e andaram na direção da bela dama como caças para uma armadilha. Um deles, como que em um momento inconsciente de tentativa de retorno à nau lembrando-se da sua missão naquele lugar, parou e olhou para a sua esquerda na direção em que a embarcação deveria estar. Nesse momento teve o seu olhar seguido por todos inclusive pela Alamoa. Sabendo que suas presas poderiam tentar escapar ela então se revelou. Já de pé, bem próxima aos homens, ela se mostrou em sua verdadeira aparência. Transformou-se em uma caveira horrenda derretendo praticamente toda a sua carne bem na frente dos marujos desavisados. Eles gritaram e caíram ajoelhados de medo nas próprias pernas. Ela os estraçalhou ali mesmo praticamente todos de uma só vez e o silencio novamente deu lugar apenas ao som dos ventos fortes da tempestade que estava chegando.

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Para os que ficaram próximos à embarcação, não havia dado tempo de deixar todas as garrafas presas no paredão como planejavam. Quando faltavam as últimas, eles ouviram o som de passos ligeiros sobre a costa de pedras imponentes. Tinham certeza que não se tratava de nenhum dos seus companheiros pela ferocidade que tais passos aplicavam sobre a vegetação rasteira e sobre as rochas. Todos ficaram quietos, sem fazer nenhum som, esperando que a qualquer momento a fera fosse revelada para eles. Vasco de Ataíde orientara a todos que estivessem preparados para o pior e naquele momento eles estavam felizes de terem afinal seguido tais orientações de seu capitão, pois estavam todos empunhando espadas longas. Eles estavam nervosos e foi então que de repente no mesmo lugar onde havia descrito o guarda na noite anterior, apareceu novamente a criatura. Não era mais a loira bela do desenho, mas sim uma espécie de monstro com o corpo desfigurado que procurava impetuosamente por fazer outras vítimas. O capitão e seus últimos tripulantes ficaram observando a Alamoa que ainda não tinha os encontrado. Ela ficou ali parada olhando para e embarcação como se estivesse esperando alguma oportunidade. A noite ficou cada vez mais mais escura e a chuva cada vez mais forte. Não era uma tempestade comum. Eles viam uma grande coluna de nuvens altas que se aproximava deles de forma similar a um muro colossal construído por mãos humanas.

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O pequeno barco amarrado nas pedras foi arrastado para longe pelas ondas e o grupo temia que sem ninguém para navegar a embarcação maior que ela viesse a afundar em pouco tempo. Também já estava muito perigoso naquele local tanto pela criatura espreitando como pelas ondas que os molhavam a todo e tempo e ameaçava levá-los para o mar. Sabendo que não sairia com vida daquele lugar, Vasco de Ataíde resolveu tomar uma decisão que colocaria a vida de todos em risco, mas daria uma chance ao plano do rei de Portugal. Com este ato poderiam os outros um dia vir a ter a certeza de que tal busca havia logrado êxito e eles haviam achado os tais mitos reais e suas possíveis riquezas. Ele retirou das pedras uma grande garrafa, exatamente a que continha entre diversos documentos, um escrito seu em que descrevia a noite anterior e aquela tarde. Havia também, junto com o desenho que o guarda lhe entregou, a cruz de malta dobrada contendo a prova da viabilidade de capturar o espectro de um mito em um determinado material. Então ele juntou suas últimas forças e arremessou aquela garrafa em direção ao mar revoltado. Neste momento o destino foi traçado, pois a Alamoa os encontrou e desceu pelas pedras para pegá-los.

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Alguns se entregaram ao terror e se jogaram ao mar que os levou a vida na mesma hora, já Vasco de Ataíde e o guarda resistiram e se colocaram em desafio do monstro. Ela, ao chegar mais perto, se aproximou bem devagar olhando diretamente para os olhos do capitão enquanto o guarda fechou os olhos e virou o rosto com medo de encarar aquela figura horrenda. Para a Alamoa foi um desafio prazeroso este proposto pelo capitão em confronta-la tão firmemente. Ela se deliciou com todas as injeções de adrenalina que o corpo dele aplicava em si mesmo. Ao chegar a uns três metros de distância, ela então parou. A Alamoa aguardava a hora certa para o golpe final e quando uma onda mais forte bateu sobre as pedras desconcentrando o capitão, ela o atacou com toda a ferocidade que tinha em sua capacidade destrutiva. Ela estava ainda mais motivada pelo desafio que a deliciava de forma sem igual. Ao guarda restou ouvir o único grito do capitão e depois mais nada, pois sua vida também foi ceifada da mesma forma.

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Todos os vestígios encontrados por ela foram destruídos, todas as garrafas quebradas, e muitas das evidências foram então apagadas. Quanto à grande nau ancorada, o mar como se estivesse atuando como aliado da criatura trouxe uma das maiores tempestades já vistas naquela região e levou embora a grande embarcação afundando ela para jamais ser vista novamente. A única coisa que restou daquela viagem desastrosa foi uma grande garrafa de vinho com os documentos mais importantes jogados ao mar pelo capitão. Este singular objeto se afastou rapidamente com as ondas e com a forte correnteza para se dirigir ao alto mar. Desta forma estará perdido até que alguém venha a encontra-lo para então descobrir a história do décimo terceiro navio e saber como teve início esta Batalha de Mitos.

Capítulo 6: Um Convite ao Acaso

Muitos anos se passaram desde as aventuras do décimo terceiro navio e todos os registros históricos apresentados nesse período simplesmente desprezaram a sua existência. Chegamos então àqueles lugares em que as lendas são tão reais como as pessoas que as contam. Aqui será apresentada a história de um morador de um vilarejo afastado em pleno recôncavo baiano. Um lugar como aqueles descritos em contos antigos que nossos avós nos presenteiam em noites chuvosas. Nestas histórias os raios e os trovões serão parte integrante da narração misturando sempre o real e o fictício.

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Em uma manhã nublada em que o sol se escondia tênue por trás das nuvens, mais de trezentos anos depois do incidente com a embarcação do capitão Vasco de Ataíde, todos naquele vilarejo acordaram com um clima bastante diferente. Havia uma fazenda isolada em uma localidade distante, pouco frequentada, que emitiu diversos convites a todos os moradores das redondezas daquela região. Estava escrito para que comparecessem àquele lugar, pois lá haveria um evento que ainda estava pouco esclarecido. Sendo bastante comum nesses lugares pequenos, todos se conhecem e o convite se espalhou rapidamente mobilizando-os a estarem no local determinado. Pedro Nolasco da Encarnação, um jovem pescador, era um dos mais animados moradores do vilarejo e desejava muito comparecer ao local do convite. Mesmo sem conhecer aquela fazenda que vivia isolada, todos acreditavam que era um local cheio de farturas e que lá trabalhavam lindas mulheres mulatas vindas da África.

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Pedro estava acompanhado de seus avós que também se apresentaram bem curiosos para saber do que se tratava. Todos se deslocaram como puderam, alguns foram de charretes e outros até mesmo foram andando pelas trilhas distantes por meio da mata atlântica bem densa. Foi uma jornada bastante difícil, pois em muitos momentos não havia uma trilha definida para se dirigir ao local desejado. Uns foram ajudando os outros nos caminhos quase virgens para que todos seguissem viagem com segurança. Ao chegar à distante fazenda, eles entraram pelos portões principais de ferro que ainda não aparentavam nada da magnitude do lugar. Eram objetos baixos e frágeis, talvez apenas um metro de altura e uns cinco metros de largura ao todo. Na entrada havia uma guarita construída em alvenaria antiga ainda da época colonial do Brasil. Ela ficava logo a direita do portão, mas não tinha nem portas nem janelas, gerando um entendimento de que ninguém fazia guarda ali há um bom tempo.

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Os animais da fazenda, em sua maioria bodes e cabras, andavam pelo meio das pessoas que chegavam cada vez mais. Algumas trabalhadoras escravas começavam a se apresentar e recepcionar os visitantes convidados. Eram mulheres bonitas com roupas surradas devido ao tempo de trabalho árduo e que escondiam em suas marcas nos pulsos e tornozelos, as fadigas da escravidão. Aquela beleza, mesmo que fosse algo incomum de se apresentar de forma tão intensa por aquelas redondezas e principalmente entre os escravos maltratados, não fez parecer que havia algo errado. Todos pensavam exatamente o contrário, pois aquela visão das belas mulheres encantava a todos que se sentiam cada vez mais felizes por estar ali. Pedro e seus avós se dirigiram pelo caminho batido de terra que ficava entre a entrada e a grande escadaria das construções da casa da fazenda. Eles então chegaram ao lugar onde todos estavam sendo acolhidos. Os três foram conduzidos por uma simpática jovem de pele da cor de chocolate, cabelos negros adornados por longos lenços e um sorriso constante no rosto. Havia um tratamento especial para cada um dos grupos que chegava à fazenda. Não foram observados capatazes ou senhores de engenho até aquele momento por Pedro, por seus avós ou por qualquer outra pessoa que viesse a prestar atenção neste detalhe incomum.

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Algo muito comum que foi identificado naquele lugar onde todos estavam reunidos foi o fato de que vieram do vilarejo muitos homens trabalhadores dos campos e dos mares que possuíam qualidades chamativas como a força, a beleza e a virilidade. Despretensiosamente, Pedro observou tal perfil dentre os convidados masculinos, mas não fez nenhum julgamento sobre esta situação. Assim como os outros, ele pegou um pequeno banco e se sentou com seus companheiros de viagem. Para ele era algo estranho observar que tudo se assimilava muito a alguma espécie de preparo para uma competição. Instintivamente todos se agruparam talvez esperando a hora para iniciar alguma atividade. Eles aguardavam ansiosos por informações na área aberta em frente à entrada da casa da fazenda, pois haviam algumas mesas cobertas e os fazia logo pensar em banquetes.

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Sem entender muito qual seria o motivo de tantas pessoas convidadas naquele local e também o motivo pelo qual todos estavam se reunindo daquela forma, Pedro aguardava ansiosamente que alguém lhe desse alguma orientação do que estava para acontecer naquele lugar. Depois de um tempo, quando praticamente todos os convidados estavam reunidos na fazenda, houve um momento único dentre toda aquela agonia de conversas. As pessoas se sentiam felizes e mantinham diversos outros sentimentos bons por estarem em um lugar tão intrigante e chamativo. Eles tinham em seus corações a esperança de uma manhã excepcional naquele dia. De fato algo singular aconteceria, não apenas naquela manhã, mas em todo aquele dia. Então o silêncio se fez entre os presentes de forma inesperada e apenas o som do vento foi percebido. Até os animais desapareceram e nenhum de seus barulhos era mais escutado.

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Nem aves, nem cavalos, nem cachorros eram vistos naquele momento, apenas os olhares de questionamento pairavam no ar para tentar entender o que aconteceu de forma tão repentina para que todos ficassem dessa forma em silêncio. Foi então exatamente nesse momento que apareceram duas mulheres na entrada principal da casa da fazenda que tinha paredes azuis. Da mesma forma que os portões da entrada, as portas daquela residência também não eram muito chamativas, eram apenas passagens de um ambiente que parecia abandonado. Não havia portas nem janelas que estivessem de fato intactas sem uma ação perceptível do tempo. Uma das mulheres era exatamente aquela a mesma que recepcionou Pedro em sua chegada e a outra era uma jovem senhora bastante bonita, tendo apenas o tempo e a idade a deixado algumas marcas no rosto e no corpo. A beleza das duas era algo facilmente percebido, cada uma ao seu modo. Os homens, que se apresentavam em maioria naquela reunião, ficaram todos atenciosos ao que elas tinham a dizer e então a mulher mais velha começou a falar:

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– Bem vindos! É bom dizer bem vindo a vocês. Hoje é um bom dia e ter vocês aqui é bom. Está todo mundo perguntando por que chamamos vocês. A gente é vizinha que mantém os portões fechados e que não aparece muito. Algumas coisas mudaram e a partir desse dia a gente espera mais visitas. Todos devem estar muito curiosos para saber tudo de hoje, então vou falar tudo. Chamamos vocês pra se divertirem, pra que tenham uma boa manhã e um dia único. Todos foram convidados, mas agora venham apenas os homens mais corajosos. Faremos algumas atividades que irão precisar de atitude e coragem. Venham e entrem em nossa casa.

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Naquele momento os homens mais viris do vilarejo levantaram e imediatamente se colocaram para o convite que se apresentava. Estes agiram diferentemente de todos os demais que escutaram este pronunciamento e foram totalmente encobertos de questionamentos. Pedro não quis ficar pra traz nesse critério do quão viril seria e se colocou logo à disposição para também participar assim como os outros. Ele era um rapaz ainda muito novo e não tinha muitas dessas qualificações viris como os demais. Ele era pequeno, magro e fraco. As duas anfitriãs acompanharam o grupo de homens pelas escadas para dentro da casa da fazenda. Eram aproximadamente vinte participantes contando com Pedro. Aos que ficaram aguardando fora da casa da fazenda foram dadas formas de distração como música e boas comidas. Tudo então se tornou festa lá fora enquanto lá dentro, cada vez mais que passavam pelas salas daquela morada, tudo se tornava mais quieto e silencioso. Então as mulheres pararam o grupo em uma sala vazia e apresentaram o esperado desafio. Dessa vez a mulher mais jovem foi quem falou:

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– Vocês estão aqui para marcar as nossas vidas e a de vocês. Vieram aqui para se divertirem e nos dar o que tem de melhor. Queremos sua força, seu calor, seus braços. Precisamos de vocês, queremos que sejam nossos.

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Nesse momento, várias outras belas jovens escravas mulatas e com roupas mais leves entraram na sala e se direcionaram aos homens que ali estavam. Eram em quantidade muito maior que eles e encheram a sala com sensualidade. Pedro meio que foi ignorado, acredita-se talvez que não era considerável como um bom representante de força e virilidade. Percebia-se que a intenção das mulheres talvez fosse prepará-los para algo que estava por vir. Quando todos já estavam extremamente confortáveis e envolvidos com todos aqueles beijos e carícias, a mulher mais velha interrompeu sendo seguida novamente pelo silêncio de todos.

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– Está bom? Estão gostando? – Percebia os olhares languidos dos convidados – Que bom, mas somente um vai poder continuar em frente. Pois é, somente um. É só um que pode ter uma para si. Apenas um. Apenas o que aceitar vai poder ficar.

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Todos se questionavam o porquê daquele impedimento repentino, visto que muitos deles já estavam quase completamente despidos e totalmente envolvidos com suas parceiras momentâneas. Qual seria então o motivo de tal bloqueio? O que significaria o fato de que apenas o que aceitar pode ficar? Nesse momento, todas as mulheres saíram da sala. O lugar tinha várias portas grandes e espaçadas deixando os homens confusos sobre o que estava acontecendo. Nenhum deles conseguia imaginar o que viria a acontecer em seguida. Foram então sugestionados pela senhora anfitriã que, aquele mais corajoso que entrassem pela única passagem da qual não havia saído nenhuma mulher. Era a única entrada que não possuía porta, pois era uma passagem bastante pequena por onde dava para passar apenas uma pessoa por vez.

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Antes que alguém se candidatasse a passar por aquela passagem estreita, alguns sons ainda mais estranhos foram ouvidos de lá de dentro. Eles conseguiam distinguir como sendo gemidos de sofrimento. O medo do desconhecido tomou conta de todos e até mesmo os mais corajosos se sentiram ainda mais despidos da sua vitalidade e do sangue em suas veias. A mulher mais nova esclareceu que não precisavam temer, pois naquele quarto havia apenas outra mulher. Era a mais misteriosa, a matriarca daquela sociedade que habitava a fazenda há muitos anos e era quem os esperava lá dentro. Alguns detalhes sobre esta pretendente desconhecida não foram posto de forma clara pelas duas mulheres e tais informações ditas nas entrelinhas não agradou muito aos que ali estavam. Eles estiveram a pouco com várias mulheres jovens e agora tinham que simplesmente dispor-se com uma misteriosa e que promovia temor pelos sons estranhos que emitia. Aquilo era algo que não entendiam e que não estavam dispostos a enfrentar.

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Muitos começaram a se vestir novamente e a voltar pelos corredores resmungando sobre o ocorrido. Ao final daquela retirada, apenas Pedro continuou na sala, pois se sentia de alguma forma encantado pela jovem que o havia recepcionado. Em uma ação inesperada de pura tentativa de esperteza, ele resolveu mostrar uma coragem que não se embasava em nada a não ser, talvez, na tentativa não muito clara de impressionar aquela que tanto tinha lhe chamado atenção. Pensando que nada ruim haveria em fazer aquilo que era proposto, ele levantou o braço e disse que entraria no quarto pouco iluminado. Como se fosse um troféu antecipado, Pedro recebeu um breve sorriso de sua pretendente quando mostrou que seria o único ali a aceitar o desafio. Muitas vezes somos impulsionados a tomar decisões impensadas pelo impulso dos nossos sentimentos. Pedro provaria o sabor de uma má escolha devido àquela atitude movida por uma prova desnecessária de coragem.

Capítulo 7: O Revoar das Asas Negras

Depois de algumas trocas de olhares entre Pedro e a jovem mulata, ambos, juntos com a senhora que ali estava, entraram no quarto um de cada vez. Durante a passagem pela porta estreita já não havia mais nenhum barulho estranho e apenas dois castiçais sustentavam grandes velas que iluminavam o lugar. Além desses dois objetos havia uma cama bastante grande com pilastras e cobertura adornada por panos brancos tricotados. Nela estava uma mulher deitada e coberta por lençóis claros com detalhes dourados e prateados. Pedro parou de repente ao perceber que aquele lugar era muito estranho sem comparação com qualquer experiência anterior em sua vida. Enquanto olhava fixamente para aquela grande cama, ele foi conduzido sendo puxado pelos braços pelas duas mulheres que o acompanhavam. Ao estar de frente para a criatura embaixo dos lençóis brancos, ele questionou se realmente era necessário estar ali. Agora que podia ver de perto, a mulher aparentava ser muito velha e também estar doente. Ele não entendia exatamente o que devia fazer e houve uma série de questionamento por parte dele. Muitas respostas convincentes foram  apresentadas pelas mulheres que tinham o objetivo de forçá-lo a continuar e aproximar-se daquele leito.

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Pedro se sentia inclinado a negar a aproximação de todas as formas, pois na primeira tentativa de apenas espiar sentiu um fedor horrendo que emanava da senhora velha que ali estava deitada. Era possível ver também que fluidos escorriam de seu corpo por todas as partes encobertas pelos lençóis lavados que se amarelavam cada vez mais. Era impossível que um homem aceitasse qualquer desafio de estar no mínimo próximo de uma mulher naquela situação. Ele foi então impelido a questionar-se quando a bela jovem que tanto desejava o propôs a seguir no desafio de aproximar-se da velha e apenas tocar-lhe a mão. Pedro achou que esta tal atitude não o diminuiria como homem ou ser vivente. Ao inclinar-se novamente para a tentativa difícil, a velha começou a se transformar conforme suas imaginações e desejos escondidos na mente dele.

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Já não era mais sentido o fedor de outrora e a aproximação de Pedro dava uma espécie de poder àquela criatura. Ele parou novamente ao analisar o que estava para fazer e observou que ainda em algumas partes o corpo da mulher apresentavam sinais visíveis de doença. Decidiu que não deveria fazer aquilo de forma alguma, pois poderia ficar doente e não aproveitar o seu futuro da forma como gostaria. Sentido a reação dele, a velha então começou a esboçar reações negativas para aquela atitude. Foi então que a criatura mostrou que não era um ser normal desse mundo e que tinha a capacidade de possuir diversas formas. A velha apresentava várias transformações tentando atrair ainda mais a atenção do jovem se passando por mulheres belas, apresentando materiais como ouro, dinheiro, valores e tudo mais na tentativa de convencê-lo a estender sua mão para dar-lhe sua energia.

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Surpreso em ver aquilo, Pedro se assustou e a todo o tempo negou a proposta apresentada. Lembrou-se dos contos de seus avós que falavam de um ser chamado Matinta Pereira, uma velha senhora que ludibriava as pessoas com suas propostas. Ele entendeu que poderia estar em risco naquele lugar sem janelas e apenas com a passagem pela qual entrara. Pedro decidiu ir embora abandonando todas as possibilidades apresentadas ali. Nesse momento a velha se desfez de sua forma humana em uma nuvem de fumaça esgueirando-se na cama em direção á cabeceira. Havia uma escultura talhada na madeira de uma coruja conhecida como “rasga mortalha”. Pedro gritou para as outras mulheres que estavam com ele dizendo que a velha havia entendido suas intenções de ir embora e temia que ela não o deixasse partir. Em fuga ele saiu correndo pelos corredores escuros em direção à saída daquele lugar e, ao chegar lá fora, viu que todos os moradores ainda se divertiam e estavam como se nada tivesse acontecido. Lá estavam também os homens que voltaram momentos antes e estes aparentavam não se lembrar de nada.

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Já era o entardecer e Pedro pôde observar o início do sol se pondo. Ele não imaginara ter passado tanto tempo naquele lugar sombrio. Logo após a sua saída, as duas mulheres vieram atrás dele e se apresentaram à escadaria daquela residência. A mais jovem, por quem ele havia se interessado, chorava olhando em sua direção e era segurada pela mais velha por um dos braços. Ela olhou para Pedro gritando por desculpas pelo que tinha colocado em sua vida. Nesse momento, um grande estrondo se ouviu e parte da casa foi destruída no revoar de uma grande coruja que exaltava penas negras e gritava em um som agourento similar ao rasgar de panos. Pedro imediatamente soube que era a monstruosa mulher que o havia incitado tantas vezes. Os outros homens presentes começaram a tentar proteger as suas famílias e algo os falava que haviam cometido um grande erro ao se expor àquelas tentações naquele dia. Todos buscavam se abrigar dos destroços lançados na direção deles e o som produzido pelo animal voador os preenchia de medo até atingir suas almas.

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Imaginando que havia sido ele, Pedro, quem despertara o monstro, se sentiu no dever de proteger as pessoas que ali estavam em perigo. Lembrava-se do seu egoísmo de tentar ganhar algo ao entrar naquele lugar amaldiçoado. Ele procurou foices e outros itens que servissem como escudo para tentar se defender do animal voador. Saiu correndo para a área aberta da fazenda enquanto o sol, vermelho como sangue, ia cada vez mais desaparecendo no horizonte. A ave fazia algumas investidas contra ele gritando para tentar intimidá-lo, mas Pedro em uma atitude heróica nunca antes vivida por ele conseguia esquivar-se e continuava vivo. Não era um animal comum, suas asas tinham formatos mais alongados e seu corpo negro se confundia com a noite que chegara rápido como seu voo. Todos olhavam e torciam para que ele conseguisse mata-la, mas com o total por do sol, Pedro sabia que não conseguiria derrotar o seu oponente ali durante a noite. Ele voltou correndo ao encontro dos outros que lá estavam para tentar levá-los a um lugar mais seguro. Todos aproveitaram o incêndio da casa da fazenda por causa da destruição daquele revoar e isto fez a fera se afastar para a mata fechada temendo as chamas.

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Naquele momento não havia mais diferenças entre os moradores das redondezas convidados ao local e as trabalhadoras escravas, pois todos estavam juntos tentando proteger-se da criatura que os intimidava. Foram então conduzidos a uma área da fazenda que era mais distante e isolada. Esta região ficava depois de um pequeno monte e isto a escondia bem dos olhos da coruja. Lá havia ruínas de um palacete e todos puderam se abrigar no local. Enquanto isto, Pedro procurava por novas armas para continuar o embate contra o animal que tentava matá-los.

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As escravas da fazenda então começaram a esclarecer aos convidados o que de fato estava acontecendo naquele dia. Elas então esclareceram que estavam presas por aquela velha há muitos anos e que ela não estava respeitando nenhuma ação de libertação da escravatura que acontecia naquela época. Disseram que não sabiam exatamente como tudo havia começado, mas as anciãs contavam que era um ser maligno que se alimentava da vida de homens que se aproximavam dela. Em algumas situações, ainda num passado mais distante, a criatura apenas se alimentava dessa energia fazendo trocas com eles por coisas pequenas do cotidiano como fumo e charutos. Fazia isto sempre para que não os trouxesse desgraças caso recusassem a permuta. Agora que havia consumido totalmente todos os homens ao seu redor, ela precisava de mais, ela precisava de outra vida para sacrificar e saciar sua sede.

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As escravos também contaram que viveu um valoroso senhor naquelas terras e foi ele quem tivera o ultimo embate com aquele ser maligno depois de ver muitos dos seus escravos homens mortos. O senhor da fazenda perdeu todo o seu palacete construído em homenagem à sua filha durante a luta, mas ao final conseguiu encravar uma lança no peito da fera. Isto foi o motivo que a fez regredir ao seu estado mais frágil que era a forma humana de uma mulher velha doente e putrefata. Ainda assim, o senhor não teve mais forças depois da batalha e pereceu ali no solar do seu palacete. Naquela ocasião, a velha em suas últimas forças pulou pela sacada e desapareceu nas matas. Pouco tempo depois retornou para torturar e aprisionar todas as mulheres restantes para que trabalhassem ao seu favor. Pedro então entendeu o que havia acontecido e imaginou que sua atitude de se aproximar daquela velha deu energia suficiente àquela criatura para que se reerguesse. Isto despertou um ser do mal que aguardava deleitar-se da vitalidade de outro homem para que voltasse à sua forma original. Com estas percepções, Pedro sentiu-se ainda mais na obrigação de desfazer o mal que havia acordado. Ele subiu até a torre de uma capela construída nos fundos do palacete em ruínas para chamar a atenção da fera novamente buscando tentar derrota-la de uma vez por todas.

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Já na parte mais alta da pequena capela, Pedro encontrou então um cenário que remetia aos contos das escravas que descreveram a batalha final entre o senhor da fazenda e a Matinta Pereira. Ele podia afirmar que estava exatamente no mesmo espaço desse último evento. Lá encontrou em meio aos destroços abandonados um forte escudo e uma lança esculpida em um material azul com adornos em ouro e grandes safiras. Pedro então, buscando emitir algum som, bateu a lança no escudo para chamar a atenção do animal que estava até o momento desaparecido. Logo nas primeiras investidas ele ouviu o som da fera que gritava a distância e o localizara novamente por meio do som produzido. Pedro se preparava para mais uma batalha ouvindo o bater daquelas grandes asas vindo em sua direção. Quanto mais este inimigo se aproximava, os novos itens obtidos no topo da torre apresentavam uma estranha luminosidade azul cada vez mais intensa emanada principalmente pelas grandes safiras. Pedro não entendia o motivo daquela reação do escudo e da lança, mas era envolvido por algo positivo que tendia a protegê-lo. Ao ver a luz de lá de baixo, os escravos gritavam que era a cor usada pelo senhor da fazenda. Diziam que era o espírito dele que estava tentando proteger o jovem pescador que agora estava transformado em um guerreiro.

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Pedro foi fortalecido pela reação das pessoas lá em baixo, mas o animal era muito maior que ele e ao chegar destruiu ainda mais o ambiente onde estava. Estranhamente a coruja parou em um momento de raiva e gritou em direção ao local onde se entendeu que era exatamente o lugar no qual teria o senhor da fazenda a derrotado. Pedro aproveitou para retornar pelas escadas da torre, porém o animal o seguiu destruindo tudo por onde passava. A ave gritava na direção dele e tentava agarrá-lo com seu forte bico. Sempre que Pedro usava seu escudo ou sua lança para se defender, a luz ficava mais forte quando estava em contato com a fera. Ele podia sentir claramente a presença do espírito do senhor da fazenda na tentativa de ajudá-lo a ganhar aquele embate.

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A velha, transformada em uma coruja rasga mortalha, o seguiu até o andar mais baixo do palacete perto de onde estavam abrigadas as outras pessoas. Naquele momento não havia mais o que fazer se não encarar o monstro de frente e tentar vencê-lo. Pedro agora já observava claramente o espírito completamente visível daquele senhor do qual as escravas comentaram. Ele estava armado com os mesmo itens que PEdro e pairava majestoso ao seu lado vestido em trajes de batalha com tons azuis.

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O animal da mesma forma podia ver os dois em prontidão à sua frente e, por um instante, hesitou em avançar. O espírito então olhando para Pedro orientou em gestos para que matasse a fera ao seu sinal. O senhor foi em direção ao animal que se levantou batendo suas asas para impedi-lo do seu ataque jogando ele para frente e fazendo-o cair de costas no chão. Foi nesse momento que o animal investiu em sua direção para destrocá-lo e esmaga-lo com seu forte bico. Então o espírito olhou na direção de Pedro e isto serviu como sinal para que atacasse naquele momento. Ele, aproveitando a posição de cabeça baixa da grande coruja, arremessou a lança que atravessou o crânio do animal fazendo-o cair sobre seu companheiro ao chão. Neste mesmo momento a lança do senhor caído também atravessara a boca da fera encravando o metal em sua garganta. Em um último movimento, a ave expeliu uma chama azul misturada com a áurea do senhor da fazenda numa grande explosão que cobriu os dois e os fez imediatamente transformar-se em pedra.

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Todos ficaram abismados ao ver aquela cena do senhor no chão com a fera sobre ele penetrada por duas lanças iguais conforme descrito na batalha final. Como dito pela anfitriã durante a manhã, aquele foi um dia único na história dos moradores daquele vilarejo e pode-se dizer que ainda mais para o jovem Pedro. Uma anciã que morava com as escravas foi trazida à presença dele e ela o pediu que as libertasse. O jovem pescador não entendera muito o pedido realizado visto que não percebia como poderia fazer algo que de fato as ajudasse. Foi então que a senhora pediu que ele dispusesse o escudo de safiras azuis ao lado da coruja e com isso as deixasse ir embora. Ela ainda informou que há muito se iniciou a construção de um quilombo afastado da fazenda para onde desejavam ir. As mulheres temiam a revelia da velha Matinta Pereira caso retornasse à vida e pensavam, referindo-se ao escudo, que deixar todos os vestígios naquele lugar poderia ser uma escolha melhor do que levar algum legado daquele evento.

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Nesse momento Pedro foi tentando pelo valor que tal raro equipamento poderia ter, mas a jovem bela que o observara a todo tempo se aproximou dele e o acompanhou a colocar o material ao lado da estátua da coruja. Ao fazer isso, imediatamente o escudo também se transformou em pedra e se fixou ao resto que ali estava. As escravas cantavam sentindo-se livres e depois de algumas instantes cuidados dos feridos o nascer do sol representou um novo começo para todos que passaram por aquele dia tão cansativo. Ouve despedida entre todos que ali estavam e a bela jovem apenas se despediu de Pedro com um beijo no rosto. A sua presença naquele grupo era muito importante e ela precisava acompanha-los. Apenas alguns olhares foram trocados entre eles e os dois grandes grupos tomaram cada um o seu rumo, as escravas em direção ao quilombo desejado e os visitantes de volta para suas casas.

Capítulo 8: O Cemitério de Árvores Secas

Todos retornaram para o vilarejo em que Pedro morava e o acontecimento do dia anterior pairava em suas mentes a todo instante. Sempre houve contos relacionados a seres místicos, porém tais histórias eram geralmente presenciadas por pequenos grupos e se tornavam apenas lendas. Todos se perguntavam como poderiam conviver com aquela certeza de que os mitos, muita vezes presentes somente em contos e cânticos, de fato eram reais. Pensavam como os caçadores voltariam para as matas sabendo que seria possível encontrar com os seres da floresta que agora poderiam se apresentar tão reais quanto eles mesmos. Uma espécie de medo estava sobre os habitantes do vilarejo e os fazia pensar que falar sobre o assunto ocorrido poderia trazer mal-agouro. Todos se esconderam em suas casas no restante daquele dia e ninguém foi visto andando nas ruas.

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Pedro havia retornado com seus avós que, assim como os demais moradores do local, aparentemente estavam muito quietos e isolados em seus pensamentos. Ele se lembrava da despedida da jovem que tanto o encantou. Foi apenas um adeus em poucas palavras por meio das quais ela o justificou a necessidade de continuar com seu povo e ajudá-los a se reerguer. O comportamento de todos os conterrâneos de Pedro era algo estranho. Após um dia tão único, eles simplesmente se contentavam em ter a lembrança do ocorrido em seus pensamentos sem que nenhum diálogo fosse realizado sobre o que aconteceu. É de se imaginar que ninguém dormiu naquelas primeiras horas e, após um café da manhã silencioso, Pedro então resolveu quebrar a monotonia do momento.  Ele indagou sua avó sobre o quê afinal havia acontecido e questionou se já ocorrera algo assim antes. De imediato, seu avô da entrada da casa se impôs em tom firme dizendo:

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– Ah! Nada de falar dessas coisas aqui. Não tem pra que ficar querendo falar disso. Eu sempre disse que não é pra falar disso aqui em casa. Nada de ficar falando do que aconteceu ontem ou coisas assim com ele! – Falou se dirigindo a sua esposa com um ar claro de seriedade.

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Pedro, que acabara de ter uma grande experiência com seres místicos, não iria se contentar em ficar calado e imediatamente levantou da mesa da sala onde tomava o café. Ele foi em direção à cozinha e se dirigiu novamente à sua avó com a qual desabafou dizendo:

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– Eu tenho o direito de saber as verdades minha avó. Por que meu avô age assim sempre que essas histórias são faladas? O que houve afinal de contas?

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A velha senhora, avó de Pedro, que estava lavando os pratos em frente a pia da cozinha, baixou a cabeça e da mesma forma pediu que ele não entrasse mais a fundo naquelas histórias. Pedro ficou surpreso, pois tudo se revelara de forma muito intensa no dia anterior. Afinal, por qual motivo todos simplesmente estavam agindo como se ignorassem ou esquecessem do ocorrido. Ele se aproximou ainda mais dela e a segurou no braço dizendo:

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– É um direito meu saber. Preciso que fale. Eu não conseguirei viver com todas essas dúvidas em minha mente. Jamais esquecerei o que aconteceu ontem.

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Então, à revelia do seu marido, a senhora conduziu Pedro até o quarto onde os dois se aconchegaram. Ela sentou na única cama que lá havia e ele se sentou em um sofá velho que ficava em um dos cantos do local. Desta forma ambos começaram a conversa tão desejada por Pedro.

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– Sim, me conte! O que houve? Aconteceu alguma que meu avô esteja tentando me impedir de saber? – Iniciou o jovem pescador.

 – Quando você era pequeno, Pedro, você disse que estava vendo sempre uma mulher de branco quando você ficava com sua colega. Mas eu aquilo pensei, que aquilo era graça sua, que você estava endoidecendo. Eu me perguntei o que será que você estava aprontando, dizendo que estava vendo uma mulher de branco. Fiquei até com medo. A gente fica com medo não é? Será que estava vendo mesmo? Botei aquilo na mente. Depois você esqueceu. Nunca mais você falou esse negócio que estava vendo a mulher de branco. Será que você viu mesmo?

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– Eu não sei… quem sabe? Quando eu era pequeno…

– Criança vê! Criança vê muita coisa. Eu pensava exatamente assim. Criança vê muita coisa. Será que não estava vendo alguma coisa mesmo? Você se lembra de quando você pegou a imagem do São Cosme e que você quebrou?

– Como assim?

– Você e sua prima. Eu tinha dois santos pequeninos aqui. Sua mãe que ficou de me dar outro. Um dia ela foi comprar, mas nem trouxe.

– Mas eu quebrei por quê?

– Eu não sei. Você e sua prima quebraram e jogaram ali no canto. Acho que foi fazendo estripulia que quebraram. – Falou apontando para um canto qualquer da casa.

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Pedro sorriu e continuou a perguntar.

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– Sim, mas e nesse dia que a senhora disse que eu via alguma coisa, o que mais teve?

– Será que você viu mesmo?

– Eu não me lembro disto ao certo, não sei se a senhora ou se a minha mãe me pegou na janela e que eu ia cair para o lado de fora. Algo assim…

– Foi! Você ia caindo. Quase que eu morro de medo. Você botou a cabeça na janela e ficou de cabeça para baixo e disse que viu. Será que não foi um espírito que te protegeu? Será que não foi um anjo de guarda? Você ia cair e ele lhe defendeu. Você ia cair da janela do outro lado de fora da casa. Quando você subiu que eu dei aquele grito. Foi! Você já ia cair. Ai você disse que viu. Foi um espírito que lhe defendeu por que você ia cair de cabeça pra baixo. Você ia cair mesmo. Peguei já pelos pés. Foi.

– Eu consigo me lembrar de mais um pouco agora minha avó. Quando eu era pequeno eu realmente ficava vendo as coisas.

– Não sei, mas acho que você já estava com sete anos. – naquele momento eles não deram muita atenção àquele número tão místico.

– E lá na roça minha avó? O pessoal também contava muitas histórias assim?

– Contava, era! Contava mesmo.

– E a senhora lembra? A senhora chegou a ver alguma coisa lá?

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Ela de repente levantou dizendo que tinha que tirar a moqueca do fogo, pois estava preparando para o nosso almoço. Este é um prato típico daquela região no qual são preparados peixes com azeite de dendê e leite de coco. Enquanto andava pelo corredor em direção à cozinha ela disse:

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– É meu filho, as pessoas vêem. Vêem muita coisa.

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Durante alguns minutos, Pedro ficou refletindo sobre esses assuntos que sua avó começara a lhe contar. Ele não tinha muitas lembranças claras do seu passado. Era como se algo estivesse bloqueando suas memórias. Quando ela retornou da cozinha, ele não a deixou nem sentar direito e já começou a perguntar novamente.

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– Sim, e lá nas outras fazendas distantes como era?

– Via muita coisa e agora não vê mais. O que aconteceu ontem não dá nem para acreditar.

– Não vê mais? Por quê? Como assim?

– Ninguém sabe. Minha irmã cansava de ver. – Falou a senhora se lembrando de sua companheira na casa de farinha da família – Ela disse que via muito. Teve um rapaz mesmo que faleceu, era um parente do seu avô, acho que era primo. Ela disse que cansou de ver ele descer ali do lado do cemitério.

– Descer do cemitério, minha avó? Vivo ou depois de morto?

– Sim! Vivo! Não sei! Era o espírito. Quem sabe? Era seco, podre. Ela disse que o via descendo. Ela disse que às vezes só via pra cima, mas para o chão não via os pés. Ela disse que via muita coisa e cansava de ficar até tarde da noite. Ficava no quintal e via descer assim para o lado de lá. Ela me contando eu perguntava se ela ficava na hora que via. Ela dizia que via ele mesmo e ainda assim ficava. Ele descia tocado, do cemitério pra baixo.

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A avó de Pedro descreveu com bastante detalhe aquela criatura. Ela lembrava que sempre que sua mãe a convidada para visitar este primo distante, eles passavam por diversas dificuldades. Esse primo do avô de Pedro era um fazendeiro mesquinho e filho único. Ele morava apenas com a sua mãe e tratava ela como se fosse uma escrava dentro da sua própria casa. Ele a maltratava muito e a situação era bastante incomoda para as pessoas que visitavam a sua casa. Naquelas regiões pobres em que muitos alimentos eram escassos, uma tradição comum entre as pessoas que tinham no mínimo um quintal que fosse era a ação de entregar frutas para aqueles que as visitassem. No caso desse fazendeiro, ele tinha uma atitude egoísta e chegava a ponto de catar todas as que caíssem no chão para que ninguém as pegasse. Certa vez quando Pedro ainda pequeno foi com seus avós à fazenda desse senhor e se ousou a retirar uma única manga da árvore, aquilo quase gerou uma separação da família.

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Dentre as várias informações negativas relacionadas com este fazendeiro, a pior de todas foi em seus últimos dias de vida como pessoa. A avó de Pedro contou que antes de morrer esse senhor bateu seriamente em sua mãe. Ela já era uma senhora bastante velhinha e isto trouxe um mal sobre ele e que pagaria eternamente. Quanto o fazendeiro faleceu, em seu enterro poucos compareceram  não houve lágrimas. Todos apenas pensavam no fato de que estariam se livrando de uma má pessoa que era indesejada por muitos. Sua mãe morreu pouco tempo depois de desgosto pelo filho que a fez sofrer tanto e que a abandonou sozinha naquele lugar. O cemitério no qual foi enterrada aquela família teve que ser particular e ficava dentro da própria fazenda em que moravam. Isto aconteceu devido ao fato de que nenhum outro lugar aceitou aquele fazendeiro, do qual muitas pessoas mantinham desavenças mesmo depois de morto.

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O cemitério foi construído enquanto ele ainda era vivo por ordem dele mesmo imaginando futuros problemas em sua morte. Algumas pessoas que tiveram que ser bem pagas para aceitar trabalhar naquela fazenda, ainda assim foram maltratadas pelo contratante. Ninguém ia para aquele lugar levar flores e apenas depois de um ano passado, um representante do governo regional foi até a fazenda para avaliar o que fariam com as terras abandonadas e sem herdeiros diretos. Ao chegar ao local, o desavisado andou pelos arredores buscando levantar informações sobre a situação daquela propriedade. A fazenda tinha terras produtivas, mas a presença de um cemitério logo ao lado da casa principal chamou ainda mais a atenção do representante. Por curiosidade ele resolveu ler o que havia nos túmulos daquelas duas pessoas e encontrou uma mensagem riscada na lápide do fazendeiro:

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“Aqui jaz aquele que durante a vida esteve entre o triunfo da posse destas terras férteis e a maldição de não possuir uma alma.”

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Ao ler aquilo, o representante do governo se assustou. Ele percebeu que a terra que cobria este jazigo estava revirada como se algo tivesse tentado escavar o local. Só não conseguia precisar se foi de fora pra dentro ou de dentro para fora. Esta segunda opção era mais provável pelos rastros que observou ao redor. Ele preferiu não continuar naquele local sóbrio e saiu para descobrir o que aconteceu ali em outro momento. No dia seguinte ele procurou alguns familiares do dono falecido daquela fazenda e os convidou para que retornasse ao local para avaliarem juntos se houve alguma violação do túmulo daquela família. Ao chegar, alguns poucos familiares de Pedro que se deslocaram ao local, perceberam da mesma forma que havia algo errado. Eles constataram que de fato houve violação e seja lá o que aconteceu foi de dentro para fora. Lembraram com repúdio e comentaram que o indesejado dono daquele lugar pudesse ter levantado de seu próprio túmulo.

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As palavras dos familiares do fazendeiro correram pelas redondezas imediatamente enquanto a comitiva voltava daquele lugar que acabou sendo tomado pelo governo posteriormente. Durante a demolição da casa eles tentaram remover os corpos para levar a um cemitério fora dali que os aceitasse, porém encontraram apenas os restos mortais de um dos cadáveres. Aquela intriga nunca foi totalmente resolvida. Alguns trabalhadores que estiveram nas obras de demolição informaram que a todo instante viam entre as árvores um ser estranho. Eles descreviam como um cadáver que andava entre as sombras e o chamaram de Corpo Seco. Os mais religiosos falavam que era o próprio dono daquelas terras que foi rejeitado por Deus e pelo diabo tendo que continuar naquelas regiões, pois a própria terra o expulsou.

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O objetivo da província era utilizar aquela fazenda e transformar a região em uma área protegida, pois nela havia várias riquezas a serem exploradas. Esta meta até foi atingida, mas todas as árvores ao redor do cemitério ficaram secas e nada conseguia viver ali. Todos que tentaram andar por aquela região relataram que viam um corpo peregrino ainda em decomposição. Diziam que, caso estivessem distraídos, poderiam ser atacados por esta criatura que costumava abraçar e sugar toda a energia de suas vítimas.

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Desde esses acontecimentos, a lenda do Corpo Seco foi usada pelos anciões daquelas redondezas para que seus parentes evitassem andar a sós. A família de Pedro contemplava uma série de relatos que se relacionavam com lendas e mitos mais reais do que aqueles presentes apenas nas histórias. Ele sabia que havia muito a aprender dessas experiências e que seus avós poderia contar-lhe bastantes sobre esse mundo fantástico de criaturas desconhecidas.

Capítulo 9: As Marcas do Passado

Pedro e sua avó fizeram mais uma pausa na conversa. Ela levantou novamente para verificar se tudo acontecia bem com as comidas que estavam sendo preparadas na cozinha. Foi um tempo bem curto enquanto o jovem pescador ficou refletindo sobre aqueles contos que ela relatou. Ao retornar ele continuou os questionamentos imediatamente.

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– E a senhora, minha avó? Já viu alguma coisa? Tem alguma experiência dessas?

– Eu? Não! Eu era muito medrosa – os dois riram juntos – e se escurecesse eu não saía mais para o lado de fora. Mas dizem que se via muita coisa por lá. O pessoal disse que cansava de ver descer das roças várias coisas estranhas.

– E viam o que mais? Viam outros bichos também?

– É! Via uma moça dentro de uma barrica enorme cantando, mas isso daí eles disseram que era algo que vinha das altas pedras que eram encantadas. Às vezes viam essa jovem como se fosse um peixe dentro do lago e às vezes ela saia andando pelas matas e descia de lá daquelas pedras medonhas que tinham lajens compridas lá em cima. Era muita pedra, cada monte bem grande. Eles cansavam de ver também, dizem que um cavalo. Dizem que viam a trincaria mesmo. – Muitos contavam a lenda de uma mulher que era concubina do padre e se transformava na Mula sem Cabeça – Eu ainda me arrepio quando lembro que elas contavam. Era sempre por volta da meia noite que virava a mula. O pessoal cansou de ver, descia para a rua e voltava novamente para os morros. Eles contavam muita coisa. Agora eu? Não! Por que eu tinha muito medo. Dizem que iam fachear e que viam o facho meia noite. Acho que se chamava Beatatã. Dava carreira no povo e dizem que eram as comadres que não respeitavam umas as outras. Era uma coisa assim que elas contavam. Dizem que eram duas tochas de fogo que, quando se encontravam, se queimavam. Isso tudo o pessoal me contava. Aquele pessoal dos mais velhos que não existem mais.

– Um dia vou às roças para eles me contarem outras histórias como essas. Isso que aconteceu ontem não pode ficar somente na nossa lembrança e nos contos, minha avó. Eu vou lá para eles me contarem tudo.

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Depois de todos aqueles contos relatados por sua avó, Pedro se sentia cada vez mais impulsionado a iniciar uma jornada de busca e entendimento do quão real eram todos aqueles outros mitos. Ambos agora já se sentiam em um clima mais tranquilo e seus corações estavam mais confortados pela companhia um do outro. Apenas uma chama de curiosidade e destino cresciam no peito de Pedro fazendo-o colocar-se à disposição de ir ainda mais além. Durante aquelas conversas o seu avô passou algumas vezes em frente à porta, mas nada falou. Inicialmente, Pedro não deu muita relevância àquela barreira de conversa que o seu avô colocava sobre o assunto desses contos, mas isto seria algo que ele não iria esquecer aceitar por muito tempo.

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Depois daquele momento, o dia correu mais tranquilo naquela casa, enquanto que lá fora, nas ruas, acredita-se que não se podia dizer o mesmo. Após as primeiras horas do dia, o sol havia se escondido novamente sobre algumas nuvens e a manhã estava mais uma vez pálida e quieta demais. Assim como os outros moradores do local, a família de Pedro tendia a não ter muitas conversas sobre o ocorrido e eles sempre se perdiam em seus pensamentos por causa disto. A sua avó ainda cuidava de alguns de seus ferimentos causados no embate com a Matinta Pereira e já era final da tarde quando Pedro mais uma vez resolveu quebrar o silêncio.

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– Minha avó! A senhora não acha que está tudo estranho demais? Eu imaginei que as pessoas viriam aqui em casa falar comigo, mas até agora não vi ninguém na rua. Por que será?

– Deixa isso pra lá menino, não vamos falar novamente dessas coisas não já é tarde.

– Mas eu não entendo, o que aconteceu ontem não pode ser perdido e esquecido para se transformar em mais uma dessas lendas. Tudo aconteceu de verdade, foi real. Temos que procurar saber mais. A gente não sabe qual perigo nos espera e temos que nos preparar.

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Nesse momento, de forma muito estranha, o seu avô apareceu na porta do quarto onde estavam conversando. Mais uma vez ele disse a Pedro que desistisse daquilo tudo, pois o acaso já teria sido bom demais em fazê-los voltar sãos e salvos do dia anterior. Ainda assim o jovem pescador insistiu e questionou:

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–Mas, meu avô, o que o senhor tanto teme? Ontem foi a prova de que existe algo além do que a gente imagina e que esse algo pode ser vencido.

– Você ainda é muito novo, Pedro, se acha que esse algo sempre pode ser derrotado. Eu digo que o que você viu ontem não é tudo.

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Mesmo com a desaprovação de sua avó, Pedro insistiu em indagar seu avô para que falasse mais sobre o que aparentemente sabia e tentava esconder. Então o jovem pescador voltou a incitá-lo.

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– Quando o senhor fala assim, parece que não quer contar algo!

– Existem coisas que devem ficar esquecidas. – Respondeu prontamente o seu avô.

– Devemos nos esquecer de ontem? Será que isso não poderá acontecer de novo?

– Esquece isso Pedro – falou a sua avó que tentava intermediar a conversa – daqui a pouco vai escurecer e não é bom falar disso de noite.

– Está bem então. – Com todas aquelas perguntas o seu avô então resolveu quebrar o silêncio – Irei contar a você uma história e no final você entenderá por que não está ouvindo ninguém falar sobre o assunto de ontem.

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Então o avô de Pedro havia se colocado a disposição para contar sobre o seu passado e logo os três se acomodaram no pequeno quarto. Como precaução, aquele senhor fechou um pouco a única janela que havia no quarto e deu uma rápida olhada para fora da casa. Então acendeu uma vela ao lado do oratório da sua avó que ficava no outro cômodo. Isto era alguma forma de proteção que ele buscava nas imagens dos santos que ali estavam. O sol já começava a se por e a luz elétrica ainda não chegara naquela região. A lua se erguia imponente naquela semana e iria auxiliar para que a conversa se prolongasse naquele inicio de noite. Então o seu avô começou a falar:

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– Em um dia de São Roque eu estava na casa da sua bisavó, minha mãe. Não era dia de missa, mas vimos uma pessoa que, pelas vestimentas, se assemelhava a um padre. Já era meia noite e ele estava com aqueles sinos indo em direção à igreja. A gente acordou e viu aquela figura com um candeeiro na mão andando pela rua naquela hora já bem tarde. Andava calado e desapareceu ao passar pela esquina. Meu irmão, que foi o último a se levantar, veio falando que devia ser um senhor chamado Pufiro que morava naquelas bandas e que não devia ser propriamente o padre. Era desejo dele que todos ficassem com medo, pois as pessoas achavam que o tal Pufiro virava bicho dias de sexta feira. Falavam que ele virava lobisomem. Minha mãe, sua bisavó, Pedro, o mandou calar a boca e ficar quieto imediatamente. Ela disse que não podia ser ele por que estava vestido como um padre. Ela mandou todos voltarem para seus quartos e fecharem as janelas. Eu fiquei olhando por um buraquinho para o lado de fora na sala tentando ver se observava alguma coisa novamente.

– E esse tal de Pufiro, meu avó? Que história é essa, como assim, virava lobisomem? – perguntou Pedro incessante.

– Virava! Diziam que ele morava na parte alta da cidade, nos matos, e que o povo cansava de ver ele descendo dez e onze horas da noite com tudo escuro. Não levava se quer uma vela acessa por onde andava. O povo prestava atenção e dizia que ele descia da roça e tirava toda a roupa. Havia um pé de árvore, gameleira, onde ele guardava suas vestes e se virava em um bicho medonho. Virava um bicho grande para ir para a maré. Dizem que esse homem tirava a roupa e guardava de baixo daquela árvore e virava o bicho dias de sexta feira. Ninguém sabia ainda ao certo se era verdade e quando o viam ele dava carreira no povo. Quando os pescadores davam o lance da rede, o bicho pegava todos os siris que sobravam e os comia vivos, era um bicho enorme. Comia siri, peixe cru e por isso vivia todo amarelado quando estava na forma de gente. Certa vez, o pessoal que pescava tarde da noite viu ele descendo dos matos. O andar dele já era assim meio corcunda e estranho. Por isso diziam que ele se transformava em um cachorrão medonho. Quando era de manhã o povo dizia que ele se transformava todo e virava gente novamente. Ele amanhecia todo mole. O pessoal ia lá em cima ao rancho em que ele morava e via que ele vomitava tudo. Botava pra fora aquele romeiro de casco de siri e peixe. Às vezes ele comia gente também é o que diziam. O povo ficava com um pau enorme na mão para se proteger, mas ninguém tinha certeza realmente se era ele mesmo. Quando as pessoas viam aquilo, elas ficaram com medo dele fazer alguma coisa e por isso não iam mais na casa do estranho. Ficavam caladas, mas todo mundo cada vez mais sabia que era ele que virava o tal bicho. Falavam que isso tudo era uma maldição de sua mãe que teve sete filhos e que, mesmo sabendo que tinha que batizar todos eles, não fez. Com Pufiro foi assim, por isso ele virou lobisomem. Ele era o sétimo filho de uma família muito estranha. Sempre que alguém falava sobre o assunto acabava morrendo estranhamente ou desaparecendo e muitos, ainda no leito de morte, alertavam: “se falar dele, ele sabe”. É por isso, Pedro, que as pessoas não estão comentando sobre o assunto, elas têm medo.

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Pedro ficou muito abismado com aquela história e perguntou se naquele dia do padre eles viram algo assim. Um homem se transformando em lobisomem, por exemplo. Seu avô, que era muito ranzinza, resmungou em ter que continuar, mas continuou a falar sobre aquele dia.

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– Vamos lá! Enquanto eu ficava olhando pela janela, não vi mais o tal padre, mas dava para sentir que havia algo estranho lá fora. Era um dia como hoje, a lua estava cheia e o vento ficava fazendo barulho pela passagem na janela. Foi então que de repente ouvimos alguma coisa pular sobre o telhado da casa. Minha mãe me pegou pelo braço e me tirou de onde eu estava espreitando. Mandou que ficássemos calados sem fazer nenhum barulho. Dava para ouvir lá fora o som de alguns passos na rua que pareciam com algum tipo de animal. O meu quarto era o último da casa e lá havia uma janela pequena sem grade que dava para o quintal. Não dava para ver muita coisa lá fora, somente árvores no escuro com uma iluminação fraca da lua naquele ponto. Começamos a ouvir os uivos do lado de fora e ficamos morrendo de medo. Como nossa casa era colada com a parede do vizinho, a gente percebia que eles também deveriam estar exatamente como nós, escondidos e quietos. Quando eu resolvi espiar novamente pela pequena janela, tive uma das piores visões da minha vida. Estavam no quintal dois bichos medonhos. Não era um só não, eram dois Lobisomens juntos. Eles andavam estranhos, às vezes como a gente, de pé, às vezes como cachorro e mexiam nas coisas lá no fundo. Chegaram a olhar na minha direção, mas consegui sair rápido antes que eles me vissem. Nesse curto momento consegui ver a face de um deles quando a lua os iluminou. Fui andando me rastejando do meu quarto para o quarto da minha mãe e vi que todos os meus irmãos também foram assim como eu. Ficamos juntos abraçados sem querer olhar para nenhuma direção com medo de ver os bichos de frente. A gente ouvia o barulho lá fora a todo tempo. Não tínhamos dúvida, a gente sabia que eles estavam lá fora. Havia dois primos nossos que estavam lá em casa naquele dia. Eles estavam morrendo de medo e não conseguiam ficar quietos como a gente. Foi quando um deles se levantou repentinamente. Ele não acreditava muito e achava que era só o vento e alguns cachorros lá fora mesmo com todas aquelas evidências tão claras. Em verdade ele estava com tanto medo em seu coração que preferia não acreditar. Minha mãe tentou parar esse primo com gestos, pois não queria fazer muito barulho. Quando ele levantou saiu em disparada e correu para a porta da frente buscando diminuir seu medo com uma explosão de coragem, ou burrice. Então, quando ele abriu a porta, a gente viu que era realmente verdade. Os lobisomens foram para cima dele. Avançaram com muita raiva e rosnando e então, por uma ação de desespero, ele correu desgovernado pela rua em vez de retornar para dentro da casa. Vimos que eram vários lá fora. Perdemos o nosso primo naquele dia de uma forma terrível. Foi muito feio Pedro, eles o rasgaram todo e se lambuzavam no sangue dele.

– Meu avô, por que o senhor nunca me contou isso? Então essas coisas são mais reais do que a gente pensava não é? Viu o que aconteceu ontem? Viu o que aconteceu nesse dia que o senhor está me contado?

– Mas Pedro, nem sempre se ganha. Nesse dia a gente perdeu tudo. O irmão dele ficou desesperado com aquela cena horrível e saiu correndo dos braços da minha mãe para o meio da rua da mesma forma. Ele foi atrás do irmão antes que ela pudesse fechar a porta. Eu levantei para tentar ajudá-la a segura-lo, mas não foi uma boa escolha. A lua iluminava a rua e dava para ver os bichos sobre meu outro primo. Quando eles viram a gente, vieram correndo para cima de mim e eu também me desesperei correndo sem saber para onde ia. Acabei seguindo para o lado, na direção da casa do vizinho, mas meu outro primo não teve a mesma chance, os bichos também o pegaram. Uma das criaturas veio em minha direção e pulou em cima de mim. Olhe minhas costas Pedro – nesse momento tirou a camisa e mostrou cinco arranhões que foram feitos pelas garras do animal que tentou capturá-lo, mas que não teve êxito, pois tinha os ossos tortos e um andar desajeitado – a gente caiu, mas eu consegui continuar e saí correndo. Eu bati desesperadamente na porta da casa dos vizinhos para que abrissem e me ajudassem. Eles me viram pela janela e abriram rapidamente. Então eu entrei e fiquei com eles. Era uma família pequena, apenas um pai, uma mãe e um filho. Ficamos no quarto que dava para frente da rua olhando pelas frestas da janela para ver se a criatura  ainda estava me seguindo. Nesse momento o senhor daquela casa me sugeriu que saíssemos de perto da janela. Quando olhei na direção dela novamente eu ouvi um barulho do lado de fora como se algo tivesse batido contra ela. Dava para sentir o calor do bafo do bicho e o olho dele tentando rastrear dentro da casa pelas frestas assim como a gente fazia antes dele. Dava para ver que esta criatura era um pouco diferente dos demais lobisomens, pois se apresentava com um focinho parecido com o de uma anta e com ele farejava pela janela tentando me encontrar. Ele tentava subir desajeitado pela janela com um pé parecido com uma garrafa. Naquela casa havia alguns filhotes de gatos e no momento em que um dos pequeninos soltou um miado, a criatura imediatamente se mostrou sedenta pelo alimento que poderia ter encontrado ali dentro. Eu fiquei calado sem respirar e vi o bicho medonho subindo para o telhado. Ficamos todos quietos sem dar um passo enquanto a matriarca daquela família aconchegou os pequenos gatos para que não fizessem mais barulho. A fera começou a tentar destelhar a casa. Ela estava ferozmente procurando se alimentar naquela noite e não importava se fosse aquele pequeno filhote ou a mim mesmo. A criatura sentia o cheiro do meu medo de lá de fora da casa. – Aquele não era um lobisomem de fato. Estranhamente a criatura estava naquela matilha, mas se tratava na verdade de um Capelobo, uma criatura conforme as descrições do avô de Pedro que também tinha as características de um animal meio homem meio bicho – Eu estava realmente morrendo de medo e minhas costas sangravam muito, eu sabia que ele a qualquer momento iria conseguir entrar na casa e me achar. Porém, como por uma prece, vários caçadores que moravam naquele lugar saíram de suas casas armados atirando na direção dos bichos. Foram muitos tiros. Eu estava desesperado com tanto som de balas e ainda mais com o som do animal ainda tentando entrar na casa de qualquer forma. Não conseguia nem imaginar o que estava acontecendo ao certo lá fora naquele momento, até que a gente ouviu um uivo muito alto e de repente o som dos animais correndo em direção ao mato. A criatura parou de tentar invadir a casa e foi embora como se respondesse àquele chamado. Ouvi o som dos caçadores conversando lá fora quando percebi alguém batendo forte na porta. Era minha mãe que estava me procurando. Ela e dois irmãos meus vieram me levar pra casa. Quando saí pela porta daquela morada percebi que todos os habitante do vilarejo estavam na rua. Muitos carregavam um lampião aceso para iluminar ainda mais o local que estava sobre a luz da lua. Eles me olhavam querendo saber se eu estava bem. Lembravam dos contos que envolvem lobisomens e penssavam no que acontece com as pessoas que são feridas por eles. Geralmente se transformam nesta criatura da mesma forma, mas acho que isto não aconteceu comigo  não é?  –  Houve uma pausa e uma troca de olhares questionadores entre eles, mas nada foi dito e o avô de Pedro continuou.  –  Eu fui pra casa e fiquei lá exatamente como você está hoje, Pedro, com alguem cuidando dos meus ferimentos. No outro dia, ninguém falou sobre o assunto além da minha tia, mãe dos meus primos. Ela morreu exatamente no dia seguinte à morte dos filhos. A gente a encontrou destroçada na roça e é exatamente por isso, Pedro, que ninguém fala dessas coisas. Quem fala morre. Acredite!

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Pedro não sabia o que dizer para o seu avô que aparentava estar bastante cansado com toda a energia usada para lembrar e contar aquela historia. Ele respeitava muito a sabedoria daquele senhor e ao ver as suas marcas ele entendia que talvez fossem as marcas da sobrevivência. Lembranças de alguém que ficou quieto e estava vivo por tanto tempo. Os pensamentos de Pedro ficaram bastante confusos ao refletir sobre o que ele deveria fazer afinal de contas. Ele pensava em ir mais a fundo, mas agora a sua experiência de triunfo sobre a Matinta Pereira no dia anterior ia de encontro com a história contada pelo seu avô e seus primos. Aquele era um relato totalmente desastroso contra os Lobisomens e o Capelobo. A noite já estava se estendendo e ele resolveu seguir os conselhos dos seus avós em não continuar mais a pensar ou falar naquele tipo de coisa. Ao menos naquela noite Pedro se comportou conforme os concelhos entregues e foi dormir em silêncio.

Capítulo 10: O Peso de um Sono Profundo

No segundo dia após o embate com a Matinta Pereira, Pedro ainda estava na casa dos seus avós e descansava na sala. Sempre que estava naquele lugar ele sentia uma proteção sem igual. Algo de bom estava em todos os cantos daquela morada e fazia com que a sensação de bem estar fosse percebida facilmente por todos. O cheiro, os móveis, tudo refletiva em uma espécie de vitória espiritual. Era como se por muitos anos eles tivessem lutado silenciosamente contra algo desconhecido e que, já mais velhos, aproveitavam os bônus de uma vitória merecida devido a uma estratégia adequada. Para Pedro, estar naquele lugar era sempre algo muito bom. Ele comumente passava lá quando queria refletir um pouco e experimentar aquela paz sem igual. Todos os últimos acontecimentos de sua vida o faziam querer estar ali de forma ainda mais intensa naquele dia. O jovem pescador precisava daquele calor espiritual mais do que tudo. A quantidade intensa de experiências com o desconhecido o deixava cada vez mais fraco e cansado. Sua mente estava inquieta sem que respostas claras fossem apresentadas. Havia muitas dúvidas relacionadas com os contos e lendas que se apresentavam cada vez mais reais. As noites estavam se tornando difíceis e os seus sonhos queriam falar com ele de qualquer forma.

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Enquanto estava envolto em seus pensamentos alguém chegou à frente da casa e bateu à porta. Pedro foi até lá para ver quem era o visitante que o retirou daquele momento profundo de reflexão e que seria a primeira pessoa a visitá-los depois do ocorrido. Ao abrir a porta, infelizmente ele não teve uma boa visão. Era uma velha senhora cigana que visitava os seus avós praticamente todos os dias. Para Pedro era uma das pessoas mais estranhas que ele conhecia naquele pequeno vilarejo. Era uma senhora solteira que morava apenas com sua filha. As duas eram bem parecidas, mas a jovem ainda era mais aceitável. Ela até chegava a ser considerada uma pessoal sociável, pena que não falasse muito. Tais visitas aconteciam sempre no meio da manhã enquanto sua avó preparava o almoço. Para ele era algo muito incomodo, pois não fazia muito sentido.

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Como a filha da senhora sempre saía cedo para a roça, ela fica sozinha em casa e quase todas as manhãs realizava esta visita. Seu único objetivo sempre era pedir uma xícara de café. Mesmo que a avó de Pedro estivesse preparando o almoço, ou em qualquer outra ocupação, esta senhora sentava nos bancos da sala e ficava aguardando em silêncio até que o copo de café fosse oferecido. Sempre que presenciava esta situação Pedro ficava observando o comportamento estranho desta senhora que não falava muito, ou que falava quase nada. Ela simplesmente batia à porta, entrava sem pedir licença, sentava e esperava. Sempre em silêncio quase absoluto. Sua avó que tinha um coração gigantesco atendia este pedido que para ela era apenas um pequeno favor.

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Sempre havia incomodo para Pedro naquela visita, pois ele não achava que esta fosse uma espécie de obrigação da sua avó. Para ele não havia nenhuma resposta em consideração com o favor realizado, visto que ao beber o café solicitado, a senhora simplesmente colocava as xícaras sobre a pia e ia embora. Todas essas lembranças passaram em sua mente naquele momento em que abria a porta e contemplava a surpresa da visita quase inesperada. Devido a todos os acontecimentos daquela semana, justo naquele dia não havia a bebida solicitada, pois não foi preparada. Ao se dirigir para a cozinha e falar com a sua avó, os dois apenas encontraram um copo que estava com café velho há bastante tempo. Pedro sugeriu que não fosse oferecida aquela bebida, pois poderia fazer mal para a senhora misteriosa e isto seria responsabilidade deles.

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Aproveitando esta dificuldade, ele questionou de forma mais enfática se era realmente uma obrigação deles oferecer o café como uma espécie de serviço imposto de forma subjetiva por aquela senhora. Mesmo concordando com Pedro, a sua avó ainda mantinha o espírito da boa vizinhança. Ela tentou explicar que a senhora visitante aparentava sofrer de algum mal que a acompanhava. Talvez aquele momento de boa ação estivesse como a única coisa que a ajudasse no descanso de seu fardo que era representado por sua áurea pesada. Os dois então afinal chegaram ao consenso de que aquela xícara de café velho não deveria ser servida e que, pela primeira vez, a senhora sairia sem a bebida desejada. Sua avó se dirigiu até a senhora e informou que não haveria café naquela manhã devido à ocupação dos últimos acontecimentos. A visitante estranhamente se levantou, olhou na direção de Pedro e sorriu friamente. Então, antes de sair, ela pediu uma jarra de água e foi embora.

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Aquele olhar da despedida ficou preso na lembrança dele durante toda a manhã e também durante a tarde. Após as suas últimas experiências, nada mais que pudesse acontecer o traria uma surpresa preocupante a partir de agora. Como a visita não foi tão longa, para ele foi apenas algo que lembrava em momentos rápidos nos seus pensamentos. O dia continuou de uma forma quase normal, então eles almoçaram e não falaram muito sobre o assunto. O avô de Pedro havia saído cedo de casa para ir pescar e passaria o dia inteiro em alto mar só retornando no dia seguinte.

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Quando a noite chegou, eles foram visitados por uma tia e uma prima. Elas estavam acompanhadas por uma senhora negras do grupo de escravas que foram libertas há dois dias por Pedro. Esta senhora retornou para trazer uma mensagem ao jovem pescador. Ela informou que no primeiro dia de viagem ao quilombo o seu grupo foi surpreendidos por uma Pisadeira, um ser que se alimenta da energia dos desavisados que comem antes de dormir e vão para a cama de barriga cheia. Todo o mal-estar destas pessoas é potencializado por esta criatura que senta sobre elas e pode até leva-las à morte. A senhora anciã do grupo de escravas decidiu que esta noticia deveria chegar a Pedro o quanto antes, pois todas as mulheres que relataram contato com a Pisadeira mencionaram ouvi-la falando o nome dele como se o estivesse procurando. Ao receber a notícia ele não conseguiu entender exatamente qual era o recado, afinal o que seria de fato uma Pisadeira e o que ela queria com ele. Por que motivo todos estes mitos estavam se revelando desta forma? Pedro preferiu ficar sozinho na sala onde não desistiria de comer a sua janta mesmo com a notícia alarmante que chegou ao seu encontro. Ele sempre tinha esses momentos de concentração em que viajava fundo em seus pensamentos. De alguma forma ele sabia que esta era mais uma situação em que isto se fazia necessário.

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A avó de Pedro, sua tia e a senhora foram para a cozinha enquanto Pedro se manteve na sala e foi acompanhando posteriormente pela sua prima. O silêncio foi então interrompido por ela  que, ao retornar do banheiro, tentou ter com ele uma conversa sobre assuntos comuns de primos. Para iniciar o diálogo, enquanto perguntava como ele estava, ela repentinamente o assustou dizendo:

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– Meu Deus! Pedro! Tem alguma coisa na Janela!

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Ele olhou rapidamente na direção para onde ela apontava e sentiu que realmente havia alguma presença negativa e estranha lá fora espreitando e olhando para dentro da casa. Porém eles não conseguiram identificar nem ter a certeza do que era. Já era início da noite e a janela estava apenas clareada pelos candelabros dentro da casa. Enquanto os dois ficaram se perguntando o que poderia ser aquela presença, de repente sua avó cruzou a sala e foi em direção ao quarto em silêncio e de cabeça baixa. Imediatamente Pedro foi até a cozinha para saber o que havia acontecido. Sua tia o contou que sua avó estava se sentindo triste e solitária naquela noite pela ausência do seu esposo. Ela falou que a matriarca da família disse já que sentia o peso da idade e um cansaço ainda maior pelo que já viveu em sua vida. Todas aquelas histórias conversadas na cozinha a cansaram muito e ela acabou dizendo que se a morte chegasse já estaria em boa hora.

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Para Pedro foi muito ruim ouvir aquelas palavras sendo repassadas pela sua tia. Quando ele pensou em correr para o quarto e ficar próximo à sua avó começaram vários acontecimentos estranhos. A senhora escrava, aquela que lhe trouxe a notícia da presença da Pisadeira, entrou em um transe repentino ao seu lado. Ela ficou de pé com os olhos voltados pra trás. Era possível ver o branco do seu globo ocular enquanto ela tremia pra frente e pra trás e falava uma série de palavras em uma língua desconhecida. Ao mesmo instante da sala, a prima de Pedro gritou:

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– Voltou Pedro, Voltou! Rápido venha ver o que é! Está na Janela querendo entrar. – Havia de fato alguma criatura tentando forçar a estrutura pelo lado de fora.

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Barulhos foram escutados em todas as janelas da casa e passos eram ouvidos no telhado a todo tempo. Enquanto isso, algumas palavras foram pronunciadas de forma mais clara pela senhora negra. Ela continuava a tremer cada vez mais rápido e começou a tirar parte da roupa. Aquilo ficava cada vez mais estranho, era como se ela fosse um receptor de toda a energia que estava sendo emanada pelo ser que tentava invadir a casa. Pedro se aproximou para entender melhor o que ela dizia e foi surpreendido com as palavras praticamente sussurradas e repetidas:

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– Devolva-me a água. Deixe que eu leve a água. Devolva-me a água. Deixe que eu leve a água.

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Em um súbito impensável, a tia de Pedro encheu uma panela com água e começou a banhar a senhora no meio na cozinha. Afinal de contas qual água deveria ser devolvida? Qual água foi tomada e deve ser entregue novamente? Eles não conseguiam de fato entender, mas continuavam a banhar a senhora em uma atitude sem sentido. Se havia alguma relação com a jarra de água levada pela manhã, eles não tinham nenhuma certeza.

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Pedro foi correndo para a sala, mas estava muito preocupado com a sua avó. Ao olhar para a janela ele realmente conseguia sentir uma presença do lado de fora, mas não identificava o que era. Lembrava claramente das suas experiências na fazenda e temia por tomar qualquer decisão que o colocasse novamente em uma situação de conflito. Pedro estava sendo controlado pelo medo e em uma atitude inconsciente movida pelo temor daquele desconhecido ele resolveu ir para o quarto mais próximo da sala. Logo no cômodo ao lado estava a sua avó sentada em um pequeno sofá com o olhar vago sem que aparentasse perceber qualquer parte daquela movimentação na cozinha e fora da casa. Pedro foi em direção à cama enquanto sua prima continuava gritando:

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– Pedro, por favor, ela vai entrar, faça alguma coisa. Lute! Não a deixe entrar. Se ela conseguir vai levar minha avó, ela é quem está mais fraca agora.

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Algo estranho deixava o olhar de Pedro escuro e ele não conseguia controlar suas ações. Como se estivesse desmaiando ele caiu sobre a cama pronunciando frases em um desabafo dizendo:

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– Eu não quero lutar, eu não tenho forças para lutar. Eu não quero isto novamente. Ela não vai entrar.

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Então, ao cair na cama, Pedro ficou totalmente perdido da sua capacidade de reação. Ele não conseguia atender aos pedidos da sua prima e o medo de se deparar novamente com um ser desconhecido e desta vez perder a batalha era algo que o fazia temer além do seu controle. Ao deitar-se, ele entrou imediatamente em um sono profundo que movia sua mente entre a realidade e o imaginário. Ele ainda conseguia ouvir sua prima, mas o som estava confuso em sua cabeça. A casa foi tomada de uma escuridão completa apagando-se quase todas as fontes de luz. Somente as velas do oratório no quarto em que Pedro estava continuaram com chamas, as mesmas que o seu avô deixou acesas no dia anterior. A luz tênue e as faces dos santos em madeira naquele quarto eram a única coisa que Pedro conseguia enxergar entre os intervalos de sonho e realidade enquanto perdia e recuperava sua visão. Porém, de repente os olhos de Pedro não se abriram mais.

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O som da janela sendo quebrada e da porta sendo bruscamente fechada pelo vento foi escutado e ele sentiu o peso de uma mulher ao entrar no quarto e pisar sobre ele. Imediatamente a criatura agarrou com uma das mãos os dois pulsos de Pedro e com a outra mão pressionou fortemente o seu pescoço. Ele não conseguia se mexer daquela forma e uma vontade de vomitar o envolvia provocando uma ânsia de morte devido ao peso dos pés da criatura pressionando seu estômago. Ele tentava se livrar da Pisadeira ainda de olhos fechados, mas não havia movimento que ele fizesse para se ver livre daquelas mãos longas com dedos esguios que o prendiam e não o deixavam respirar. Algo o impedia de enxergar novamente, mas ele buscava forças para tentar discernir algo buscando fazer algum movimento que o libertasse. Era possível ouvir o som do gargalhar estridente daquele monstro. A criatura estava sobre ele e, em uma tentativa esforçada, Pedro então conseguiu ver por meio de uma luz fraca e de forma muito rápida. Se tratava de fato dessa tal Pisadeira e ela estava agora em cima dele.

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O que estava muito estranho era o fato de que a criatura quando mencionada nas lendas não costuma ter uma atitude tão agressiva. Sabendo do que se tratava e que era algo mais real do que uma parte de seu sonho, Pedro estava certo de que deveria fazer algo para tentar se salvar. Deveria lutar contra ela para que não fosse morto ali mesmo. Ele começou a se debater tentando se livrar, mas quando a Pisadeira percebeu que ele estava saindo do encantamento e iria abrir os olhos, ela então colocou uma de suas mãos sobre seu rosto. Com isto, tendo um filete instantâneo de ar para respirar, ele abriu os olhos exatamente no momento que ela mudava a mão de posição. Ele teve ainda mais temor em seu coração ao ver que a criatura tinha um furo na palma da mão. Exatamente por este lugar Pedro conseguia ver o rosto dela com aqueles cabelos embaraçados e aquele nariz peludo e longo. Era possível ver que a criatura estava sedenta pela vida dele devido ao calor de seus olhos vermelhos e arregalados olhando em sua direção. Quando percebeu que Pedro a enxergava, ela ficou ainda mais exaltada. Tentava sufocar ele contra a cama e brincava com o seu sofrimento dizendo:

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– Quer me ver, quer? Quer saber como nós somos? Quer experimentar um pouco? Venha, abra os olhos. Abra mais os olhos Pedro, eu vim de longe para encontrar você.

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Houve mais desespero em saber que a criatura sabia seu nome. Cada vez mais que ele se debatia ela sentia prazer e inclusive babava sobre o rosto dele em um frenesi incontrolável. Enquanto isto, ela lambia a face de Pedro tentando induzi-lo a se entregar para a morte sem resistir. Vendo que ele ainda sufocava na tentativa de sobreviver, a criatura cometeu um grande erro. Ela tentou atingir os seus laços de família provocando ele.

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– Já tentaram te levar uma vez e agora eu vou conseguir, mas se você resistir eu levarei sua avó se não levar você.

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Pedro, que olhou na direção das velas e das varias imagens de santos, clamou forças tentando estender as duas mãos presas na direção delas. Recebendo um último alento, ele gritou embaixo da mão da Pisadeira:

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– Não! Você não levará ninguém!

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As luzes das velas aumentaram de maneira descontrolada como se reforçadas por algum combustível e isto incomodou mortalmente a criatura. Esta luminosidade cresceu até explodir ofuscando tanto a Pedro quanto a Pisadeira que temeu o que seria aquilo. No momento da explosão ela deu um grito horrível e pulou para fora da casa pela janela correndo de medo.

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Pedro não tinha mais forças para se levantar até que a porta foi arrombada pela sua família. Eles o encontraram deitado com o rosto bastante machucado e os pulsos marcados com a força que a Pisadeira havia imposto para tentar segurá-lo. Um pouco do seu sangue manchava os lençóis brancos e seu pescoço estava praticamente imóvel. As mulheres que estavam na casa entraram chamando por Deus pensando que Pedro estivesse morto, mas logo o viram respirar e ficaram mais tranquilas. Ele foi acolhido e seus ferimentos imediatamente começaram a ser tratados por elas. A senhora negra o observara o tempo inteiro mantendo certa distância enquanto as demais mulheres que estavam na casa agiam preocupando-se com a saúde dele. Quando foi recuperando a consciência, a primeira coisa que Pedro fez foi olhar na direção dela e falar:

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– Agora eu entendo o que a senhora tentava nos avisar. Perdoe-me, mas eu não conseguia perceber antes. Era uma Pisadeira de fato e ela não estava aqui apenas para atrapalhar o meu sono. Ela veio para mandar uma mensagem. Sou desejado por algo que não conheço e estou sendo  observado.

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Os dois conversaram um pouco antes que Pedro caísse novamente em sono profundo e ficou claro que a criatura foi enviada para tentar dar uma lição a ele. Os seres místicos já sentiam a sua relação com eles e temiam o que o pescador poderia se tornar um dia. Restava apenas juntar os últimos pedaços da força que aquela família ainda possuía para que fizessem uma oração e tentassem acalmar seus corações. Aquela foi mais uma noite em que muito se pensou e pouco se falou. A família de Pedro estava sendo cada vez mais exposta àquela realidade daqueles seres e todos temiam o que estava para acontecer dali pra frente. Sabiam que ele não iria se contentar em apenas viver estas histórias de forma passiva. A sua jornada de descobertas e experiência neste mundo desconhecido iria acontecer a qualquer preço.

Capítulo 11: Um Breve Descanso

A recuperação de Pedro foi longa e sofrida. Ele praticamente não se levantou da cama nesse período e os ferimentos demoraram a sarar. As marcas do encontro com a Pisadeira ficariam como lembranças eternas em sua vida da mesma forma como no incidente do seu avô com o Capelobo. Passou-se mais de uma semana desde o episódio na casa da sua avó e somente após este longo período Pedro então pôde voltar a contemplar o nascer do sol. Ele esteve bastante tempo em recuperação e o calor solar transferido diretamente para a sua alma foi um fortalecedor sem igual. Aquele momento serviria para que ele começasse a recuperar as suas forças assim como a esperança de voltar a ter dias normais em sua vida.

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O jovem pescador decidiu que seria uma boa escolha dar uma rápida caminhada, afinal era por volta daquele horário que costumava estar pronto para a pescaria. Esta sua atividade cotidiana sempre lhe rendia boas histórias e um prazer inigualável. Sem que avisasse aos demais na casa da sua avó, ele se preparou e saiu em sua jornada solitária. A rua ainda estava vazia, pois era bem cedo e muitos ainda dormiam em suas camas. Todos estavam confortáveis devido à ausência de notícia de Pedro por uma semana. Eles já conviviam com a falta de lembranças mais recentes dos episódios estranhos que ocorreram. Sem incomodar nem os pássaros que cantarolavam saudando o novo dia, ele caminhou despercebido até a praça do vilarejo que ficava em frente ao mar. Bem de longe ele pôde ver os saveiros já embarcados distantes no horizonte. Ali estavam muitos de seus amigos com os quais perdera total contato desde o evento desastroso na fazenda. A saudade era aliada quando misturada com a esperança de que um dia tudo voltaria ao normal. Aquele calor do sol, aumentando bem vagarosamente, trazia todas as memórias boas fazendo com que as ruins ficassem de lado por alguns instantes.

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Esta praça em que Pedro estava era bem simples, totalmente tradicional com árvores e áreas de caminhada, mas além das esperanças projetadas por ele, naquele momento poderia ser considerada uma praça até certo ponto triste, vazia de objetos e pessoas. Conforme o dia começava, alguns caminhantes apareciam aos poucos. A visão do jovem Pedro naquele lugar com o pescoço enfaixado e o olhar perdido na direção do mar formava uma figura da qual eles já não tinham mais capacidade de ter medo. Para eles era um pobre coitado digno de pena, mas que, mesmo assim, era melhor manter certa distância por precaução. Alguns pais trouxeram seus filhos para brincar em uma área aberta da praça. Pedro estava perdido em seus pensamentos, mas estas movimentações das pessoas na praça logo chamaram sua atenção e ele pôde até se divertir de longe vendo as brincadeiras das crianças despreocupadas. Foi desta forma que começou aquele dia, de uma maneira tão singela sem nem dar pistas do que aconteceria no seu decorrer.

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Pouco tempo depois, Pedro decidiu que deveria voltar à sua própria casa. Ela ficava bem próxima à dos seus avós e ele já não retornara há um bom tempo. As duas moradas eram bem parecidas e tudo estava propício a um retorno singelo. Quando ele chegou à sua morada, as portas estavam trancadas e isto era um sinal de que não havia ninguém naquele momento. Ele caminhou pelos fundos onde havia um quintal e pulou pela janela da cozinha para ter acesso ao interior da sua residência. O convite à sua cama, esta que ele não via há um bom tempo, foi maior do que qualquer outro desejo que pudesse possuir naquela ocasião. Algo que seria apenas um descanso de poucos minutos se transformou em um sono de um dia inteiro e que, para ele, demorou o tempo de uma eternidade. Aquilo seria um merecido saborear de uma vida tranquila que já tivera em outros tempos.

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Pedro esteve sozinho pelo restante do dia e seu sono não foi interrompido nem mesmo pelos galopes dos cavalos. Os animais andavam para cima e para baixo do lado de fora da casa ajudando aquele vilarejo a ter suas atividades cotidianas. Lá, na casa dos seus avós, a notícia da sua ausência não demorou de se perceber. Diversas pessoas que, enquanto Pedro lá estava, não tinham coragem de se aproximar daquele local foram logo avisar que ele foi visto na praça da praia pela manhã e que depois disto foi para sua própria casa. Sabendo onde estava o seu neto seus avós ficaram mais tranquilos. Quando estas informações foram confirmadas, a casa dos avós de Pedro virou um centro de conferência para o qual todos estavam se dirigindo querendo ter notícias daquela família. Eles queriam saber como foram os dias em que estavam de portas fechadas sem aparecer nem ao menos nas janelas. Aquela exposição se estendeu por todo o dia até o final da tarde se iniciar.

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Foram colocados alguns observadores na casa de Pedro para verificar se ele tentaria retornar para a casa dos seus avós. Praticamente todo o vilarejo se reuniu em frente à pequena casa dos seus avós buscando informações. Foi uma atitude que se generalizou descontroladamente. Até mesmo a regra de não se falar sobre os assuntos desconhecidos foi quebrada por muitos curiosos que ali estavam. Como havia muita conversa a ser colocada em dia e sabendo que a noite seria longa, algumas velas começavam a ser preparadas para serem acessas. Estavam à frente daquela reunião, a avó e o avô de Pedro, ambos sentados em frente à porta da casa enquanto uma multidão ouvia as histórias sendo contadas principalmente pela matriarca daquela família. O avô de Pedro permanecia sempre calado, mas fazia companhia para sua esposada o tempo inteiro. Em seus pensamentos ele conversava consigo reforçando a lembrança de que falar sobre tais assuntos não era algo bom. Talvez fosse necessário acabar com aquela conversa o quanto antes. Quisera ele ter escutado seus pensamentos e ter encerrado logo aquela conferência.

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Devido ao fato de que em lugares pequenos e com poucas pessoas todos se conhecem, houve um silêncio repentino quando três viajantes apareceram na pequena estrada que cortava o vilarejo. O avô de Pedro foi o primeiro a reagir àquelas presenças e a se levantar. Ele olhou na direção daqueles homens desconhecidos e disse:

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– Quem vem de lá?

– É de paz! – Ouviu em resposta.

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Imediatamente todos identificaram o sotaque português do desconhecido e que remetia à língua falada por algumas pessoas da corte do império. Muitos temeram, mas nenhum teve coragem de se mexer. Afinal, o que faria um português perdido por aquelas terras distantes das grandes cidades? Seria algum oficial da província? Ninguém conseguia saber ao certo, então o homem vestido tipicamente como um nobre, sendo o representante daquele trio, se identificou apenas como Nuno. Ele se dirigiu ao patriarca da família de Pedro iniciando com isto uma breve conversa.

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– Peço desculpas, eu não queria assustar vossa senhoria. Estou aqui de passagem e venho de muito longe. Perdoe-me a intromissão, mas afinal de contas porque estão todos assim reunidos nesse inicio de noite? É alguma festa? Alguma reunião?

– Não é nada meu nobre senhor, estamos apenas jogando conversa fora. – Respondeu o avô de Pedro passando a mão na cabeça.

– Mas tanta gente assim? Mais me parece uma conferência do que apenas conversas para jogar fora. Está toda a vila aqui? Viemos pela estrada e não vimos mais ninguém até chegar nesta casa e ver todos vocês reunidos. Me digam! Do que estão falando?

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O avô de Pedro não quis esclarecer o motivo real daquela reunião por precaução, mas uma das crianças que acompanhava seus pais falou alto para o viajante:

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– Estamos contando histórias de terror.

– Nada disso! Segure a boca dessa criança, mulher.  – Respondeu imediatamente o avô de Pedro se dirigindo à mãe do falastrão com um olhar firme e depois voltando a Nuno. – Não estamos falando nada demais, meu senhor.

– Mas hora, deixe disso! Que assunto bom de falar.  – Insistia o português – Vejo que o senhor é o contador de tais histórias, mas não se faça de tímido se quero muito ouvir. – Nesse momento Nuno tirou um documento de uma grande sacola que carregava e apresentou a todos que estavam ali reunidos – Pois então, viajo por estas terras a caminho do encontro com a Sua Majestade, a Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, a primogênita. Sendo eu um enviado da sua irmã, a Princesa do Brasil, Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Peço que todos retornem às suas casas, pois conversarei aqui apenas com vosso contador de histórias.

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Ninguém se quer fez noção de contestar ou questionar tal ordem. Todos se afastaram do lugar em silêncio deixando os viajantes a sós com a família de Pedro. Da mesma forma fez o sol que já estava praticamente deitado sobre o horizonte. Cordialmente, seu avô convidou os três para entrarem em sua casa e tomar um café. Nenhuma outra pessoa a não ser ele ousou trocar qualquer palavra com aqueles desconhecidos. Eles se acomodaram na sala e Nuno pediu que as histórias fossem novamente contadas, pois tinha muito interesse em conhecê-las. Mesmo relutando em falar sobre o assunto, o senhor daquela casa foi persuadido pela presença imponente de representantes da imperatriz em sua casa. Então iniciou a conversa falando sobre o ocorrido na fazenda que acontecera com eles e com seu neto, Pedro. Nuno estava atento ouvindo tudo e a todo tempo tomando nota em um caderno de registros no qual aparentava já ter escrito bastante.

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A história foi sendo contada de forma bem detalhada, mas quando o avô de Pedro falou pela primeira vez o nome Matinta Pereira, Nuno cuspiu o café de espanto com aquela noticia de que eles tiveram contato real com um mito. Ele levantou imediatamente e exigiu que fosse levado à presença de Pedro. A mãe do jovem pescador também estava na reunião da família e se assustou com o pedido tão intenso. Ela até mesmo pensou em mentir sobre o local onde estaria seu filho, mas sabia que nada pararia aquele português em seu desejo tão claro sobre aquelas histórias. Então o pai apenas olhou para sua filha e, sabendo que ela faria conforme sua ordem ele orientou que ela levasse os visitantes à sua casa onde Pedro deveria estar.

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Devido à proximidade das casas, apenas a mãe de Pedro e os três visitantes foram andando até a casa dela. Esta situação foi bastante estranha para aquela família e se tornava ainda mais quando percebiam por entre as frestas das janelas das casas vizinhas que todos estavam observando aquela comitiva andando pela rua do vilarejo. Ao chegar ao destino desejado, o grupo bateu na porta e chamou Pedro pelo nome. Ele, reconhecendo primeiramente a voz da sua mãe, levantou ainda meio zonzo para abrir e se assustou com a presença dos três homens em sua companhia. Em poucas palavras tudo foi apresentado por ela sobre os visitantes e o desejo deles de conversar sobre os últimos acontecimentos com ele. Mal saberia Pedro que aquela visita desencadearia mais uma série de grandes acontecimentos em sua vida.

Capítulo 12: Ossos à Mesa (NOVO)

Pedro recebeu os visitantes em sua casa sem entender por completo o que acontecia. Desta vez apenas dois deles entraram naquela residência e o terceiro ficou do lado de fora à porta fazendo uma espécie de guarda. Era uma forma de garantir que ninguém entrasse e ninguém saísse daquele lugar enquanto os outros estivessem lá dentro. Nuno que havia se apresentado bastante falante no primeiro encontro, agora apenas observava o jovem Pedro com uma espécie de admiração que o assustava. Quando a porta da sala foi fechada isto serviu como liberação para que Nuno estivesse livre para retornar com o seu falatório. Ele se dirigiu a Pedro agradecendo a recepção e por diversas vezes se referiu à pouca quantidade de tempo que teriam para aquela conversa. Possivelmente ele reforçava o fato de que o sol já havia se posto e a noite começava a se apresentar. Mantendo esta postura de pressa, Nuno praticamente não deixou que Pedro falasse ou completasse a história iniciada pelo seu avô. Ele estava interessado em outro assunto naquele momento. Estava interessado em uma comprovação.

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Pedindo licença, mas sem esperar a autorização, Nuno tirou de sua mochila um embrulho do tamanho de um livro e colocou sobre a pequena mesa de centro da sala. Pediu uma vela à mãe de Pedro para que aproximasse e permitisse que todos vissem melhor o que havia posto ali. Ao desembrulhar aquele pano amassado houve uma grande surpresa, pois se tratava de ossos de uma mão humana. Pedro e sua mãe se afastaram um pouco perguntando do que se tratava aquilo, então Nuno respondeu:

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– Eu estava te procurando, Pedro. Estou apenas querendo provar que você é realmente quem eu queria achar. – Finalizou a abertura total do embrulho deixando à vista todos os ossos humanos que carregava consigo – Estes são os ossos da mão de uma Maria que foi devora virgem por um monstro do norte de onde viemos. Isto aconteceu no início de nossa jornada até chegarmos ao seu vilarejo. Se meus planos estiverem corretos, a magia aqui armazenada será revelada por você, Pedro.

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As quatro pessoas estavam reunidas na sala da casa e presenciavam aquela cena desconfortável. Nuno lembrava o grupo quanto à necessidade de estarem sempre atentos quanto às forças negativas presentes a todo o tempo ao redor deles. As luzes das velas naquela casa já estavam bastante fracas e ele orientou que os quatro sentassem em forma de quadrado no chão da sala. Eles ficaram ao redor da mesa em que estavam os ossos, então fecharam os olhos e abaixaram a cabeça.

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Mesmo desconfiados, Pedro e sua mãe estavam meio enfeitiçados com as palavras do Português e fizeram conforme sua orientação. Eles ficaram em silencio e de olhos fechados até que as coisas estranhamente começaram a se transformar. As luzes das velas mudaram das cores amarelas para tons vermelhos enquanto a noite ficava cada vez mais densa e escura lá fora. Era possível ouvir mais uma vez o som do vento aumentando e passando pelas janelas. Era como se tivesse vida própria quando acertava os ouvidos daquelas pessoas e entrava na casa sem pedir licença. Ouviam-se vozes de outros seres desconhecidos que se aproximavam deles e queriam tocá-los. Tudo foi progressivamente se transformando em um grande caos.

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Surgiram algumas cores vermelhas e amarelas como bolas de fogo sobre os ossos. Elas eram arremessadas umas contra as outras e criavam micro explosões. Essas chamas lembravam os contos da avó de Pedro quanto às Beatatãs. Todos na sala ficaram com a sensação de que estavam isolados do mundo, ou até mesmo em outro mundo, em uma casa sem teto, sem paredes, jogados ao abismo. Ainda assim quase todos permaneceram em silêncio e de olhos fechados, porém Pedro conseguiu se livrar daquela agonia e abriu os olhos de maneira repentina. Ele pôde ver que os outros três estavam em uma espécie de transe. De alguma forma Pedro conseguia visualizar o que os demais ali reunidos viam em suas mentes. Sempre estava tudo em meio ao caos, sempre estava tudo em chamas. Ao ver aquilo, toda aquela dor, ele se levantou e subiu em uma caixa de frutas que estava ao lado da porta.

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Em um ato de desespero Pedro começou a gritar de forma enfática por socorro, mas era como se estivessem isolados naquela sala. Pedro não media esforços e chamava por ajuda com todas as forças que tinha naquele momento. Ressaltava o poder da palavra, evocava para que tudo ficasse bem e para que ele fosse livrado daquele sofrimento. As palavras eram forçadas, mas em verdade ele não emitia um som se quer. Em resposta contraria àquelas preces ele sentia tudo ficando cada vez mais intenso como em tentativa para que desistisse. Ainda assim Pedro persistiu em seu clamor até que, de forma repentina, todas as velas se apagaram e tudo ficou no escuro e em silencio.

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Após o apagar e reacender das velas não era mais possível ver nenhuma das outras três pessoas sentadas naquela sala. As luzes voltaram vagarosamente ainda com tons avermelhados, mas o caos em si havia se esvaído. Então Pedro andou pela casa à procura dos outros que não estavam mais na sala. Encontrou a sua mãe de forma serena no corredor da casa e ela estava tocando os cabelos. Os traços de índia e negra a permitiam ser considerada uma mulher de beleza forte. Aparentemente tudo havia se apagado da sua mente e ela não se lembrava do que aconteceu há pouco, pois ela estava em frente ao espelho com o olhar tranquilo e despreocupado. Algo o incomodava quanto a ficar em casa e Pedro a convidou para sair e respirar um ar puro no lado de fora, na entrada. Sua mãe pediu tempo para se arrumar mesmo sem nenhum sentido naquela situação e àquele horário da noite. Ainda assim, ele sentia desejo de sair logo, pois não havia encontrado os dois visitantes dentro da sua casa e isto o deixava bastante confuso. Quando abriu a porta lá estavam os dois desaparecidos e o terceiro homem que ficou de guarda. Ao ver Pedro, Nuno correu em sua direção perguntando se ele estava bem e pedindo desculpas.

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– Me desculpe Pedro! Eu não imaginava que aconteceria isto de forma tão intensa. Você está além do que eu imaginava.

– Eu não entendo. O que houve lá dentro? Como vocês saíram sem que eu visse? – questionou Pedro bastante confuso.

– Nós tentamos te acordar, mas você estava em transe. Você de alguma forma se ligou a alguma coisa e mentalmente nos deixou a sós naquela sala. Ficou em pé numa caixa de frutas com os olhos abertos e arregalados. Estava perdido em alguma dimensão distante da nossa. De repente você começou a gritar. Nós até tentamos acordá-lo, mas você não respondia, era como se você não nos visse. Sabíamos que a tentativa de despertá-lo poderia te causar algum problema. Sua mãe esteve de olhos fechados o tempo inteiro e pelo visto não percebeu nada que aconteceu lá dentro. Ela nem percebeu você ao lado da porta e então nós achamos prudente sair da casa depois que a acordamos. – Pedro estava pasmo com a situação e quase não conseguia responder ou questionar, então Nuno continuou – Isso que fiz foi uma exposição, Pedro, foi um teste. Eu te expus a um objeto contaminado com o espectro de um mito real. Viemos desde Portugal para uma missão aqui no Brasil e a nossa embarcação se perdeu da rota desejada. Pretendíamos ir para o Rio de Janeiro, mas apenas conseguimos aportar ao norte do país. Tivemos muitas dificuldades no mar como se algo não quisesse que nós chegássemos aqui com vida e por causa disso nossa embarcação ficou bastante prejudicada. Avistamos terra na altura da foz do Rio Parnaíba. Sabendo dessa coincidência, tínhamos duas grandes oportunidades: a primeira que era de subir o rio e continuar a nossa jornada em direção ao Rio de Janeiro cortando o país, e a segunda era de executar as ações das nossas metas nestas terras. Teríamos a oportunidade de provar se a lenda de um ser chamado Cabeça de Cuia que vivia naquele rio era realmente verdadeira.

– Como assim provar se a lenda era verdadeira? Vocês não sabem o que são as reais lendas verdadeiras! Vocês não têm por que fazer isto!

– Não Pedro! Nós sabemos assim como você sabe e nós temos exatamente o motivo necessário para fazer isto, esta é a nossa missão aqui. Estamos indo para o Rio de Janeiro e conseguimos nesse caminho ter a feliz ou infeliz confirmação da veracidade dessa e de outras lendas. Não posso te dizer com felicidade que tivemos total êxito nessa descoberta do Cabeça de Cuia, pois custou a vida de uma bela jovem chamada Maria. Ela era filha de uma mulher de um grupo de lavadeiras. Nós as contratamos na margem do rio enquanto providenciávamos formas de continuar a viagem. Nosso desejo foi delicadamente calculado para garantir que esta mulher fosse contratada e ainda mais que levasse sua filha junto. Tivemos que convencê-la, pois seu marido foi bastante claro negando a presença da sua filha nessa atividade. Nós pagamos mais caro para tê-la, pois era parte do plano. – Pedro olhou com desconfiança e então Nuno começou a esclarecer – Escute Pedro! Em relação a este tal Cabeça de Cuia, havia a história do menino que se chamava Crispim. Ele era muito grosso com a mãe dele. Um dia quando ela lhe preparou uma sopa com apenas ossos, pois era a única coisa que possuíam, ele descontente jogou contra a própria mãe uma sarava do alimento ofertado junto com o prato e tudo mais. Aqueles itens a atingiram na cabeça e feriram a pobre coitada de morte. Antes de falecer ela o amaldiçoou para que vivesse no rio e só voltasse a ser humano se devorasse sete moças virgens de nome Maria. Soubemos dessa história desde Portugal junto com diversas outras lendas e mitos brasileiros. Queríamos apenas criar uma situação na qual este ser pudesse aparecer para que provássemos a sua real existência. Infelizmente a situação saiu do controle. Lá no rio lavando as roupas permanecia a mulher e a sua filha, exatamente uma Maria e por ser bastante jovem, tínhamos a certeza de que era uma virgem. Preparei diversos homens prontos para capturar a criatura caso ela aparecesse, mas subestimei o que habitava naquelas águas turvas. Ainda era metade da tarde, o sol estava claro e não estávamos muito preparados para uma situação brusca e inesperada naquela hora do dia, admito. Lá estava Maria. Ela era linda, de cabelos negros, ficava sempre perto da sua mãe, pois todos ali temiam pela tal lenda do Cabeça de Cuia. Sua beleza jovial era uma distração para aquela situação a qual estávamos colocando a pobre Maria. Como o rio era bastante espaçado e não tinham muitas pedras naquela região, as mulheres permaneciam à sombra de um gigantesco umbuzeiro que ficava à sua margem. Esta árvore era bastante incomum naquela região e seu tamanho era estranhamente desproporcional à suas similares em outros lugares do Brasil. Nossa embarcação foi trazida para o rio com bastante dificuldade e estava bem próxima, permitindo aos homens estarem de plantão observando sempre o que poderia acontecer com a nossa isca, a Maria. Acredite Pedro! Apenas um segundo. Foi apenas um único mísero momento de distração e a criatura nos surpreendeu. Ouvimos vários gritos entre todas as mulheres. Pensamos até que eram vários peixes ou cobras, pois o monstro se mexia muito rápido dentro da água como se pudesse estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ordenei imediatamente que todos saíssem da água, mas nos esquecemos de dar a atenção principal àquela que merecia. Mesmo Maria não sendo a ultima a tentar sair da água, a criatura derrubou diversos dos meus homens e tirou ela das mãos do seu próprio pai. Ele estivera sempre observando a filha e entrara correndo na água quando foram escutados os primeiros gritos. Ali mesmo em sua frente, o monstro se revelou. Era muito forte e tinha uma cabeça gigantesca e terrível. Mandei que os homens o pegassem, mas nenhum deles conseguiu prende-lo ou tirar a pequena Maria de suas mãos. Alguns que tentaram agarrá-lo simplesmente foram pegos pelo pescoço e afogados no rio pela criatura. Aquele monstro gritava de forma horripilante varias vezes: “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe!”. Quando então parou de berrar, ele olhou para a pequena que segurava pelo punho e disse: “Uma Maria! Será a primeira!”. Então ele a devorou ali mesmo, deixando a água manchada de sangue e empurrando todos à sua voltada para ainda mais longe. Ele fez isto dando um soco contra a água do rio provocando uma grande onda que derrubou a todos. Jogamos várias redes e paus na água, mas não era mais possível salvar a pequena Maria ou capturar a criatura. As lágrimas dos seus pais se misturavam com o sangue da filha na água do rio. Todos nós ficamos boquiabertos sem saber o que fazer com a violência do ataque. Minha experiência com o mito foi desastrosas, Pedro. Perdi homens e a vida de uma menina inocente foi descartada sem necessidade alguma. Nós fomos expulsos na noite daquele dia pela comunidade local que nos acusava de ter provocado a fera. Nós também nos culpávamos por isto e eu mais do que todos. Foi exatamente ao continuar a viagem que vi em uma das redes jogadas ao rio que ela retornara com o punho da Maria. Ele foi partido com a violência do monstro enquanto a segurava.

– E você trouxe isso para a minha casa? – Perguntou Pedro descontente.

– Eu sempre soube que havia uma energia diferente nesses ossos e você era a chave para a minha confirmação. Estava à procura de um sensitivo, Pedro. Esta pessoa é você. Existe alguma ligação que permite que você se conecte com esses espectros e preciso da sua ajuda para descobrir e entender melhor tudo isso. Venha comigo em nossa jornada até o Rio de janeiro e te contaremos tudo ao chegar lá.

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Este convite mudaria a vida de Pedro de uma vez por todas e seria uma grande oportunidade de ter algumas respostas para as perguntas que trazia consigo na sua vida tortuosa. Ele ainda não conseguia entender todas as palavras que lhe foram ditas e a sua mente já não aguentava mais tantas informações ao mesmo tempo. Talvez fosse a hora de tomar uma grande decisão, ou ele se esconderia para sempre ou iria encarar o seu destino de frente.

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9 Comments

  • Tarciso Sousa abr 14th, 2015

    Nossa estoria incrivel, fascinante e empolgante, nota 10 ao BDM pela ideia!!

    Responder
    • Ramon Santos abr 17th, 2015

      Valeu Tarciso, também estamos super empolgados na escrita. O segundo capítulo já está saindo do forno.

      Responder
  • Roberto Junior abr 15th, 2015

    Fala aê Equipe BDM, tô aqui para parabenizar esse primeiro passo, ficou incrivel, estão de parabéns!

    Responder
    • Ramon Santos abr 16th, 2015

      Valeu Roberto. Iremos publicar mais um capítulo hoje e estaremos publicando os demais até o dia 16/05.

      Responder
  • Daniel abr 18th, 2015

    Perfeito <3

    Responder
    • Ramon Santos abr 20th, 2015

      Go go go!!!!

      Responder
  • Lucas ago 19th, 2015

    o projeto continua, neh????

    Responder
    • Michel Alvim out 6th, 2015

      Oi Lucas, Continua sim.
      Estamos publicando novas imagens na nossa pagina do facebook.

      Responder
  • Fabiano Franco out 1st, 2015

    Like a boss!

    Responder

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